Do readymade à poesia concreta

 

Tudo começou em Marcel Duchamp. Neste seu conhecido readymade de 1919, pôs bigodes à Gioconda e escreveu por baixo L. H. O. O. Q. o que dito em francês, letra a letra, dá algo de muito inusitado.

Quando realizou “Fountain”, o mais conhecido dos seus readymades, Duchamp cometeu o prodígio de ligar na obra de arte, como protagonistas sem hierarquia, o objecto e a linguagem. Seja, apropriou-se de um objecto quotidiano, o urinol, inverteu-o, assinou-o e trabalhou para o expor. Passou-se a uma situação em que a obra dependia do objecto certo e do acto de nomear que cabia ao artista (pode-se “fazer não importa o quê”, desde que tal se nomeie como “obra de arte”), soltando-se a criação da mimesis e da manualidade. Os conceptualistas, nos anos 60-70 do século XX, herdaram de Duchamp esta propensão para resolver o problema artístico através de uma linguagem que indexava (ou inventariava) as formas de produzir e, mais importante, legitimar a obra de arte. A manualidade era um processo menor, a arte passava para uma estratégia platonista de valorização da ideia sobre, duplamente, a visualidade e a “mão” (a mão sagrado do pintor). Os nossos amigos situacionistas, com o détournement, propuseram novidades através de imagens “ligeiramente” modificadas.

O processo de exacerbação da linguagem como arte desmaterializada atingiu um paroxismo quando o poeta português CTLO produziu o seguinte poema aleatório:

 

“CE Conselho Executivo / CA Conselho de Ano / PRAE Plano de Recuperação e Apoio Executivo

PCT Projecto Curricular de Turma / CGAS Critérios Gerais de Avaliação Somativa

CAD Comissão de Avaliação de Desempenho

AEC Actividades de Enriquecimento Curricular / PTT

Professor Titular de Turma / PGEI Programa de Generalização do Ensino de Inglês

CAA Comissão de Acompanhamento Alargada / CAR Comissão de Acompanhamento Restrita

SPAEC Supervisão Pedagógica das Actividades de Enriquecimento Curricular

UAM Unidade de Apoio à Multideficiência / PAA Plano Anual de Actividades

PA Plataforma de Agrupamento”

 

Repare-se no início e final do poema. Trata-se de atribuir à arte uma vocação de encaminhamento e, por fim, de revelar como ela nos faz comunicar: a arte agrupa, colectiviza a experiência.

A interpretação do poema é um projecto dado ao arbítrio do leitor ? Não, o poema é lido como um projecto desconstrutivo ou desconstruído no espaço e no tempo, indeterminadamente. A dimensão corporal desta escrita é mais do que evidente. Recordo que um dos artistas que “fundou” a arte vídeo (narcisista, como lhe chamou Rosalind Krauss sem razão), Vito Acconci, antes de abordar a imagem pelo lado da reprodutibiliadde técnica (vídeo, cinema), começou pela poesia numa revista que fundara, “O to 9”. Num ensaio de exegese de Acconci, Craig Dworkin afirmava que as letras do poema acconciano deviam ser vistas como actos de expressão corporal, teatro do corpo, o que fazia adivinhar a sua dedicação à performance subsequentemente. É neste contexto que teremos de ler o texto de CTLO, um poeta pioneiro, segundo qualquer ponto de vista.

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8 respostas a Do readymade à poesia concreta

  1. Nik diz:

    Eu amo a Milú Rodrigues. Sempre a amei. Confesso humildemente.

  2. Carlos Vidal diz:

    Eu também gosto muito da sra Lurdes Rodrigues, por isso é que com ela exempifiquei o que era um détournement, estratégia debordiana para trabalhar e recontextualizar material pré-existente que se ama muito. Como Debord fez no filme “A Sociedade do Espectáculo” com bocados de Jonnhy Guitar, de Nick Ray.

  3. sant anton diz:

    Simplesmente genial, para quem tem sentido de humor, como é evidente.
    Passo portanto á hermeneutica objectiva, real concreta e conteudesca do poema e imagem, vulgo palavra & imagem:
    A senhora está ao contrário por ter objectivamente, calôr na parte baixa traseira. Muito evidente e logo anunciado na segunda estrofe do poema ( CA conselho de Ano), tambem pelo vapor floou e côr cinzenta, um dos tais nove gradientes da grande arte do olhar e da forma fundo. Apesar do contraste de cor, agora na esquerda baixa, aguardo apenas justiça pronta, severa e inflexível.

  4. Carlos Vidal diz:

    Muito obrigado caro Santo António.

    A nossa educação hermenêutica naquele célebre e infalível estabelecimento de ensino que nos pôs no mundo, nunca falha nem nunca falhará. E que viva o grande Varela Aldemira, um dos maiores sábios de teoria da cor e de outros processos das nossas artes em todo o século XX (e nenhuma editora se lembra desse velho mestre absoluto, mas lembram-se do Goethe, vá lá perceber-se porquê). E ainda um grande viva ao nosso querido Veloso Salgado, o maior simbolista e pintor europeu de cenas de história dos século XIX e XX. Honremos os seus nomes. Trabalhamos para isso.

    A hermenêutica duchampiana está obviamente correcta, mas o mérito é do nosso colega (quem dera) Duchamp, que sempre soube secretamente o que fazia: ou seja, “fazer não importa o quê” e saber “nomear”, dizia há pouco o convertido Thierry de Duve, homem de boas intenções.

  5. sant anton diz:

    Custou, mas arribou, faltaram o Lupi, o Assis Rodrigues, o Vitor Bastos,o Alberto Nunes, o Simões de Almeida tio, uma malta que deu início em 1836 no Chiado ao nominalismo napoleónico. Jamais confundir com os das Alamedas de futuro, os da Av. de Berna ou os da AV. das forças armadas junto á cantina nova.

  6. Carlos Vidal diz:

    Ora cá está o que o nosso amigo Marcel disse (e aprovado pelo De Duve, e pelo governo das Américas e da République): “Elle a chaud au cul”. O nosso Marcel sabia.
    Muito bem, Santo António, prometo organizar em breve os textos teóricos sobre a cor de mestre Varela Aldemira.

  7. sant anton diz:

    Lição após lição, que da sucata conceptual deu ao cemitério da metáfora.
    SantAnton sem mestre.

  8. Carlos Vidal diz:

    Todos ou quase todos os conceptualistas são maus Duchamps.
    Todos foram provenientes da poesia e grandes poetas, como o poema do nosso compatriota que cito acima o prova.
    Todos são: Marcel Broodthaers, Vito Acconci, Robert Berry, Alighiero Boetti, o mago da imagem-linguagem Bruce Nauman (provavelmente o maior artista do pós-II Guerra), o Kosuth que, coitado se julgou reencarnação de Wittgenstein, A. J. Ayer e Santo Agostinho.
    Depois, algum tempo depois, veio o vídeo. Abençoado seja.

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