Depois de, felizmente, esquecida a “esquerda” portuguesa, passemos ao “late style”

Como tenho tendência para a surdez, habituei-me à leitura desta obra por Harnoncourt e, não a querendo largar, procurei-a no tube. Encontrei a de Bernstein, que não me comove (por causa do hábito da outra, o que é que se pode fazer?). Esta «Missa Solemnis» é o apogeu do «Beethoven late style». «Late style», «lateness» ou experiência do fim, como dizia Edward Said, morto prematuramente e sempre interessado por este tema da «obra tardia». O termo vem de Adorno, e surgiu no filósofo a partir da experiência da «lateness» nas últimas obras de Beethoven. Said sintetiza muito bem esta espécie de aflição.
Temos artistas que terminam o seu percurso tranquilamente (Rembrandt, Matisse, Bach, etc) e outros que inscrevem no seu período tardio a intranquilidade e a irresolução: Beethoven, Benjamin Britten, Glenn Gould ou Richard Strauss.
«Late Style» é então o culto de um prazer estranho: o da dissociação espaço/tempo; o da artificialidade, decadência, degenerescência, fragmentação, obscuridade, intransigência e natureza regressiva. Mas o «late style» de Beethoven nunca é regressivo, é pura e simplesmente intransigente e intemporal. (Resta apenas dizer que a obra vai ser ouvida no próximo fim-de-semana na Gulbenkian)

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4 respostas a Depois de, felizmente, esquecida a “esquerda” portuguesa, passemos ao “late style”

  1. jorge diz:

    As suas observações sobre a “lateness” têem muito que se lhes diga. Para já,acrescente ao grupo dos angustiados o Schubert,cujas três últimas sonatas para piano e o quinteto são nitidamente obras de premonição da Morte,no caso dele bem consciente. Quanto ao Strauss,permitia-me algumas dúvidas. As quatro últimas canções são peças de grande tranquilidade,de uma morte doce,digamos,como a do Requiem do Fauré,e a última ópera,o “Capriccio”,é de facto indecisa,mas com uma ironia que transcende a indecisão permanente entre a poesia e a música. E porque não incluir as angustiadasNonas do seu bem amado Mahler e do Bruckner? E assim podíamos ficar debatendo muitas horas coisas bem mais agradáveis e talvez importantes que os discursos da dra.Leite e as reacções de Fulano e Cicrano.

  2. Carlos Vidal diz:

    Debater e ouvir Mahler, sempre, quem me dera. Mas não posso.
    Mas, para já, vejamos o Strauss – limitei-me a seguir a pista de Edward Said, como indico no post. A sua queda na tonalidade, depois das experiências de Elektra ou Salomé, é uma evidência, não é preciso irmos ao Capriccio. Mas a sua tendência recapitulatória, a sua regressão ao século XVIII, é aqui mais evidente que nunca. Said junta Strauss a Jean Genet, Visconti, Lampedusa e Glenn Gould no mesmo capítulo do seu estudo, o melhor livro sobre a lateness desde o estudo iniciador de Adorno: “On Late Style: Music and Literature Against the Grain” (obra póstuma de 2006).
    Este tema é estranho, e nem sei muito bem porquê, mas sempre me interessei por ele. Na pintura, casos soltos como os de Ticiano ou Caravaggio, são impressionantes. Aliás em Caravaggio, como sabe, quase tudo é lateness: tudo em Caravaggio se resolveu entre 1600 e 1610. Quatro anos sem igual na história da arte. Como foi possível? Não sei.

  3. Luis Rainha diz:

    Tens outro tipo de casos, também; como o deChirico, cujo “late style” durou décadas e levou à renegação do trabalho da sua juventude e depois à sua macaqueação e até falsificação.
    Emboa até tenha gozado de um curto período de recuperação, por parte dos pós-modernistas italianos…

  4. Carlos Vidal diz:

    De facto o de Chirico foi um ídolo para os pós-modernistas italianos, copiadíssimo: o Chia, o Cucchi, o Clemente, o Paladino, que se chamavam, nome de Bonito Oliva, transvanguardistas. É late style sim senhor, como o seu irmão Savinio. Curiosamente, Said não os cita.

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