Terminal de Contentores de Alcântara

Nota Prévia:
Entendo que o processo de protelação da cedência e ampliação do Terminal de Contentores de Alcântara
à Liscont, alguns anos antes do actual contrato terminar, é um caso de polícia. Contudo essa não é a matéria deste post.

Quando se fala em retirar o Terminal de Contentores de Alcântara, é preciso ter em conta que falamos da principal infra-estrutura portuária de movimentação de contentores do país. Esta estrutura abastece de mercadorias toda a zona de Lisboa e do Oeste e quando o Atlântico está agitado e algumas barras são fechadas (o que sucede frequentemente), apenas o Terminal de Alcântara tem condições, de barra e de fundo, para receber abastecimentos.

Contudo o que não me permite ser contra ou a favor da sua saída ou deslocação é o facto de não existir uma lógica nacional de rede de infra-estruturas portuárias. Leixões, Sines, Setúbal ou Lisboa funcionam como estruturas autónomas, de administrações concorrentes, sem uma gestão única que nos permita ter uma estratégia nacional.
Aquilo que posso dizer, enquanto pessoa que se preocupa e estuda a cidade, é que argumentos como o de “devolver o rio à cidade”, para além de serem populistas, reproduzem uma lógica de cidade perigosa.
Em 2004, assisti a uma conferência de David Harvey, no qual associava este tipo de discussões públicas a uma nova forma da luta de classes de Marx. Este geógrafo e antropólogo defendia que as maiores operações especulativas dentro da cidade contemporânea se repercutiam na guetização e/ou afastamento das classes trabalhadoras dos centros históricos, deslocalizando e descentralizando o trabalho, designadamente as actividades relacionadas com as estruturas produtivas.
Este é um processo bem patente em Lisboa, em particular, nas novas áreas construídas a partir da Expo98 e que também deslocalizaram as actividades produtivas que ainda resistiam dentro da cidade e criaram novos bairros, ditos sociais ou de rendimento, noutros concelhos vizinhos de Lisboa – esta ideia desenvolve-la-ei noutro dia.
Regressando ao Terminal de Contentores, diria que me preocupa a ideia aceite que as actividades portuárias devam sair da cidade onde sempre viveram, preocupa-me a lógica de entendimento do rio enquanto cenário e não como palco de comunicação com a outra margem ou com o mundo e a enorme especulação e interesses perversos que estão sempre associadas a todos os actores que se movimentam pela Frente Ribeirinha.

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8 respostas a Terminal de Contentores de Alcântara

  1. Model500 diz:

    Se porventura alguém se lembrasse de fechar o Porto de Lisboa ao movimento de cargas, passaríamos a ter actualmente mais 340.000 viagens de camião na estrada por ano, a movimentar os contentores de outros portos do país para a zona Norte do Tejo.

  2. Luis Rainha diz:

    E não se poderia ampliar antes o terminal de contentores de Santa Apolónia?

  3. Tiago Mota Saraiva diz:

    Luis, sinceramente, não sei. Aliás o problema fundamental é não haver estudos e investigação decente, não-secreta, sobre a matéria.
    Se me parece bastante natural a ideia de concentrar a zona portuária em Santa Apolónia, também tenho ouvido dois argumentos contra a ampliação do terminal:
    – implica enormes trabalhos de açoreamento do rio, para que lá possam chegar as embarcações maiores;
    – implica o aumento de tráfego pesado no estuário, o que tem consequências ao nível da preservação dos ecossistemas.

  4. Model500 diz:

    Através do Google Earth pode-se verificar que do total de 20 Km de margem norte, mais de 15 Km encontram-se acessíveis a todos cidadãos. A zona que se estende desde Algés até Alcântara, a zona da Torre de Belém e a zona das docas – 5,2 Km. A zona desde Alcântara até Santa Apolónia (incluindo o futuro terminal de cruzeiros em Sta Apolónia) :4,3 Km. Do Poço do Bispo até ao Rio Trancão, que inclui a zona da Expo: 5,9 Km.

    A zona dedicada à operação portuária carga : 5 Km de cais, sendo 1,7 Km em Alcântara e 3,2 Km na zona de Sta Apolónia – Beato – Poço do Bispo.

    Santa Apolónia não dá para receber o tráfego “deep sea”.

  5. Algarviu diz:

    O Tiago queria certamente dizer “trabalhos de desassoreamento do rio”

  6. Luis Rainha diz:

    Duas perguntas de curioso: mas os paquetes que lá aportarão não têm calados similares aos dos porta-contentores? E não andaram a descarregar por ali contentores durante anos e anos?

  7. Model 500 diz:

    “mas os paquetes que lá aportarão não têm calados similares aos dos porta-contentores? ”

    Não tenho a certeza mas julgo que não. O que eu sei é que a tendência actual é a de um rápido aumento da dimensão dos navios porta contentores.

  8. R. diz:

    só uma nota ao model500
    o google earth não providencia uma percepção no terreno das condições de acessibilidade realtivamente ao usufruto de todos esses kms que refere.
    na realidade, o referido troço “de algés até alcântara” não é mais do que uma colecção de descontinuidades, entre docas, marinas, edifícios e um sem número de obstáculos e outras tantas interrupções de índole vária. o usufruto do rio é apenas possível de um ponto de vista estático ou, as mais das vezes, limitado a pequenos percusos. o usufruto do rio, na plena dimensão da sua fachada urbana é uma perfeita miragem e uma total demagogia. não contentes, planeia-se a ampliação do terminal de carga em plena alcântara.
    certo.

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