Folhetim de fim-de-semana (quarto e último episódio)

[Primeiro episódio] [Segundo episódio] [Terceiro episódio] A previsibilidade dos comportamentos é a base da vida social. Reconheceu-o primeiro a sociologia clássica alemã, corroborou-o depois, no domínio da ciência jurídica, a criminalística italiana. Genaro Gattuso, um neo-glosador pisano da segunda metade de do século XIX (cuja obra, refira-se, influenciou sobremaneira a dogmática penal portuguesa), afirmou: “Mais do que pela lesão de valores fundamentais da sociedade, a conduta criminal deve ser reprimida pelo seu próprio carácter anómalo e excepcional, susceptível de transformar cada carácter num Sexta-feira, cada homem numa ilha e a sociedade inteira num naufrágio”; e, na mesma época, Riccardo Montolivo, da escola de Bolonha, escreveu também que “uma sociedade onde se desconhece aquilo que se deve esperar de cada um é uma sociedade sem amanhã – aliás, que hoje mesmo não pode funcionar” (traduções livres).

Qualquer consideração jus-filosófica da matéria penal tem com efeito de considerar a questão (inerente à anterior) da necessária raridade do acto criminoso – pois que a imagem hobbesiana da guerra de todos contra todos é uma mera figura de retórica, ao menos nas partes do mundo onde tais considerações são possíveis – e da filosofia do direito a temática desceu à investigação penal e até à literatura criminal de puro entretenimento. Previsibilidade dos comportamentos, raridade do comportamento desviante, intencionalidade do comportamento criminoso – tal é pois a sequência lógica a seguir, que se alimenta primeiro nas altas esferas do pensamento filosófico e científico, mas que podemos posteriormente reconhecer, bem mais perto de nós, nas prateleiras de “crime stories” e “true crime” de centenas de livrarias europeias e norte-americanas.

De facto, foi a compreensão de que a chamada “pista”, ou caminho que pode conduzir do suspeito ao crime, deve tanto quanto possível ser eliminada para ser alcançado o chamado “crime perfeito”, que conduziu à criação nos E.U.A., no segundo quartel do século XX, sobretudo, do chamado “Murder, incorporated”, ou seja, de organizações de assassinos a soldo do crime organizado, sem qualquer relação com as vítimas que eram pagas para assassinar, e que em consequência do seu método de acção deixaram a polícia, em literalmente milhares de ocasiões, sem qualquer possibilidade de encontrar os responsáveis pelas mortes que investigavam.

O princípio que regia o “Murder, inc.” é fácil de entender, foi repetido em inúmeras situações pelo mundo fora e quase todos nós já algumas vezes o pudemos considerar de um modo mais pessoal: refiro-me àquelas situações em que, na condição de potenciais vítimas ou algozes, nos encontrámos absolutamente sozinhos numa estação de metro com alguém muito mais fraco ou muito mais forte do que nós, a quem nunca fizemos mal e que também nunca nos fez mal nenhum, e nos perguntámos o que aconteceria se fossemos atirados ou atirássemos alguém à linha nessas circunstâncias.

Na sua variante mais perfeita e acabada, o “Murder, inc.”, é evidentemente uma invenção da imprensa e mesmo nos anos da proibição nos E.U.A. nunca existiu enquanto tal, designando apenas aquilo que na realidade seriam matadores profissionais, assassinos a soldo trabalhando por conta própria ou em pequenas células, e longe portanto da estrutura tentacular dirigida por um grande sindicato do crime que os jornais imaginavam; mas porque retiraram ao crime e particularmente ao assassínio o carácter próximo e passional, desenquadrando-o e abstractizando-o como era devido na era industrial que se vivia, constitui assim uma referência e um horizonte teórico inultrapassável para a compreensão do fenómeno criminoso.

Quando em 1976 me inscrevi no sexto ano do liceu e – por influência do meu amigo H., que herdara por via materna un penchant prononcé por livros policiais e pela obra de Patricia Highsmith em particular – comprei na loja de livros em segunda mão que existia à época ao lado do Liceu de Pedro Nunes o n.º 70 da colecção Vampiro, da referida autora e intitulado em português “O desconhecido do Norte-Expresso”, fiquei a conhecer uma urdidura mais para desligar um crime do seu motivo e recusar-lhe a natureza intencional que quase sempre se lhe exige: dois tipos encontram-se por acaso num comboio, I scratch your back you scratch mine, tu matas quem me incomoda a mim e eu mato quem te incomoda a ti, ninguém conhece ninguém e é tão simples quanto isso. O puritanismo da época, é certo, impede este plot singelo de resultar plenamente, mas se algum defeito esta obra tem é o de ter estado à frente do seu tempo, porque não parece haver dúvidas de que o nihilismo moral dos seus personagens seria hoje merecedor de todas as homenagens.

Aliás, a importância formativa da obra de Patricia Highsmith nunca será por demais realçada: poucos anos mais tarde, no defunto “Quarteto”, vi três vezes de rajada a adaptação para cinema do “Ripley’s friend”, versão Wim Wenders (existe uma outra mais recente, com John Malkovich no lugar de Dennis Hopper, mas é muito menos interessante) e descobri uma variante da trama anterior que, em poucas palavras, inclui o uso de um moribundo (se existe ou não erro sobre os seus motivos pouco importa), o qual, por ser isso mesmo, e aparentemente também não temer a sanção da sua consciência nem a possibilidade de uma condenação aos infernos, está disposto a matar sem outro motivo que não o preço que lhe pagam para executar a sua sale besogne.

Até ao acidente de Roissy, de que eu soube enquanto passeava nos Vosges no próprio domingo em que aconteceu, a saga de “O amigo americano” – não a de um mobster nova-iorquino de um filme a preto e branco, mas a de um europeu do meu tempo e da Alemanha ali tão próxima que até poderia ser eu – pareceu-me a melhor aproximação possível ao tema do crime desestabilizador das certezas da vida; mas depois, faz quase dois anos agora, aconteceu passar eu próprio por Roissy, assistir por acaso à reabertura do terminal sinistrado e conhecer na imprensa francesa a história da quarta e misteriosa vítima do acidente. Foi então que eu tive uma epifania, foi aí que tudo me pareceu possível, como aos heróis dos livros de Eric Ambler, que de modo vário e inconsciente se viam envolvidos em conspirações vastas como o universo: terroristas demenciais, tiranos sanguinários e concupiscentes, prostitutas, proxenetas, traficantes de droga, assassinos de crianças, era só escolhê-los, com a presciência que assiste a quem conta histórias, enquanto aos outros, aos que as lêem, cumpre como castorzinhos aplicados trabalhar para descobrir as causas das coisas. Fim.

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SEXTA | António Figueira
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6 respostas a Folhetim de fim-de-semana (quarto e último episódio)

  1. Manuel Galvão diz:

    O António Figueira deve ser licenciado em Direito, por isso escreve tão bem! Escreveria ainda melhor se não se desse por isso…
    É o que me ocorre dizer depois de acabar de ler os 4 episodios deste folhetim, que me fizeram lembrar um caso real, publicado em todos os jornais diários sendo uma tentativa de assassinato de motivação passional e que, vim a saber por quem conhecia a vítima, não se tratou senão de um juste de contas entre chulos. Isto é, um chulo baleou uma chula!

  2. bloom diz:

    “Genaro Gattuso, um neo-glosador pisano da segunda metade de do século XIX (cuja obra, refira-se, influenciou sobremaneira a dogmática penal portuguesa” adorei…

  3. BGil diz:

    O António Figueira pensa e cria. E é de Direito. Mas é por esse treino que escreve bem? Não se sabia!

  4. Diogo Vasconcelos diz:

    Isto dava uma boa curta

  5. Luis Rainha diz:

    Muito fixe!

  6. António Figueira diz:

    Obrigado a todos pelos comentários.
    Por acaso sou licenciado em Direito (não estou a assumir o “por isso” do Manuel Galvão, assinale-se), mas devo esclarecer que nunca exerci nenhuma profissão forense a tempo inteiro e depois estudei uma data de outras coisas, por isso o treino de redacção de petições & contestações nenhuma influência teve nas minhas hipotéticas capacidades; mas poucas ou muitas que elas sejam (provavelmente mais poucas do que muitas, sejamos realistas), eu gostaria de acreditar, como a Bárbara Gil, que resultam do puro e aparentemente inútil gozo de pensar.
    Cumps., AF

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