Um bushista no 5 Dias

“Bushista” é com certeza na óptica do Carlos Vidal, e esse bushista sou eu. Sim, eu, que considero Bush o pior presidente dos Estados Unidos, que levou o país (e desgraçadamente muitos atrás dele) para uma guerra injustificada e sem saída onde se perderam muitas vidas e muitos outros valores, que reestabeleceu a tortura, que desrespeitou os direitos humanos, que aumentou as desigualdades, que protegeu os amigos ricos, que é o principal responsável pela crise internacional. No entanto, estou perante alguém que diz “não distinguir politicamente” George W. Bush de José Sócrates. Eu nem sei quem é que o Carlos distingue destes dois; sei, claramente, que não quero que uma pessoa que afirma isto me distinga deles. Se essa pessoa não os distingue, afirmo taxativamente que não quero ser eu o distinguido. É como “bushista” que eu quero que essa pessoa me veja.
Já em 2001 Bush afirmou que “quem não estava com ele estava com os terroristas”. E a verdade é que eu estive com ele. Vi o atentado ocorrer a poucas dezenas de milhas de onde vivia e não pude aceitar que tantos inocentes morressem, por muito justas que fossem as críticas aos EUA. Por isso apoiei e continuo a apoiar a luta contra o terrorismo. A luta contra o terrorismo mesmo, e não manobras de distracção como a invasão do Iraque.
Já nessa altura muita gente me chamou “bushista”. Se eu tivesse a mesma miopia política dessa gente (algo que infelizmente a maioria dos “bushistas” a sério tem), diria que quem me considera “bushista” é igualzinho a Bin Laden. Mas prefiro passar por cima disso e não perder tempo com essa gente. Prefiro continuar a apoiar Sócrates quando achar que deve ser apoiado e a criticá-lo quando achar que merece ser criticado.

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11 respostas a Um bushista no 5 Dias

  1. António Figueira diz:

    Filipe,
    Fico na dúvida: tu leste o texto do Carlos Vidal, ou o leste apenas o título do texto do Carlos Vidal? É que o texto é um bocadinho mais sofisticado do que aquilo que pode parecer, e o título é obviamente uma provocação. A indignação moral perante os desmandos de Bush fica-te bem, e eu partilho-a, mas se bem me parece o que o texto contém é sobretudo um elogio da política e uma correspondente condenação da sua negação, por meio do discurso dito da inevitabilidade. É preciso não confundir uma análise simples com uma análise simplista.
    Abraço, AF

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Filipe,
    Acho que o António tem razão. Era o mesmo que alguém dissesse, lendo o teu texto, que tu não queres que ninguém critique o Sócrates, quando tu não dizes nada disso.
    É normal e positivo que a gente discorde, entre nós no 5 dias, em muitas coisas, é preciso conseguir que a forma de expressar estas divergência nos enriqueça. E isso passa por valorizar a opinião dos outros.

    Abraço

  3. A.xavier diz:

    Por certo, n leste o Aznar no su elogio de despdida a Bush, esse herói que nos salvou te haver mais ataques terroristas à escala do 9/11. Desactualizado, Sr. Filipe Moura. Desactualizado.

  4. Carlos Vidal diz:

    E o Aznar também é “José”, a propósito.

  5. Luis Rainha diz:

    Estás a ver a coisa de viés. O Bush tem a virtude de fazer e impor a política; o Sócrates gostava de a ver desaparecer numa voragem de crises e oposições manhosas. É só isso, não uma manif contra o PM.

  6. Finalmente alguém – o Luís Rainha – que consegue ir à raiz da questão, sem necessidade de citar o Nietzsche, Badiou ou Valery. (Sim, eu admito que não consigo ler um texto do Carlos Vidal sem saltar algumas partes que não percebo e nem tenho que perceber. Não me são dirigidas. Que saudades do Galamba.) Pois bem, o Sócrates não é político? E o Durão, era? E o Guterres? Mesmo o Cavaco? Será que este é um problema do Sócrates ou dos políticos portugueses dos últimos vinte anos? Então… porquê só o Sócrates?
    Dizes que o Bush “tem a virtude de fazer e impor a política”. Então e o Sócrates não tem? A que se devem então as manifestações de 120 mil pessoas? Critica-se o Sócrates por querer impor uma política, por uma lado, e diz-se que é melhor o Bush, por outro? Que sentido é que isto faz? Eu andei nas manifestações contra o Bush.
    Finalmente há a questão da inevitabilidade. Eu estou perfeitamente convencido de que as políticas do Sócrates – aumento da idade de reforma, avaliação dos professores e das escolas, reestruturação do SNS e por aí adiante – são inevitáveis. Pode discutir-se o modo como são feitas (como fez e bem o Ricardo Santos Pinto a propósito da avaliação dos professores). Mas o que está agora a motivar esta agitação é que há muita gente que pensa (ou foi convencida) de que as reformas não são inevitáveis. É esta a guerra a ser travada. E eu sei de que lado estou. Se o SNS e as escolas públicas não se reformarem, morrem. É isso que os sindicatos não percebem.

  7. Luis Rainha diz:

    Filipe,
    As manifestações de 120 mil pessoas têm mais a ver com a teimosia em impor uma dada burocracia do que com a implementação de uma qualquer política, clara e perceptível. Eu, por mim, sou a favor da avaliação rigorosa dos professores, MAS acredito hoje que o modelo em que se insiste contra todos pode ser melhorado.

    No entanto, nem é isso o mais importante. Tocaste no nervo quando falaste de Guterres, Durão, etc. A doença é a mesma: o expediente em vez da política, as “medidas” no lugar da ideologia. Compara então o Sócrates com o Bush. Ou a Ferreira Leite com o Passos Coelho. Estás a ver a coisa?

  8. Luis Rainha diz:

    Ouve: tens saudades do Galamba? Logo tu, que te ouriçavas todo sempre que ele escrevia a palavra “Ciência”?
    Eu tenho pena que ele já por cá não ande; mas o Carlos representa um outro tipo de perspectiva, de interesses. Engole a tua alergia à arte das elites e vai ler o post do Twombly. Acho que ficámos a ganhar com a mudança.

  9. Carlos Vidal diz:

    A ideologia de Bush era clara: era (acho que já é passado, a sua ideologia, tal como a pessoa) o neo-conservadorismo: menos estado na economia, mais estado na esfera moral, e nacionalismo ou imperialismo económico quanto baste. Há uma linha clara com que posso bater-me, mas isto não é válido se não for contextualizado: não faz sentido, portanto, perguntar-me: então o nazismo também era claro, logo é, para o CVidal, bem-vindo? Isso é jogo de linguagem, fantasia argumentativa e lateral ao caso concreto que apontei como hipótese: Bush e o neo-conservadorismo, a sequência para a política corporizada em Obama, que pretende uma renovação, precisamente política, fundada numa certa ideia de estado social.

    Mas eu não me defino obamista, porque acho, como disse noutro comentário, o estado social uma despolitização global. Contudo, creio que a sequência Bush-neoconservadorismo depois Obama-estado social é uma forma de regresso da política, porque o neo-conservadorismo, embora ideológico, pretendia uma despolitização por via do “estado mínimo”. Agora, também acho que laborar na certeza da inevitabilidade das reformas é uma maneira de despolitizar uma discussão – primeiro porque é um cliché vazio, totalmente vazio, depois porque se funda numa inevitabilidade de um determinado tipo de organização política, social e económica. E quem disse a Filipe Moura que este sistema designa o critério das nossas crenças? E quem disse ou diz que ele tem de ser “aperfeiçoado” e não destruído?
    Quem manda poupá-lo?
    E o que significa “reforma” senão flexibilizar, privatizar, etc, de acordo com as necessidades de um sistema que desde os anos 30 se julga eterno e apenas reformável ciclicamente (ora mais ora menos “estado social”) ?
    Eu não discuto a “maneira” ou o modo (Filipe Moura) como as reformas estão ou vão ser implantadas, eu quero discutir é o que é uma “reforma”, a quem serve e porquê?
    Nem que para tal tenha de raciocinar ad absurdum.

  10. Ricardo Santos Pinto diz:

    «A ideologia do Bush». Ideologia?
    Parece-me que, ao fim de 8 anos, o Bush continua sem perceber muito bem o que quer que seja sobre seja o que for.

  11. Carlos Vidal diz:

    Concordo, deve então dizer-se os ideólogos por detrás do Bush.

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