O que eu desejo para a esquerda em Portugal

Como o Filipe Moura, no diálogo em baixo em sms, não obteve uma opinião totalmente clara sobre os meus postes cujo tema era a comparação de Bush e Marcello Caetano a José Sócrates (onde eu afirmava preferir os primeiros), e como os meus comentários igualmente, parece-me, não foram ilustrativos, tentaria desta feita esclarecer de outra forma, se isso tiver algum interesse (o que não creio), algumas dúvidas sobre posições políticas, ou, como intitulo este post, o meu desejo para a esquerda portuguesa, ou seja, sobre aquilo que acho desejável acontecer à esquerda parlamentar em Portugal.

Em primeiro lugar, devo dizer que – se me é permitido afirmá-lo em democracia – não tenho grande simpatia pelo regime democrático parlamentar. Partilho opiniões que vêm do século XIX (esse grande século de Marx, de Courbet e de Manet) até à actualidade, em Alain Badiou, Bernard Stiegler, Mehdi Belhaj Kacem (e atenção a este aparentemente desconhecido pensador), Gilles Châtellet – para citar alguns dos colaboradores de um livro colectivo intitulado “Avril 22: Ceux qui Préfèrent ne Pas”, editado em Paris no passado ano, e que o seu organizador – Alain Jugnon – assim sintetiza na perfeição (e poderia acrescentar autores aqui não incluídos como Agamben ou Zizek):

“Votar, porquê? Esta é a questão. Votar, por quem? Essa já não é questão.  A verdade é apenas esta: todos os candidatos às eleições presidenciais [de Abril, 2007] vos pretendem ver a votar e desejam saber-vos eleitores. Pretendem todos que aí se agrupem. Uma vez que votar é um dever, dizem, porque votar é um dever, prosseguem. De outro modo: o direito de votar é um facto consumado”.

Continua agora sem tradução, e, a seguir, enumerarei os meus desejos para a esquerda parlamentar em Portugal :

“La question est: désirez-vous voter?

Notre réponse est: pourquoi, cette fois-ci, ne pas y aller.

Français, encore un effort pour être la démocratie, absolument! Nous sommes, vous êtes la démocratie, contre tous ceux qui la rappellent à leur ordre, contre tous ceux qui n’attendent que la confiscation totalitaire de votre puissance populaire et constituante!

E, em conclusão:

“NE PAS VOTER, AUJOURD’HUI, C’EST CONTINUER Á ÊTRE LE POUVOIR, TOUJOURS”

(o sublinhado, em maiúsculas, é meu)

Apesar disto, que me parece muito bem argumentado e satisfatório, gostaria de mencionar uns desejos, ou devaneios sem importância, embora realistas, para a nossa esquerda parlamentar:

1. Penso que o maior inimigo da esquerda é o Partido Socialista. Com este PS a esquerda em Portugal não teve passado significativo nem terá qualquer hipótese de futuro.

Com este PS, repito, tal como criado, formatado e estruturado por Mário Soares e agora continuado por José Sócrates, pouco mais do que um neo-soarista, exactamente com os mesmos inimigos e posições no que é fundamental (sociedade em geral e economia em particular). Qual a solução: uma, por mim desejada, admito que irresponsavelmente – que este PS, debaixo da pressão de Manuel Alegre, e se este o quiser encetar, se fragmente irremediavelmente numa ala verdadeiramente de esquerda (e não anticomunista primária) e noutra ala centrista-liberal: o PS necessitaria de se fragmentar em dois partidos para que a esquerda em Portugal tivesse futuro.

Por isso, por pretender o desaparecimento deste PS, é que ironizei preferir Bush a Sócrates.

2. Que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português somem votações na casa dos 20 a 25% (não é impossível).

3. Por fim, para ser ainda mais claro, prefiro um PSD no poder e esta reconfiguração em movimento, do que este PS no governo e esta reconfiguração definitivamente sem hipóteses de andamento.

Só deste modo me parece a esquerda portuguesa poder vir a ter algum futuro. É uma opinião minha, eventualmente pateta; sou, devo dizê-lo, um mero professor que sabe umas coisas de artes plásticas e não um analista político. Aliás, se fosse analista, gostaria de ser uma espécie de V Pulido Valente, errar sempre e ter uma prosa de qualidade subtil. Ou melhor, gostava de poder dizer disparates, mas com uma certa qualidade estética.

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