Novos êxitos da madeirização

Creio que o Carlos Vidal tocou num nervo importante, embora doloroso para muitos. José Sócrates não representa apenas o triunfo da porca técnica. Há uns meses escrevi, a propósito da trasladação para o LNEC de mais uma decisão, isto: «planeamento da criação de pólos de desenvolvimento? Trocado pelas fórmulas da mecânica de solos. Concepção global do sistema de transportes português? Substituída pela máquina de calcular orçamentos. Ideias políticas para modelar as infra-estruturas das próximas décadas? Para quê, se basta ver onde é que os aterros saem mais baratos e se gasta menos cimento?»
Mas hoje a coisa revela-se bem pior. Escudado nas crises externas, nas óbvias incapacidades das oposições, nas trincheiras dos que se sabem sempre na razão, este governo proclama o fim da política. É o “nós ou o dilúvio”. As “reformas” anunciam-se pela sua necessidade pura e evidente, já purgadas da tóxica ideologia; as “medidas” acumulam-se em vez de um projecto com pés e cabeça; a teimosia extrema-se, disfarçada de convicção e clareza de ideias. Por este andar, as próximas eleições nunca oporão projectos; apenas cadernos de encargos e power points. É que do outro lado estará Manuela Ferreira Leite, mais uma exemplar arauta dos malefícios da ideologia, isto enquanto Passos Coelho não a devolve ao limbo de onde nunca devia ter imigrado – depois, talvez outros galos cantem.
Até Alberto João Jardim, com o seu útil espantalho do “colonialismo”, soube evitar este pântano da não-política. Nós por cá só temos direito a um poder que é, afinal, o corolário lógico e quiçá inevitável do “socialismo na gaveta”. E aos seus profetas descerebrados mas fiáveis, malta que sabe bem onde jaz o ideal por que vale mesmo a pena lutar: uma presidência numa qualquer Mota-Engil do futuro.

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3 respostas a Novos êxitos da madeirização

  1. Carlos Vidal diz:

    Concordo obviamente com a expressão “êxito da madeirização”. E vejo no desenrolar da política portuguesa, ou melhor, antevendo já as próximas eleições e a exaustão que nos acompanhará até lá, repito o que disse num comentário em baixo: eu serei capaz de olhar para a mancha de portugueses que viram uma saída ou positiva expectativa votando PS se alguém me acompanhar numa “visita” àqueles que votaram PS e hoje estão desfeitos. Eu conheço muitos.

  2. Nik diz:

    O socialismo que foi para a gaveta não foi lá parar, sabemos hoje, por “traição” ou compromisso de Soares com o diabo, perdão, com a reacção. Foi para a gaveta porque já tinha passado o prazo de validade nos anos 40 do século XX ou mesmo antes. Precisamos de um socialismo fresco, que não seja inimigo do mercado (que grande estupidez!) e que motive as pessoas para trabalhar e inovar. Um socialismo que nunca existiu, meu caro. Eu também não sei se existirá tal coisa… Até os stakhanovistas eram uma impostura, minha Nossa. Eu vivi num país comunista, mas só tomei conhecimento de certas coisas depois da queda do muro de Berlim.

  3. Luis Moreira diz:

    Infelizmente, o que se vê, é do mais pobre.O estado conlui-se com o poder económico ( o financeiro,construção, consultorias) que no essencial são os mesmos,avança para as grandes obras,arrasta a montante umas quantas PMEs,o desemprego baixa durante dez anos e no fim estamos mais pobres.Reínicia-se o ciclo,vai pingando para baixo alguma coisa,vem a crise…
    É assim desde o condicionamento industrial de Salazar.Os grupos económicos e as famílias,as elites, são as mesmas.Nisso o 25 de Abril não mudou nada! E se dúvidas houvesse os recentes episódios (BCP e BPN) estão aí para as tirar.Quem são os actores? O que foram? estão ligados a quem e a que interesses?

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