Gostava de ter escrito isto (como se costuma dizer)
17 de Novembro de 2008 por Carlos VidalA foto é de Edward Said, o último dos humanistas de esquerda, na fronteira do sul do Líbano. Do outro lado é Israel. Said foi o último dos humanistas, estou certo. Depois dele, acabou-se.
O texto é de Slavoj Zizek, ainda válido apesar de datado de 2002 (da edição portuguesa de “Welkome to the Desert of the Real”) :
“Nas suas «Notas para uma Definição da Cultura», o grande conservador T. S. Eliot fez observar que há momentos em que a única escolha que se apresenta é a do sectarismo ou a da descrença, quando o único meio para manter viva uma religião consiste em efectuar uma separação sectária relativamente ao seu corpo principal. Hoje, é a nossa única oportunidade: a única maneira de conservar uma herança europeia renovada passa pela via da «separação sectária» em relação a essa mesma herança europeia clássica, uma separação do corpo moribundo da velha Europa. Uma tal ruptura deveria permitir repor em questão as próprias premissas que tendemos a aceitar como um destino inevitável, como dados inegociáveis da nossa difícil situação: o fenómeno habitualmente designado como «nova ordem mundial» e a necessidade de nos acomodarmos a ele pela «modernização». Para dizer as coisas francamente, se a nova ordem mundial emergente é o sistema inegociável imposto a todos nós, então a Europa está perdida. Para a Europa, a única solução é aceitar o risco de dissipar o enfeitiçamento que cobre este destino. Nada poderá ser aceite como inviolável nessa nova fundação, nem a necessidade de «modernização» económica nem os mais sagrados fetiches liberais e democráticos”
Ora, é isto, parece-me, que se aplica à questão da inevitabilidade das reformas económicas a que nos temos de sujeitar.


Comentário de Filipe Moura
Data: 17 de Novembro de 2008, 18:59
“Modernização” económica não quer dizer nada. É como “esquerda moderna”: são chavões. Tudo depende do que se quer dizer com “moderno”. Agora daí a demonizar a “modernização” (no caso do Carlos, a económica)… enfim.
Os meus fetiches sagrados não são liberais. Se o Carlos se desse ao trabalho de tentar perceber os eleitores que deram maioria absoluta a um partido (em vez de tentar acabar com esse partido), não misturaria tudo no mesmo saco. Mas – uma vez mais? – que esperar de quem acha o Sócrates parecido com o Bush? É mais fácil o Carlos continuar com as suas certezas.