Mareógrafo

Sempre sonhara com ondas. Era escusado procurar mais exactidão. Mesmo no dia em que começara a recensear as excursões nocturnas às costas rochosas dos seus sonhos, nunca se soubera capaz de lhes traçar uma origem. Sempre se lembrara de sonhar com ondas. E sempre o roteiro daqueles pesadelos ameaçadores fora quase o mesmo: ele isolado num canto da praia. Ou querendo desesperadamente passar por um caminho, uma estrada marginal. Ou sendo surpreendido num simples dia de Sol e lanches à beira-mar. O mar erguia-se de súbito numa sucessão de velozes montanhas de água, raiadas de espuma, turbilhonando na sua direcção, fechando-lhe os caminhos, impedindo a sua fuga, assolando os seus refúgios. Mas nunca ele se deixava afogar em sonhos. Acordaria sempre a tempo, ofegante, recuperando o fôlego que não chegara a perder.

Algo era mais certo: só havia pouco reparara na cadência clara e quase invariável daqueles pesadelos. Se antes eles lhe pareciam espaçados e bissextos, depois surgiam-lhe com o compasso das próprias vagas oceânicas, enchendo-lhe o horizonte, constantes emissários de tempestades para lá da curva da Terra. Já se deitava com o terror salgado nos lábios, acossado pela expectativa de mais uma excursão a mais uma praia assassina.
Claro que peneirara, sem grande fé, todos os lugares-comuns da psicanálise: o mar como fronteira insegura entre as plataformas continentais do consciente e o reino líquido do inconsciente; o mar como símile do retorno à tranquilidade amniótica do ventre materno; os abismos oceânicos como antecipação da morte; ou o reviver puro e simples aos tempos vivos e aventurosos da infância. E como não recordaria ele os dias passados na tumultuosa praia em que quase nascera, fugindo aos banheiros de serviço e aos avisos adejantes das bandeiras vermelhas, mergulhando em bandos de rufias de fatos de banho garridos no mar que arrepiava os adultos, cavalgando ondas que o erguiam bem acima da claridade indiferente da areia seca, até conseguir vislumbrar o asfalto ao longe, quase um quilómetro terra adentro. Naquelas vagas, que por vezes o guardavam meias horas a fio, incapaz de delas se extrair, escondia-se por certo parte da chave das suas tempestades sonhadas. Ou talvez a resposta fosse ainda mais chã, e o seu dia-a-dia fosse afinal a única Lua que comandava aquelas marés, afinal tão banais, simples ecos soando através de um alfabeto de cristas e paredes de água, uma gramática de derrames, espirais e vagalhões. Sim. Como um surfista, também sabia recensear as suas ondas, numa taxinomia precisa de desfiladeiros de espuma, mansas elevações ondulantes, dunas líquidas, destruidores imparáveis. Cada noite invocava o seu género específico de onda: os mais frequentes colocavam-no numa mansão decrépita à beira-mar, assistindo de uma varanda ferrugenta ao lento, quase imperceptível avanço das águas, sorrateiro demais para lhe permitir a fuga a tempo. Depois, havia o avanço tortuoso, de automóvel, por um caminho escorregadio em cima de uma falésia, enquanto a fúria da tempestade corroía e invadia a sua rota para a segurança. Ou a muralha desordenada de ondas sobre ondas em correria sobre os limos secos sobre os rochedos.
Menos variados eram os cenários das suas noites de marés vivas: regressava ciclicamente a cada local ameaçado, embora tudo lhe parecesse – mas apenas um pouco – diferente. Ter-se-iam alterado alguns pormenores ou cada praia seria sempre única, confundindo-se sim com a atmosfera espessa, fria de pânico que a todas cobria? Ele não sabia. Tal como lhe parecia estranha e arbitrária a hora a que tudo sempre se encenava: o entardecer preguiçoso dos dias de Outono, esparsas figuras humanas sempre ao longe, com as suas longas sombras, lançadas por certo de recordações das praças que deChirico pintou. Talvez “humanas”, aliás: aqueles transeuntes petrificados nunca se moviam, parecendo, à distância, mais totens, quiçá pedaços de madeira deixados pelas ondas no areal, do que corpos humanos.
Um dia, quase por brincadeira, começara a acumular fotografias de praias, recolhidas na internet ou em jornais. Colava-as, sequencialmente, num pequeno álbum – o seu compêndio da geografia do medo. Pouco depois, já buscava com sofreguidão a costa com que sonhara, segundos após saltar da cama, o sal sonhado ainda fresco nos seus lábios. Lívido face ao ecrã do computador, procurando as suas recordações de turista amnésico em busca de algo terrivelmente importante – mas o quê? – que deixara já não sabia onde. As fotografias compunham um álbum de viagem monótono mas enigmático: era impossível não ver como elas se organizavam de acordo com quatro ou cinco arquétipos. Mas esses, os modelos originais das praias e das escarpas em que se aprisionava à noite, continuavam ausentes, opacos ao olhar obsessivo do Google. Cada imagem que adicionava à sua colecção tornava uma das suas paisagens oníricas um pouco mais próxima e nítida; mas nunca o suficiente para que os seus elementos se focassem no lugar certo, na ordem devida e recitável: ali é o céu, que é daquele azul, e há o rochedo negro com um buraco que leva ao seu topo (por onde só uma criança passaria), e um pontão com um farol semi-destruído. Não. Aquelas pistas acumulavam-se em redor das suas praias como as cinzas vulcânicas envolveram os cadáveres de Pompeia: coladas ao mais relevante da carne e da pele mas incapazes de as descrever para lá da ausência e dos contornos mais imprecisos.
Depois, começou a escrever descrições num caderno que guardava na mesa de cabeceira, rabiscando, nos primeiros segundos depois do despertar estremunhado de mais um sonho marítimo, frases que dali a uns dias já lhe custariam a descodificar. Então, adicionava-as às páginas onde jaziam as imagens mais aproximadas do cenário do último pesadelo. Notas de rodapés sistemáticas mas inúteis: “Praia com molhe de tetrápodes em betão. Vagalhões desordenados. Ao fundo, uma linha de barracas às riscas azuis e brancas”. Ia assim compilando um guia turístico para parte alguma; aguardando uma repetição ou um qualquer indício de coalescência com as imagens das linhas de costa reais que não cessava de coleccionar. Como que procurando o caminho para as férias perfeitas, seguindo as indicações de alguém que já lá estivera mas que agora apenas guardava farrapos de uma ou outra pista titubeante e imprecisa.
Depressa o caderno se revelou incapaz de alojar tantos souvenirs de viagem; um grande quadro de cortiça logo ocupou a parede fronteira à sua cama, tomado por um exército de coloridos pioneses empalando mapas, fotos, post-its, reproduções de pinturas marinhas. Por vezes, acordar com aquele panorama feérico antes os olhos estremunhados deixava-o a pensar numa árvore de Natal demente; outras, num fantoche vudu destinado a torturar a sua própria memória. Apesar de tudo, não obstante este aluvião de sedimentos desconexos, nascia devagar o mapa do seu mare incognitum. E isso tranquilizava-o: cartografar é fazer do desconhecido uma mancha domesticada, cruzada por meridianos familiares e inofensivos. Dava assim algum Norte às paisagens de terror que já o assombravam mesmo acordado. Decorando os nomes das costas das praias que mais se assemelhavam às suas, compondo o roteiro para uma excursão impossível, um mapa das costas da sua mente, mais do que de qualquer local real. Do seu quadro pulsava um GPS em busca da perturbação original, da fonte das tempestades nocturnas, o alinhamento planetário que desencadeara aquelas marés vivas. Mas, na verdade, não mantinha qualquer esperança de encontrar mesmo, algures no mundo real, uma das suas praias inundadas de medo; cada parecença fugaz seguia sempre o mesmo caminho, do entusiasmo tremente à decepção. Mapas, bússolas, orientação pelo Google ou pelas estrelas; nada o deixava mais próximo de porto algum.
Mas algo mudou. Há três dias, recebeu o anúncio da sua primeira baixa-mar de sizígia. O oceano ainda recuando, ainda em vazante, revelando rochedos imensos, gigantes adormecidos ou talvez cadáveres petrificados, sob o sudário das vagas em fuga. Neste sonho, a água não o perseguiu. Ficou ali em fragmentos, lagoas castanhas entre as rochas cobertas de algas moribundas, poluída por uma calma de presságio. Neste sonho, os banhistas aproximavam-se, a um tempo repelidos e fascinados pela estranha maré. Quando a baixa-mar chegou, o mar aquietou-se sem aviso, como um lençol subitamente esticado. Ao longe ele via ainda, enovelada pelo calor do fim da tarde, uma franja de espuma vermelha, mancha imóvel, detrito da rebentação ainda há tão pouco furiosa e tão sem fim. Uma ideia nova, assustadora, excitante: porque não poderia ele, por uma vez, entrar na água de livre vontade, caminhar na areia molhada e perseguir as ondas, antes que se recolhessem algures num continente longínquo? Acordou.
Por duas, três, quatro noites, ele deitou-se sem sono, mente febril de quem aguarda o final de uma série televisiva emocionante, uma jogada decisiva numa partida de xadrez arrastada por horas e horas. Ele sabia que do espelho maculado de escuma do seu mar estava quase a emergir uma qualquer revelação. Um monstro marinho ou simplesmente a resolução em calmaria perpétua. Fosse o que fosse, tanta expectativa deixava-o insone e frustrado até que era mais o cansaço do que o sono que o abatia, deixando-o naufragado em mais uma noite sem sonhos.
Hoje não.
A praia é, com toda a clareza, a mesma da maré baixa que tanto o assombrou. Uma faixa estreita de areia encostada a uma muralha artificial. Metros à sua frente, a gigantesca chaminé de uma fábrica evidentemente abandonada, vidraças partidas, graffitis escorrendo pelas paredes listradas de rachas e ferrugem. À sua esquerda, dissolvida na lonjura enevoada, uma serra que ele sabe, mais do que vê, desfigurada por uma mina de carvão. E as dunas até lá, por certo férteis campos de fósseis, aprisionando cardumes de trilobites fugidas de outros sonhos, mais antigos e primitivos. Mas o mar não está aqui.
O oceano deu lugar a um leito rochoso, já seco e pestilento de algas e moluscos podres. Mesmo a mancha de espuma carmim ficou para trás, secando também sobre a geografia miniatural de desfiladeiros, picos e planaltos do basalto a nu.
Após aquela faixa rochosa, apenas areia. O leito oceânico, exposto até onde o seu olhar chega. Nas noites que perdeu sem conseguir sonhar, o colosso de sal, água e fúria recuou quilómetros e quilómetros, como uma duna líquida empurrada sabe-se lá por que tremendos ventos. Ou terá toda a água sido sugada por aquela extensão deserta de areia cinzenta?
De repente, já tomou há muito a decisão que o amedrontou antes. Caminha, talvez há horas, pelo leito do Atlântico desaparecido. A chaminé da fábrica de cimento resumida a um ponto carmim sobre o horizonte. Sob as suas botas, areia já seca, seixos, conchas e restos de medusas, caranguejos, pequenos peixes alaranjados. Gaivotas deambulam entre a carnagem, debicando aqui e ali, esvoaçando em espirais hesitantes, perdidas na erupção daquele deserto súbito. Gritam-lhe avisos estrídulos. À sua frente, uma traineira encalhada, adernada para bombordo, redes presas à sua popa como um rasto de espuma congelada. A escada de corda embate ritmicamente contra o metal do casco. Nem os homens do mar quiseram esperar mais por uma maré que os levasse de volta aos labirintos de correntes onde nunca antes se tinham perdido.
Ele está lá. A quilómetros do que antes era a costa. E há algo mais. Agora. Um murmúrio, um marejar, um ronco, refulgindo do horizonte com demasiada luz.
Ele relembra-se: antes de um tsunami, as águas recuam sempre. Mas regressam.
Nem avalia a tentação de correr de volta para terra firme; escuda os olhos com uma mão e perscruta as dunas breves. Agora, aguarda a ferocidade do refluxo das suas ondas.

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3 respostas a Mareógrafo

  1. Magnífico. De início, estranhei o excesso de adjectivos e advérbios (nada típico da tua escrita), mas depois entrei na onda. Literalmente.

    Este, de resto, faz um excelente conjunto com aquele dos incêndios (já agora, se puderes, posta aí o link que não o encontro).

    Vou ler outra vez.

  2. Luis Rainha diz:

    Obrigado pela visita e pelos elogios, JP. engraçado que menciones esse excesso, pois é tal e qual o que estou agora a podar. Depois, mando-te o conjunto todo, espero eu. Abraço.

  3. Ai manda, manda. Fico à espera. Abraço.

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