Depois de, felizmente, esquecida a “esquerda” portuguesa, passemos ao “late style”

Como tenho tendência para a surdez, habituei-me à leitura desta obra por Harnoncourt e, não a querendo largar, procurei-a no tube. Encontrei a de Bernstein, que não me comove (por causa do hábito da outra, o que é que se pode fazer?). Esta «Missa Solemnis» é o apogeu do «Beethoven late style». «Late style», «lateness» ou experiência do fim, como dizia Edward Said, morto prematuramente e sempre interessado por este tema da «obra tardia». O termo vem de Adorno, e surgiu no filósofo a partir da experiência da «lateness» nas últimas obras de Beethoven. Said sintetiza muito bem esta espécie de aflição.
Temos artistas que terminam o seu percurso tranquilamente (Rembrandt, Matisse, Bach, etc) e outros que inscrevem no seu período tardio a intranquilidade e a irresolução: Beethoven, Benjamin Britten, Glenn Gould ou Richard Strauss.
«Late Style» é então o culto de um prazer estranho: o da dissociação espaço/tempo; o da artificialidade, decadência, degenerescência, fragmentação, obscuridade, intransigência e natureza regressiva. Mas o «late style» de Beethoven nunca é regressivo, é pura e simplesmente intransigente e intemporal. (Resta apenas dizer que a obra vai ser ouvida no próximo fim-de-semana na Gulbenkian)

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