Quem tem medo da avaliação?

A propósito da avaliação dos professores, o Daniel Oliveira faz a pergunta errada a João Pinto e Castro: «se alguma vez, na sua vida profissional, foi avaliado pelos seus colegas?»
Basta ler as respostas no próprio Arrastão para se entender o engano central da questão: não há nada errado na avaliação pelos pares, em si mesma. Mais: mesmo a avaliação pelos subordinados ou pelos alunos pode ser coisa pacífica e desejável. Há por aí bons exemplos disso, mesmo sem chegar ao ponto de desconversa atingido por alguns comentadores, que tomam os superiores hierárquicos por “colegas”.
Mas convém não misturar processos de avaliação que funcionam com isto que o ministério da Educação quer, à viva força, enxertar nas escolas dos nossos filhos: sistemas kafkianos que consomem já grande parte do tempo dos docentes; um método que pede o domínio dos programas alheios para avaliar colegas (por muito que o João Miranda ache aceitável ter um professor de Francês a vigiar a proficiência das aulas de Matemática); um quadro de funcionamento que já degradou o ambiente entre colegas em muitas escolas.
Podemos pura e simplesmente concluir que os professores liceais são todos madraços irresponsáveis que ficam com urticária mal alguém ousa sugerir que também eles deveriam ser avaliados. Ou podemos pensar um pouco, perguntar a quem sofre estas agruras na pele, investigar. Se calhar, até chegaremos à conclusão que o processo poderia ser bastante melhorado. Só isso.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

12 respostas a Quem tem medo da avaliação?

  1. fernando antolin diz:

    Ora do que você se foi lembrar… daqui a bocadinho começam todos a sair do “formigueiro” à desfilada,os MFerrer’s e todo o grupo de vigilantes e assessores,sempre à coca,não vá haver desvios na ortodoxia vigente ou,Vital Moreira dixit,a manada se porte mal.

    Não se esqueça que tudo isto não é obra do Santana,logo quem não é por nós,é contra nós.

  2. emiele diz:

    Este é um processo como dizes kafkiano. As posições de um extremo ao outro são da maior falta de bom-senso. É óbvio que, como em qualquer profissão há profissionais excelentes e outros que são uma nódoa. Quem conhece mais «nódoas» nivela tudo por aí, quem conhece os excelentes, pensa que isso é a norma. e depois disparam cegamente em todas as direcções, discutindo até coisas que nem vêm ao caso.
    Que se faça uma avaliação é normal e deverá fazer-se para bem de todos. Mas devia dar que pensar a quem defende o Ministério, como é que a esmagadora (e muito esmagadora!!!) maioria dos professores estão contra «esta» avaliação.
    Pelo que tenho lido e ouvido, existem outros modelos, bem mais fáceis e vantajosos. Porquê esta birra do Ministério?…
    Mas a verdade é que as pessoas exaltam-se de tal modo que se perde completamente a razão.

  3. Model 500 diz:

    A Ministra cometeu um erro táctico grosseiro. Deu um passo maior que a perna. É do mais elementar bom senso que as mudanças nas organizações se devem operar gradualmente. É que é da natureza humana resistir-lhes. É por isso que as mudanças iniciam-se sempre com processos muito simplificados, sendo que vão sendo aperfeiçoados em função dos resultados obtidos. A Ministra, básica, engendrou ab initio um sistema de uma complexidade tal, que só por isso merecia ser demitida.

  4. Deixemo-nos de hipocrisias. O que os professores querem é a não avaliação, e é essa a cenoura de que se servem os sindicatos. Outro modelo de avaliação? Mas qual? Alguém sabe qual? Eu sei! O que proponha promoções automáticas e garanta a chegada ao topo da carreira a todos, sem excepção, sejam bons ou maus. É um modelo não burocrático e infalível.

  5. Luis Rainha diz:

    Esse seu modelo também não é grande coisa.

  6. Não, não é grande coisa. É mau! É injusto! É imoral! Mas era, mais ou menos, o que existia. Os professores ou os sindicatos protestavam contra ele? Não consta.

  7. Model 500 , pois eu sou po drástico, ou seja: Exames Nacionais de Acesso à Carreira Docente.

    LR. Digamos que sabendo ( mais ou menos como funciona a humanidade mal esgalhada em cada um de nós) quem não tem medo de ser avaliado (assim, ao calhas!) quem diz que não tem medo: mente.
    O “poder” não é uma coisa que se possa usar por toda a gente.
    Vi colegas (meus, excepcionais!!!) a cometerem barbaridades ( coisinhas menores, mas constrangedoras) na avaliação dos seus alunos …

  8. Coelho diz:

    “Se calhar, até chegaremos à conclusão que o processo poderia ser bastante melhorado. Só isso.”

    Pois. Mas ouve-se os sindicatos e os professores e percebe-se rapidamente que não é “só isso” que eles querem.
    Onde está o seu modelo alternativo ou as suas soluções de melhoria?

  9. Luis Rainha diz:

    Olhe que eu tenho ouvido professores meus conhecidos e só posso concluir que não serão todos iguais. E não tenho de ser cozinheiro para alvitrar que há algo muito errado com o arroz doce.

  10. j diz:

    Como no Jugular eu digo que transcrevi do 5dias.net, mas, afinal, terá sido aqui censurado, vou alterar o léxico porventura susceptivel para os mais púdicos, ficando a coisa assim a modos que ao contrário, quanto ao blog de onde originalmente foi escrito o meu comentário:

    Transcrevo para aqui um comentário feito por mim no blogue dos “bons que ficaram” no 5dias.net:

    Sempre fui avaliado e fiz provas e cursos para progredir na carreira.
    Portanto, defendo a avaliação.

    Mas o que se passa com as alterações legislativas aos processos de avaliação dos professores e de outras classes profissionais (incluindo na minha, onde a avaliação passou a ser suportada sobretudo em “informações” dos superiores hierárquicos, em vez de provas e de cursos…) apenas visa tornar ainda mais subservientes os subordinados com métodos que me parecem, de facto, “kafkianos”.

    Uma treta de avaliação…
    Que só serve para os colegas se tramarem uns aos outros e premiar os que obedecem e em que “pensar” passou a ser um factor negativo de avaliação.

    (Quanto as diferenças do léxico, comparem se vos apetecer e não tiverem mais que fazer…)

  11. Celina diz:

    Eu estou de acordo com M. Loureiro. Se este modelo está errado qual é que propõem? Ainda não vi nada. Não nunca vi tanta preocupação da classe pelos alunos quando a avaliação era uma farsa.
    Quanto à falta de diálogo por parte da ministra, esta diz que já fez mais de cem reuniões. Quem é que diz a verdade?O que eu sei é que há bem pouco tempo todos os colegas da minha mãe pagavam cem contos a outros para lhes fazerem o seu relatório pessoal de avaliação pois eles não o sabiam fazer. talvez agora seja mais ou menos o mesmo, talvez o processo não seja tão burocrático assim, os professores não são é capazes de o fazer. A minha filha deixou o liceu há pouco tempo e lembro-me muito bem da balda que era a escola, os professores constantemente a faltarem, a inexistência de uma representação dos pais,as aulas dadas à base de fotocópias reduzidas das obras a estudar denunciando a falta de preparação das aulas, etc.Na minha opinião os professores são os principais culpados pela má imagem que temos deles. Nunca fizeram nada para se avaliarem, para fazerem formações, para inovarem, nunca tomaram iniciativas: estavam muito bem instalados com a progressão na carreira por antiguidade, com as férias do carnaval, do natal, da páscoa e de verão, com os atestados médicos e as prolongadas baixas por doença.É por isso que estão tão zangados. Pudera! também eu gostava de ter um emprego assim e ganhar o que eles ganham.

  12. tone da esquina diz:

    Queremos um país de analfabetos e ignorantes?
    Queremos um país de fachada e pouco funcional?
    Queremos um país acomodado e sem capacidade de trabalho?
    Queremos um país fechado e avesso às mudanças?
    Então, aplique-se o simplex. O simplex simplifica tudo. Simplifica a escola, simplifica os conhecimentos, simplifica as competências, simplifica o desempenho, simplifica o país.
    É para isso que o nosso país trabalha: a ignorância, a disfuncionalidade, a pobreza de espírito e a pobreza total.
    O país está pobre e ainda vai transformar-se num país paupérrimo.
    Um país assim não merece existir.
    Desitam de ser país.
    E ainda se fala em regionalização. Para quê?
    Com uma educação não do 3º, mas do 4º mundo, nenhum país merece existir.
    Viva a Europa.

Os comentários estão fechados.