Descobri um crítico de arte

De José Sócrates, actual primeiro-ministro de Portugal, lamento, mas só conheço de memória duas ou três  frases:

“É bom para o país, para Portugal e para os portugueses” e

“O Magalhães é como o Tintin, é um computador para ser usado por quem tem dos 7 aos 70 anos”

Ou: “Concretizar”. Tudo isso tem pouca piada. Mas, continuemos.

Por interesse documental, descobri os textos teóricos de um velho professor dos anos 60 na então Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, Varela Aldemira. Recomendo todos os seus livros, sobretudo o “Estudos Complementares de Pintura” (que tenho), “Itinerário Estético: A Caminho de Roma”, “Estudos de Arte e Crítica”, “A Pintura na Teoria e na Prática” ou “A Geometria Estética de Velázquez”. O velho mestre foi elogiado por Marcello Caetano, o que, obviamente, não me impede de o usar na bibliografia de um trabalho que presentemente desenvolvo. Pelo contrário. Se José Sócrates escrevesse assim, também o citaria numa bibliografia (apesar do PM não estar minimamente interessado); seguem textos de Marcello.

Diz Marcello, em 1961, sobre “A Pintura na Teoria e na Prática”:

“Muito apreciei também as páginas sobre Pousão e sobre Malhoa, e sempre com o relevo merecido pelas íntimas conexões entre a pintura e as outras artes, incluindo a literária, pois eu creio bem que do Fialho-crítico fica sobretudo a maneira como escreveu o que viu, ou as sugestões que a arte dos outros deu à sua própria arte. (…)”

E sobre o abstraccionismo:

“Ainda que seja só a cor, ainda que, no mais estreme abstraccionismo, o pintor não dê mais que inesperadas combinações cromáticas harmonizadas segundo o gosto feito ou para um gosto a fazer, sempre, efectivamente, a base é o talento: mas que não pode dispensar um mínimo de técnica (eu desejaria uma técnica sempre completa) colhida no clássico, mesmo quando, como no caso de Picasso, seja para abandonar depois. Pintores sem aprendizagem séria e demorada – que podem ser senão pinta-monos, salvo algum caso de génio que não anda aos ponta-pés?”

Descobri um crítico de arte, em suma, um crítico que nunca estudou engenharia, nem arte.

Mas, encantador, encantador mesmo é o que escreve outro escriba luso da época sobre Paul Klee:

“No desequilíbrio nervoso de Paul Klee são frequentes as dissociações do conceito, falácia descontrolada, atrabílis na escrita e nos desenhos traçados, dir-se-ia por falanges perras na articulação de gancho, a esclerodactília dos ossos e músculos das mãos. Daqui resultam as herméticas puerilidades na prosódia de labirinto, onde os críticos descobrem verdades de alto nível metafísico”.

Porque é que hoje já não se pensa e escreve assim, quer na crítica, quer na governação.

Perante isto, o “é bom para Portugal e para os portugueses” não tem interesse.

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