O fim da blogosfera, lá longe

Através do Paulo Querido, encontro testemunhos do pessimismo que hoje em dia supostamente grassa pela blogosfera anglo-saxónica. Que a coisa está muito mainstream e comandada pelos profissionais da bloga; que mesmo estes andam à rasca; que formatos como o Twitter são muito mais giros; que é uma injustiça que os posts de um anónimo blogger não tenham logo honras de destaque no Google, etc. A sempre histriónica Wired anuncia-nos que já nem vale a pena fazer um blogue; e o mais indicado será mesmo desligar os existentes. As queixinhas são similares. «The odds of your clever entry appearing high on the list? Basically zero.»
Tarde dão pela marosca. Já em 2003, Hindman, Tsioutsiouliklisz e Johnson tinham arrefecido o entusiasmo juvenil com a blogosfera, demonstrando que os novos media funcionam de forma bastante mais tradicional do que se pensava: o factor que denominaram “Googlearquia” (o aumento exponencial da visibilidade de sites que são alvos de muitos links exteriores) parece levar a que apenas uns poucos sites obtenham de facto algum impacte significativo, concentrando-se as audiências numa quantidade muito reduzida de pontos de interesse. Desta forma, a «ascensão de uma nova forma de comunicação socializada: a auto-comunicação em massa» celebrada por Castells redundaria sempre numa multidão de profetas a clamar em desertos electrónicos, vendo apenas ao longe as luzes das cidades hospitaleiras, ocupadas e geridas pelos happy few do costume. Para um MoveOn, milhões de vozes inapelavelmente solitárias e ignoradas.
Outros pontos de vista ainda mais pessimistas descrevem a Internet como o domínio do relativismo pós-moderno por excelência: facto e ficção equivalem-se, o trivial e o fulcral são indistinguíveis e a participação significativa é uma gota num oceano de ruído incoerente e incapaz de se harmonizar em relações sociais com alguma relevância. Mas a coisa sempre foi assim; porquê só agora o ennui?
Por aqui, não será à conta das toneladas de concorrentes e da dificuldade em entrar num qualquer top of the pops que teremos boas desculpas para começar a escavacar os nossos blogues. Ironicamente, continua a valer-nos a pequenez do ciberespaço lusófono. Vou continuar a dar com o meu nome (e com os vossos) na primeira página de pesquisas no Google, a propósito de prosas idiotas rabiscadas há anos. Valha isso o que valer. Mas fica dado o alerta: se não começarem desde já a ruminar sobre o cataclismo em lume brando que está a chegar, o vosso hip factor vai cair uns bons 50%.

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11 Responses to O fim da blogosfera, lá longe

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