À atenção da ainda ministra, de M. Gago e também do professor Vital Moreira: aprendam o que é ser professor

A fotografia é da Faculdade de Belas-Artes, ao Chiado. O texto é de um dos seus mestres mais conservadores, como se costumava dizer. Deve ser datado de finais dos anos 50. Sugiro pois, com esta prova documental, que os fanáticos governantes e seus apoiantes suspendam o autor deste texto (que cito com extremo prazer) das suas funções académicas. Exigo-o mesmo; leiam e procedam adequadamente:

“A lei na burocracia escolar era a do menor esforço, adorável condição para a rotina sem quezílias dos artistas-funcionários, sonhadores do isolamento criador, mas infalíveis nas três visitas semanais das aulas; três horas de oito em oito dias. Bons tempos ! Elucidativa fisionomia do ambiente: os professores de há sessenta anos, os três de Pintura [Columbano, Carlos Reis, Veloso Salgado], outro de Escultura, Simões de Almeida, e dois de Desenho, Ernesto Condeixa e Luciano Freire, seis ao todo, beneficiavam de um atelier particular na colina sagrada do velho Convento de S. Francisco, uma dependência para cada um, isenta de renda, inalienável e vitalícia. E os dias úteis, mais os domingos, repartiam-se pelas duas ocupações, as de interesse privativo no aposento-oficina, recebendo amigos e a freguesia dos admiradores, e as de obrigação docente no mais tolerável dos exercícios, assinando o ponto quando calhava. Assim era o mundo risonho e franco da antiga Escola.”

Por mim, nada li melhor sobre o trabalho do professor.

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28 respostas a À atenção da ainda ministra, de M. Gago e também do professor Vital Moreira: aprendam o que é ser professor

  1. Pedro diz:

    Ó Carlos Vidal, essa do “Por mim, nada li melhor sobre o trabalho do professor.”, num texto sobre o microcosmos da Escola de Belas Artes de Lisboa há 100 (?) anos, é irónico, como agora está na moda, não é?

  2. Carlos Vidal diz:

    Tem menos de cem anos, tem menos de cem anos, e que tivesse cem anos ? O “A felicidade é uma ideia nova” de Saint-Just foi dito ontém.

  3. Pedro diz:

    Bem, o Columbano e os outros tipos terão sido professores da escola nos princípios do Século XX, acho eu. Não devo ter errado por muito. E continuo sem perceber a utilidade daquela cena idilica na compreensão do trabalho do professor.

  4. Carlos Vidal diz:

    Desburocratize-se, respire fundo e tranquilize-se. Depois, verá que a obra nasce. Pensamos assim, por aqueles lados.

  5. pisca diz:

    Morte aos professores e a quem os apoiar !!

    Lurdinhas ao poder, já !

  6. Carlos Vidal diz:

    Talvez sirva para a disciplina de Anatomia I ou Anatomia II.

  7. Será do Varela Aldemira? Não estou a ver quem mais, daquele tempo, possa ter escrito sobre a escola de BA… ao nivel do corpo docente, claro

  8. Carlos Vidal diz:

    É do professor Aldemira, um dos meus ídolos.

  9. Almajecta diz:

    Com tanto Apolo Musageto, Vilão Português e escriba, o que dirão os pais das pimpolhas e mulherões que lá estão como alunas, assistentes e professoras?
    Tal fixação na Anatomia, Geometria e Composição é dum visionarismo que reconhece e torna a prever a do Risco, a Quadrum e outras instituições afins de actos pastoris.

  10. Mas quem é que se julgará o Carlos Vidal para explicar ao Mariano Gago (que foi meu professor), à Lurdes Rodrigues e ao Vital Moreira o que é ser professor?

  11. António Figueira diz:

    Mas quem é que se julgará o Filipe Moura para explicar ao Carlos Vidal se pode ou não explicar ao Mariano Gago (que não foi meu professor), à Lurdes Rodrigues e ao Vital Moreira o que é ser professor?

  12. O Filipe Moura julga-se uma pessoa com a noção do ridículo.

  13. António Figueira diz:

    Ó Filipe Moura,
    Informa pf o Filipe Moura que faz parte da noção geralmente aceite de ridículo fazer consecutivamente comentários ridículos sobre posts de um dos outros autores deste blog, o último dos quais relativo a um post colocado há três dias.

  14. Carlos Vidal diz:

    O Filipe Moura tem um problema grave: não escreve em nome pessoal do que gosta, não escreve sobre aquilo que gosta e eu sei porquê. Como não escreve nada, manda bocas aos mestres alunos de mestres – eu fui um dos que explicou a Poussin para não dizer que Caravaggio veio ao mundo para destruir a pintura, herdei a cátedra de Leopoldo de Almeida e de Columbano – Filipe Moura, dizia eu, como não escreve nada, só posso presumir que gosta de tudo.
    Atravessa uma fase trágica de que talvez não saia. Gosta de tudo, logo não pode escrever nada, porque não escreve do que gosta – e se gosta de tudo é porque não tem a noção do ridículo.

    Além disso, consegue cansar-me mais do que a feira de arte Arte Lisboa (ou Basel, porque não?) que me obriga a estar 5 horas de pé a cumprimentar conhecidos e desconhecidos.

    Mas eu vou publicar um panfleto inédito de Filipe Moura; descobri-o nuns arquivos de Turim, por assim dizer, mas não sei a quem Filipe Moura se dirige:
    Carta de Filipe Moura para ………………………
    ” Você teve a bondade de exprimir o seu descontentamento com o facto de não chegar até si mais nenhum livro «que o compensasse de estar privado da minha companhia». Senti neste momento, com uma certeza que não deixou de ser dolorosa, que nem no próximo ano, nem no seguinte, nem em mais ano nenhum da minha vida, escreverei um livro, quer latino, quer inglês: e isto por razão estranha e penosa que a infinita superioridade do seu espírito saberá, com um olhar não obscurecido, situar no lugar que lhe pertence no reino dos fenómenos corporais e espirituais, aberto harmoniosamente perante si: quero dizer que a língua em que me seria, talvez, dado não apenas escrever mas pensar, não é nem o latim, nem o italiano, nem o espanhol, mas uma língua de que não conheço uma só palavra, uma língua com que as coisas mudas me falam e da qual deverei talvez um dia justificar-me perante um juiz desconhecido”.

    Bravo, para quem tem a noção do ridículo, o mutismo é bom conselheiro. É bonito ver um insigne aluno do professor M. Gago escrever assim.
    Mais livros destes e temos um professor.

  15. Carlos Vidal diz:

    Por acaso, partilho editora com a doutora Lurdes Rodrigues, seu Filipe, por isso mais respeitinho pela senhora e pelos autores da Celta (leia “A Representação da Vanguarda”, Celta, 2002, primeiro que tudo).
    Além do mais, está lá em cima uma verdade: você demora 3 (três) dias (!) para perceber um texto sobre o ensino, assinado pelo mestre livre Varela Aldemira ? Nas Belas-Artes percebemos isto num segundo e deliramos de felicidade.

    Volta Leopoldo de Almeida, Luís Cristino da Silva (acabaste a desenhar o Areeiro mas não faz mal, antes foste moderno a sério). Vocês não sabem talvez, mas eu digo-vos. Nas Belas-Artes, nesse tempo, um dos melhores alunos de Geometria Descritiva era o Vasco Santana. Podia até ter ido leccionar para o Técnico, podia dar umas aulas de Ironia Fina e Grossa, ah Lisboa estava e está necessitada. Volta Santana, não brinques mais com o professor Piloto (gozavas com ele por acabares os testes rapidamente), vai para o Técnico, ensina Geometria àquela malta, ensina-os a rirem-se deles.

  16. António Figueira diz:

    Carlos,
    O teu inédito encontrado numa banheira em Turim a mim parece-me Hofmannsthal.

  17. Carlos Vidal diz:

    Nenhum aluno do professor gago poderia ter escrito um naco daqueles, caro António Figueira ?
    Pelo que conheço dos livros da Celta, a dra. Lurdes Rodrigues, não poderia escrever aquilo, certamente, nem ajudar a escrever aquilo; o professor Mariano não sei se poderia – como diz o meu amigo Santo António, “ora, ora”, vamos investigando.

  18. Almajecta diz:

    Ou isso, não esquecer as edições vendaval em Imagens Sem Disciplina e Sombras Irredutíveis, principalmente nos diagramas. Os artistas na sua débil sapiencia e erudição jamais se aproximaram do acontecimento-verdade, ontologias e etc e tal, bom, bom mesmo é o iscte, as ciencias politicas, as comunicações e agências várias, o ensinar a ensina a ensinar e recentemente a arquitectura do técnico, Óh, Óh.

  19. Carlos Vidal diz:

    Os tecnocratas e a sua infâmia depressa serão engolidos pelos seus próprios meios. O Imagens sem Disciplina mais o Sombras Irredutíveis, também são coisas de que gosto. Mas não são coisas técnicas, de ciência ó que é. São raros os que reconhecem Hofmannsthal, como se viu (tiro o chapéu, obviamente, a António Figueira), a técnica do técnico ou a arquitectura do técnico (coisa esquisita esta “arquitectura”) têm de meter explicador.

  20. A arquitectura do Técnico tem empregabilidade; os cursos de Belas Artes não precisam de explicador, mas os licenciados que não se tornam funcionários públicos, como o nosso Vidal, anseiam por que o estado lhes crie emprego (provavelmente para leccionarem “ironia”).

    Eu “não demoro três dias” a perceber o seu texto; nem sempre tenho é vagar para o comentar logo. Não tenho uma vida fácil de funcionário público do quadro. Pela mesma razão, mas sobretudo por uma total falta de interesse, tenho mais o que fazer que estar a ler os seus livros. (Por favor digam-me um, um só blóguer qe venha para aqui ou para outro blogue qualquer rimpingir os seus livros aos leitores. Precisa de royalties? O salário de assistente das Belas Artes não lhe chega? Ao menos o João Galamba recomendava o Kant!) Por falta de tempo e de interesse vou deixar de ler os seus textos: você para mim é como se não existisse. Não se chateia você e sobretudo não me chateio eu. Passe bem.

  21. Luis Rainha diz:

    Se bem percebi, Filipe, só te falta mesmo é seres “do quadro” para atingires a tal “vida fácil de funcionário público”…
    Quanto a isso dos livros, olha que todos fazemos isso, tenho a impressão. Todos os que já escrevemos livros, claro.

  22. “Se bem percebi, Filipe, só te falta mesmo é seres “do quadro” para atingires a tal “vida fácil de funcionário público”…”

    Luís, é verdade. Mas funcionário público avaliado. Permanentemente. Enquanto estiver ao serviço.

    “Quanto a isso dos livros, olha que todos fazemos isso, tenho a impressão. Todos os que já escrevemos livros, claro.”

    Não digo que deva ser tabu um tipo falar dos seus livros (quando os escreveu), claro. Mas olha, ao menos que o admita, e não os tente impingir subliminarmente. Promoção gratuita e a despropósito como esta? Parece a Bomba Inteligente… O Carlos Vidal parece achar que o livro dele é de leitura obrigatória. Visto de fora é cómico.

  23. Carlos Vidal diz:

    A arquitectura do técnico e da técnica têm empregabilidade; o mérito das Belas-Artes é o mérito das Belas-Artes, grande ou pequeno, mas não se mede pela “empregabilidade”. De outro modo: não fiz nem faço posts sobre livros meus, nem tenho culpa do facto de Vasco Santana ter sido bom aluno em Belas-Artes de Geometria Descritiva.

    Nem me apresentei como autor da Celta. Disse partilhar editora com a doutora Lurdes, apenas depois de FM me perguntar quem eu era para falar da doutora.

  24. Almajecta diz:

    Voltei, voltei, não se pode ir ali ao fundo da horta sem que se encontre na casa dos anexos, resmas de jornais, livros, CD’s cassetes VHS, DVD’s e outros instrumentos da indústria da cultura.
    Caro Carlos, como muito bem vislumbras aqui o divulgador sou eu, por isso a minha força, de resistência e invenção, exige que renuncie às delícias da margem, da obliquidade, da desconstrução infinita, do fragmento, da exposição assustada à mortalidade, da finitude e do corpo. Depois de tantos anos como Naif, mais uns tantos como Autodidacta e Self Made Man, ter mudado e tomado licença bem como mui arduamente investigado, finalmente me encostei ao funcionalismo publico e púbico, pois a bem dizer me encostei á Academia de Belas Artes e seu Academicismo ultra exemplar e conservador, tão ambiciosa quanto impessoal, tão desnudada para o pensamento universal quanto o traço daquele que, há muito, gravou na sombra de uma gruta o signo intemporal do bisonte. E as saudades que eu já tinha da Alhandra ou Alhambra. É este o nome de tal nectar?

  25. Carlos Vidal diz:

    “funcionário público avaliado. Permanentemente. Enquanto estiver ao serviço.”
    “O Carlos Vidal parece achar que o livro dele é de leitura obrigatória. Visto de fora é cómico.”

    Boas tiradas, mas que idade tem o seu autor ?

    Já vi muita coisa, mas isto é bizarro.

  26. Carlos Vidal diz:

    Caríssimo almajecta, que fazer ?

    Fazes bem em citar o Alain B (marca registada), até porque quanto a avaliações como eu dizia, só o Vasco. Do Gonçalves sempre gostei mais do que do Santana. Às vezes faz falta uma muralha de aço. Agora, para quê falar de academia, professorado, pasodobles, linóleos o litografias, quando não falas em avaliação.
    Como vamos de avaliação em relação a performances íntimas?
    E os livros publicados, escreveste-os ou foi a doutora Lu, ou o professor a aprender a aprender? Sabes o que dizes, ou confundes a horta com a multitude e a indústria cultural?
    Os teus pasodobles foram avaliados? E tu? Qual é a taxa de empregabilidade daquilo que fazes na tua academia, sem contar com o pessoal que ficou pela tuna (que não existe na tua academia, nem existirá) ?
    Vamos, fala, protesta, sê cidadão.
    Estamos todos mal habituados é o que é.

  27. Almajecta diz:

    Vamos andando, curando dos conteúdos, organizando e construindo a horta.
    Essa tua ideia da muralha de aço agrada-me, sou puritano, ascético, durmo em tábua de pregos e levanto-me muito cedo. Convivo com a família, com alguns amigos, vou aqui á praia, agriculturo na horta, faço umas leituras, toco o instrumento, copio uns tantos bonecos por aqui e pouco mais.
    Felicidades e Próspero Ano Novo.

  28. Carlos Vidal diz:

    Eu ainda sou mais asceta. Oratórias e Missas: a “Paulus” do judeu Mendelssohn (Herreweghe) a “Solemnis” de Ludwig van, uma casa num monte sem água, mas com luz (para ouvir missas e cantatas), alguns livros sobre a invisualidade e muita suspeição ocular, esse orgão de todas as ilusões. Assim vamos, até ao fim.
    Livros: S. Tomás, Epístolas, S. Boaventura, Grosseteste, pouco mais.

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