2017 será um bom ano.

Neste tempo de consensos mornos, oferecem-nos o espectáculo do histerismo mediático como paliativo para a falta de política. O pais ocupa-se com os tropeções do discurso de Manuela Ferreira Leite. A dinâmica da democracia televisiva, como arte de entreter serões, transforma a falta de articulação, da estimável líder do PSD, num apelo singelo à ditadura. Na realidade as as coisas são muito mais corriqueiras e as mudanças mais interesseiras. O rotativismo parlamentar transformou as alternativas em alternância. Os políticos do PS e do PSD afirmam querer mudar a vida, quando, do mal o menos, só conseguem mudar de vida.  A Mota-Engil tornou-se o horizonte possível da transformação. A esquerda dos interesses defendida por Blair e protagonizada, na terrinha, por Sócrates apenas garante um simulacro de esquerda.

É preciso defender a proposta que o João Pinto e Castro fez no Jugular: sobre aquilo que ele chamou um estalinismo 2.0 (se não te importas podemos mudar-lhe o nome, JPC? ). Afirmar a falta de consenso. Defender o conflito. Criar a vontade extrema de destruir o que está mal e de edificar, contra o presente, algo de novo. Tenhamos a vontade de esboçar um gesto de ruptura, criar um pensamento e reinventar práticas que passam por não aceitar o que há: nem as regras, nem os limites, nem as espectativas do possível.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

13 respostas a 2017 será um bom ano.

  1. Carlos Vidal diz:

    Nuno, “estalinista”, está bem, em homenagem ao pai dos povos.
    Zizek não é parvo quando disse que o pai dos povos tinha “salvo a humanidade do homem”.
    E do que esse pessoal nada jugular precisava era de boas lições estalinistas; é o que eu acho.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Carlos,
    O que prova que o Zizek escreve muita coisa para epater le bourgeois. E no meio de 50 livros diz bastante disparates. Fico-me pelo Lenine, sem múmia nem sucessor.

    Abraço

  3. Carlos Vidal diz:

    É, como sabes, a táctica dele – chocar todos os que são correctinhos. Bem comportados e bem socializados na casa e no trabalho. Meditam zen ao fim da tarde e tudo.

  4. Carlos Fernandes diz:

    E o que é a esquerda, hoje?
    Não querendo abana(na)r as meninges formatadas por slogans e muitos livr(ec)os, a China hoje, é de esquerda?

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Apesar de me ter tentado abanar as meninges formatadas por slogans e muitos livrecos. Essa é fácil: não é. É suposto que, do ponto de vista dos livrecos, como com tanta graça chamou, a ditadura do proletariado não ser a ditadura sobre o proletariado.

  6. nuno castro diz:

    “não aceitar o que há”. Comecemos pelo consumo. estarias disposto?

  7. xatoo diz:

    a “ditadura sobre o proletariado” (no sentido teórico industrial ocidentalizado do termo) é uma mistificação: à época na Rússia 90% da população era de camponeses, mujiques analfabetos: como fazer uma democracia de base demcrática com este “material”?

  8. Tudo menos a pasta de dentes, achas que fazia diferença?

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    “Discussão

    – Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes,
    camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os
    mesmos direitos.
    Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.

    Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda
    com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer,
    era outra coisa.
    Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos.
    Acho um snobismo.

    – Eu sou democrático – rugi entre dentes, como resposta. – Tenho amigos no exílio,
    todos democráticos.
    Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem,
    ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático.
    Eras capaz de fazer isso ?

    – Não sou democrático.

    Não havia resposta a dar. nenhuma. Ele não era democrático, não
    sabia de democracia.

    Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que
    lá é que é a democracia.

    Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!
    Viram isto ?”

    Mário Henrique Leiria
    Contos do Gin-Tonic

  10. nuno castro diz:

    esse é que é o problema: tendem a confundir esse misterioso “o que há” com a democracia. ora, eu acho que isso é ficar com a história a metade. e a maneira como ironizas (bem melhor que MFerreira Leite, seja feita justiça) é bem a expressão desse dilema. até porque não respondeste. afinal, estarias ou não disposto?

  11. Caro Nuno Castro,
    Isto não é uma questão dos nossos direitos individuais, mas da nossa sobrevivência colectiva. Os meus e os teus padrões de consumo são impossíveis no quadro da degradação ambiental, quanto mais , em relação, a uma humanidade com acesso mais igualitário aos recursos. Claro que teria de renunciar a muitos dos meus consumos. Agora isso só é possível no quadro de uma política global. A renuncia e a diminuição do consumo tem de ser feita com a contrapartida da melhoria ambiental do planeta e das suas condições de equidade social. Não vou para carmelita descalça para, ao meu lado, serem os tubarões que açambarcam mais uma parte (mt diminuta, mas é a minha) do bolo.

  12. nuno castro diz:

    repara que estás no epicentro do dilema do prisioneiro. é isso mesmo: ninguém quer ser o pato que cede enquanto os outros não o fizerem. Mas isto deixa-nos na inércia absoluta. ninguém vai dar o primeiro passo. E coloca, no fundo, o problema do legislador. ou seja, se o Leviathan impedia a guerra de todos contra todos, seria necessário um novo Leviathan, mas que desta vez impedisse a chacina do planeta.

    agora, esta imposição ecológica tendo como contrapartida a diminuição dos padrões de consumo, provocaria um terrível abalo no investimento e, consequentemente, no emprego. teríamos então uma catástrofe humana. parafraseando o Zizek: solução? – não faço ni puta idea!

  13. Pingback: Mas afinal o que é que há? « Solstício

Os comentários estão fechados.