Cy Twombly, um gigante da montanha

Está no Guggenheim de Bilbao uma das maiores retrospectivas de Cy Twombly (mais de 100 obras), inaugurada a 28 de Outubro e que se prolongará até 15 de Fevereiro de 2009. Twombly é seguramente um dos mais entusiasmantes artistas (e mais conhecedores das regras de organização e entropia do rectângulo pictórico, prolongando a “sprezzatura”, de que falavam renascentistas, como mais ninguém), um dos mais notáveis, direi, de entre tudo o que apareceu nos EUA depois da geração heróica dos anos 40-50, a geração dos artistas do “sublime is now”, Pollock, de Kooning, Rothko, Reinnhardt, Newman, Hoffman.

A minha admiração pela obra de Twombly é quase ilimitada e, por isso, a ele conto aqui voltar. Perder esta exposição parece-me grave. Lisboa-Madrid-Bilbao é distância pouca.

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44 respostas a Cy Twombly, um gigante da montanha

  1. Em que jardim de infância pintaram isto?!

  2. priápico diz:

    Pintar como los pintores del renacimiento me llevó unos años, pintar como los niños me llevó toda la vida. (Pablo Picasso)

  3. Carlos Vidal diz:

    No jardim da montanha, precisamente.

    Twombly mostra o modo como na forma reside uma pulsão de desmembramento que, sequencialmente, regenera a forma para que esta de novo caminhe para uma outra dissipação. A massa pictórica do autor não necessita de muita matéria (é uma massa de sinais e de esvaziamentos e não uma matéria carregada de relevos). Twombly aproxima a forma do informe, ou seja, a forma revela a sua entropia desde dentro, a composição desagrega-se e as pequenas pastas de matéria dispersam-se, numas vezes, concentram-se noutras. A expressão sobrepõe-se à cor e a pintura parece gerar-se a si mesma em instantes sem reflexão. O toque do pincel é imperceptível, a gestualidade também. O gesto amplo fragmenta-se, a ideia de construção tradicional desaparece.
    Twombly mostra como uma forma se auto-mutila e se regenera. A pintura é uma superfície de pequenas inscrições indefinidas, que se juntam para formar uma totalidade.

  4. “Lisboa-Madrid-Bilbao é distância pouca.”

    Há voos directos da TAP! (Em avionetas da Portugália movidas a hélice com capacidade para 18 pessoas.)

  5. Carlos Vidal diz:

    Filipe Moura, a sério ?
    A TAP está sempre atenta.
    (Mas acho que de Madrid a Bilbao a viagem se faz sempre de avioneta, é verdade. Das muito pequenas. Não gostam de bascos, se calhar, que acolhem sempre mais do que bem.)
    A frase de Picasso é correctíssima. A partir do que fez entre os 12 e os 16 anos, percebe-se que fazer “à renascentista” foi facílimo e em quantidade.

  6. Chover no molhado (!!!!) CV … é sova garantida … Tens que dizer o $$$$$ da coisa, pelo menos para impores uma certa “ordem” …. y ainda vais ouvir que o Picasso era o séc. passado y que não conhecia o Obama… y outras tonterias. Mas daqui a uns tempo veremos muitas gentes nas filas-Museu pra ver … É bo-ni-to ir ver as filas-Museu … descobres muita coisa engraçada …

  7. Luis Rainha diz:

    saber esconder o saber fazer

  8. Carlos Vidal diz:

    Este génio Twombly, revela e esconde ao mesmo tempo. Num contexto que podemos chamar de “gestualidades”, assistimos a um fazer e refazer sem fim. A pintura são layers e camadas sobre camadas, segundas peles sobre primeiras peles, etc. Mas Twombly faz outra coisa, é outra via: se o considerarmos um pintor do gesto, o que não me parece, veremos que nesta pintura quase hão há hesitações, não há fazer sobre fazer, há um toque que é o primeiro, depois pode ser desfeito, mas sobre ele não há nada: fica a “destruição” à vista. É o contrário de Rothko, onde de camada em camada se chega a uma superfície que não parece sólida – daí o tema do sublime e da religião sempre presentes, em Rothko ou em Barnett Newman (por isso é que esta geração heróica de Pollock, que morreu cedo, a Rothko sempre se escandalizou com a Arte Pop, que lhe sucedeu).

  9. sant anton diz:

    Pois é a inscrição e o “literariness” is something that has consistently told against him, along with his fancy foreign ways and his insinuating elegance.
    In the mid-50’s, he wrote a short statement for the italian art journal L’Esperienza Moderna: ” To paint involves a certain crisis it should by no means be limited to a morbid state, but could just as well be one ecstatic impulse. E a Escultura do CY? Continua e Felicidades.

  10. sant anton diz:

    E ainda mais “Sprezzatura” contem, para quem tiver pensamento visual, as cenas da Tosca do último 007-Quantum of Solace. A não perder, apesar de ser ligeiro e aqui perto.

  11. Carlos Vidal diz:

    É verdade, o Twombly é um pintor elegante, quem diria Santo António, e isso é mesmo verdade. A sua é uma arte da mutilação elegante, italiana, romana, o seu país de eleição, a cultura que abraçou quando saiu da América das glórias pollockianas.
    Como diria o nosso amigo Jacques Lac. esse impulso estático é a forma do narcisismo. Mas Twombly não é narcisista, ele sabe, acho eu, é que a pintura é que o é: e ela precisa de ser bem tratada como coisa narcísica. A pintura exibe-se e Twombly é, sem dúvida, um artista cuidadoso. Alimenta a vaidade da pintura. A sua escultura e desenho também estão por Bilbao.

  12. Carlos Vidal diz:

    Lá teremos de ver esse 007, pois. Ah, mas os scultores não aprenderam a sprezzatura senão com Rodin, e até depois disso a esqueceram (por exemplo, Robert Smithson conheceu-a, mas Richard Serra não). E que dizer desse revolucionário ainda maior que Rodin, o obscuro Medardo Rosso ?

  13. Algarviu diz:

    Em que aspectos essenciais se distingue esta obra do Abstraccionismo Lírico de Kandinsky? Das Composições deste, por exemplo? claro que a imagem não permite avaliar técnicas, mas o produto final, aquilo que me é dado observar, não o distancia assim tanto do trabalho de K.

  14. Carlos Vidal diz:

    Do ponto de vista da composição, por exemplo, Kandinsky é um autor que constrói o quadro como um todo, um corpo coeso e entretecido nas suas partes, um único corpo, que revela muitas das vezes signos, embora abstractos, reconhecíveis na sua forma, reprodutíveis. O seu vocabulário é mais próximo de uma linguagem, se entendermos a linguagem como coisa pré-codificada e coerente. Por outro lado, mesmo nas obras tardias, nunca Kandinsky deixa o fundo da tela branca por preencher, vazia.
    Twombly desagrega, impossibilita a reunião dos fragmentos num corpo formal contínuo. A unidade de Twombly é de variada natureza: táctil, matérica, sem conteúdo e informe. Kandinsky nunca pensou na hipótese do informe, que é um conceito que provém de Bataille e que nos fala da forma como algo que sofre tensões internas (as manchas provocam ruídos umas sobre as outras, as cores quentes sobrepõem-se às frias ou o inverso, etc, etc, são inúmeras tensões). As tensões internas às formas fazem-nos perceber um ruído “dentro” da forma que não permite considerá-la como coisa pacificamente una. Em Kandinsky nada disso acontece – há uma série de regras de distribuição de cores, uma série de estudos de formas e composição premeditadas, uma tentativa de relacionar a pintura com a música. A distribuição cromática em Kandinsky tem também em conta a hierarquia entre cores primárias, secundárias, etc. Aqui em Twombly a cor é impura e em nada se relaciona com uma forma – ele é forma a desfazer-se, desfazer-se até ao informe. Kandinsky é mais idealista, persegue a invisibilidade da música, Twombly é visual, mas apostado numa “sujidade” do visível. Se o visível se torna invisível, se se apaga ou rasura, é porque a forma se corroeu, desfez-se, e não porque alcançou a condição da música. Aqui não há hipóteses de sublimação.

  15. filinto diz:

    Também pode ser Porto-Madrid-Bilbo (ver) e de Leiria para cima não precisa de passar por Madrid (ver).

  16. Carlos Vidal diz:

    Claro que pode ser Porto-Bilbo. Assim mesmo, Bilbo, em euskera, como é que me esqueci disso ?

  17. sant anton diz:

    Com quem?
    Essa é talvez a Sprezzatura da escultura moderneirista.
    O 007 é de ver e ouvir, hesitação prolongada entre a imagem e o sentido depois dos transcendentais da montagem ( repetição e paragem) do nosso amigo e do tonto suiço pró-chinês.
    Uma caixa de comentários não é uma situação construída.

  18. Luis Rainha diz:

    No entanto, a fase de Twombly mais caligráfica/graffiítica mantém o rasto do gesto de forma bastante mais contínua e homogénea…

  19. sant anton diz:

    olhe que não, olhe que não.
    Sabemos que a humana vivida, sujeito soberano, crítico, livre e reflexivo que faz valer o seu descernimento individual é mui subjectivo, que sim.
    E quanto a ilustrateirismo ainda se epifaniza por aí o Robert Goldwater a Krauss mais o Barr á parede e lá volta o fragmentário etc e tal.

  20. Carlos Vidal diz:

    Caro Luís Rainha
    De facto, nas pinturas aparentemente mais caligráficas, Twombly conserva uma certa homogeneidade ou continuidade de traçados. Mas há alguns detalhes que devemos considerar. As pinturas que estão linkadas são, se não me engano, da segunda metade de 60, e o gesto é mais linear que encorpado ou “espesso”. O gesto é aparentemente caligráfico, mas sem caligramas, nele não chega a haver propensão para a escrita porque o traço ou a ondulação do traço é repetitiva. Embora orgânico, este gesto-traço é como uma derivação da mesma época no minimalismo, em que há um módulo (aqui, o movimento em círculo) ou um padrão, e de seguida uma modulação que repete a unidade pela tela fora. O gesto torna-se previsível, repetitivo, e é sempre mais desenhístico que pictórico: a linha impõe-se sempre à mancha. Quando a mancha se impõe tende a apagar a forma como o gesto é produzido: pode ser com a mão ou com o pincel, mas a mancha nada informa senão da sua organicidade, como uma coisa visceral que aspira à disseminação e desaparecimento. Curiosamente, há desenhos de 50 onde a folha parece vazia, vazia de traço, de mancha, de sinais, de cor. Mas a “gestão” dos vazios neste autor é quase milagrosa (não me acho a exagerar). Depois de tanto que para aqui disse (tentei dizer), o desenho “The Age of Alexander” (1960) (3m x 5m !!) é suficiente para falar por mim, desmentir-me ou fazer-me calar.

  21. Carlos Vidal diz:

    Meu caro amigo Santo António, quer dizer que não estamos de acordo sobre o Medardo Rosso ?
    O único homem que, secretamente, fez da escultura uma matéria sem peso, sem forma, sem figura, manto diáfano onde tocamos e não decidimos se a coisa é ou não sólida. “Moderneirista” quem? O Rosso? O Rodin? Ou preferimos de longe a Camille Claudel, a injustiçada?
    Quanto ao Goldwater, prefiro a esposa de cem anos, ainda activa graças a Deus. A Krauss, acho eu, está doente (não muito), e ainda não tem substituto à altura. Não sei quando terá.

  22. Luis Rainha diz:

    Carlos,

    Olha: conseguiste despertar-me o interesse por um pintor que sempre tinha tido por parceiro menor do expressionismo abstracto. Mas, por acaso, até tinha dele a ideia de um caligrafista ocasional. A obra que atrás mencionei é de 70, julgo. E esta, já de 85, inclui mesmo letras e palavras bem descodificáves.

  23. Carlos Vidal diz:

    As letras e palavras, ou os títulos de muitas pinturas, referem-se a Itália e à várias mitologias, e passam por ser, como diz o meu amigo Santo António, um revestimento de elegância numa superfície que é de todo relativa à automutilação do corpo pictórico. De facto, Twombly é um esteta apuradíssimo. Aliás, essa obra, Luís, é testemunho disso. É reparar como por detrás de uma amálgama de gestos e manchas que se desfazem está uma composição claríssima. A cor concentra-se num triângulo, que vai do canto inferior direito ao meio do segmento de recta que é o lado esquerdo da tela. O lado maior do trângulo tem uma inclinação paralela às letras “shores of love”, por sua vez paralelas a “Wilder”. A simplicidade da composição também se reflecte na mistura das cores: é sempre subtractiva, quer dizer os tons mesclam-se sem que seja possível recuperá-los na sua pureza original, o que dá tonalidades “sujas”, ocres e verdes acinzentados, etc. Compositivamente, três paralelas, portanto, resolvem o quadro: duas linhas de texto e uma linha delimitando o campo de cor. O lado maior do triângulo onde, dentro, a cor se concentra (que ainda contém um outro triângulo quase imaculado e branco), é um segmento de recta que tem no seu ponto médio uma manchinha mais ou menos elíptica vermelha, que está quase no centro do rectângulo da tela (ver o “poder do centro” de Arnheim). É o ponto de maior ruído da composição. Destruição, simplicidade e elegância, portanto.

  24. sant anton diz:

    olhe que sim olhe que sim, caro Carlos, no que toca a Medardo Rosso tambem comungo não só mas por outras razões (as do esteticismo via Itália), quanto ao Rodin ( um manhoso via França ) mais os tais de gestos expressivos, movimento e tal, qualquer escultor reconhece de imediato que é coisa de gaija, no bom sentido como é evidente.

  25. Carlos Vidal diz:

    Caro Santo, coisa de gaija em escultura não pode ter bom sentido, a não ser que seja mesmo gaija, e boa … escultora, bem entendido, por isso me referi à Camille Claudel, sem ironias.
    Prometo para breve um post sobre Camille Claudel, dependendo de uma efeméride (qual a mais próxima? a do fim do namoro com o manhoso francês? A do nascimento? A da licenciatura? Fez licenciatura em três anos ?! Já havia Bolonha ??, etc)
    De resto, muito bem, ambos estamos de acordo com a alma italiana de Medardo Rosso e de Cy Twombly. Todos diferentes, todos iguais.

  26. sant anton diz:

    Mas bom, bom mesmo são as guerrila girls, o gender e o genius. Acabei o Personas da Camille, a Paglia e não me pareceu mal de todo.

  27. Carlos Vidal diz:

    Também o grande Harold Bloom diz o mesmo da Paglia, uma senhora superior evidentemente. Quanto às Guerrilla Girls, sempre me interessaram: um enorme banco de dados de criatividade, criatividade guerrilheira como é necessário, e um banco de dados estatísticos sobre a dominação dos cavalheiros na arte, política e cultura contemporâneas. As suas máscaras em performances são sem preço. Simplesmente grandes senhoras artistas. Poço inesgotável. A luta continua, grande Santo.

  28. sant anton diz:

    A luta continua e a vitória nunca mais chega, vidé a corrupção, crueldade e fome nos países de África, depois da Nigéria e Congos segue-se a África do Sul.

  29. sant anton diz:

    Pois é, afinal um gigante sem montanha.

  30. Carlos Vidal diz:

    Por isso é que lhe chamei o gigante “da” montanha.

  31. Almajecta diz:

    Ao fim de contas, apenas mais um modernista.

  32. Carlos Vidal diz:

    Mas, almajecta, um modernista apostado na (auto) corrosão do modernismo. Não um pós-modernista (o que é isso?), mas um adepto da interacção forma/informe na arte da pintura. O informe vive “na” forma, Twombly sabe da coisa.

  33. LAM diz:

    Segui este tópico e os comentários com muito interesse.
    O que me “venderam” há uns bons anos atrás sobre Medardo Rosso é que teria sido a lança impressionista na escultura. Com prole por cá, de entre eles José Rodrigues.
    (terá sido assim, ou mais ou menos assim?)

  34. Carlos Vidal diz:

    Medardo Rosso é, de facto, a lança impressionista na escultura, talvez mais do que Rodin. Os dois autores, mais conhecido o último, com obra mais vasta e mais pregnante (de maior impacto, mais visual e vizualizada) repartem uma linha importante da paternidade da escultura moderna, tal como a conheceremos no século XX.
    José Rodrigues não creio descendente de Rosso. Tem, desde há muitos anos, uma obra errática, dependente das encomendas de autarquias um pouco por todo o norte do país. José Rodrigues é um artista que não produziria uma retrospectiva coerente. Pertenceu ao grupo portuense Os Quatro Vintes, com Jorge Pinheiro, Ângelo de Sousa e Armando Alves. Deste grupo ficarão as obras decisivas de Jorge Pinheiro e Ângelo de Sousa, curiosamente dois pintores que abordaram e abordam (hoje, mais o Ângelo) a relação da pintura com o espaço (e no espaço – caso de Jorge Pinheiro), por vezes num abstraccionismo radical, mínimo, mas não creio ligado às matrizes da transição do século XIX para o XX. O problema da escultura como “representação” é alheio a estes autores, que estão mais interessados na escultura e na pintura como estruturas e vocabulários. Daí o seu abstraccionismo: um interesse pelos elementos estruturais da linguagem plástica, como costumamos dizer.

  35. LAM diz:

    Numa fase mais recente, principalmente em obras de “encomenda”, compreendo o que diz dessa distância em J. Rodrigues em relação a Rosso. Penso no entanto que o que deu “sustentabilidade” a esse passo “autárquico/monumental/€urístico” foram as peças iniciais (pequenas esculturas e cerâmica), de pequena dimensão (aí também a ligação impressionista) de grandes semelhanças ao trabalho de Rosso.

    Dos “4 vintes”, digo eu, na verdade ficaram só 2 e meio. José Rodrigues e Angelo de Sousa (mais polémico)inteiros, Jorge Pinheiro pela metade e Armando Alves enfim valhamedeus.

  36. Carlos Vidal diz:

    O que diz é curioso: com efeito, conheço muitos escultores, hoje desconhecidos, ou quase, que tiveram momentos interessantes no seu trajecto. Até o Cutileiro, que não me interessa desde há muito, começou, digamos, bem. Depois, há regras comerciais que vêm impor-se e algo estranho sobre á cabeça das pessoas, um enebriamento e autocomplacência talvez: veja o caso actual de Joana Vasconcelos (que não vou aqui comentar). Dos 4 Vintes, destacaria sempre Jorge Pinheiro e Ângelo, como disse. O Armando Alves desde há muito que se assume como designer gráfico, não o crucifique.
    Cumprimentos.
    CV

  37. Almajecta diz:

    Voltou voltou, e de 4 vintes, que raio de nome , porque terá sido? Ainda não li o teu livro sobre o Jorge mas que sabe desenhar lá isso sabe. O Zé também e talvez mais experimentador e criativo, agitado inovador apesar da de San Lázaro que não atrofia nada antes pelo contrário. Os outros dois não conheço. Quanto á coerência em percursos artísticas ou em a arte, faz-me espécie, cheiram-me a progrom, a razões mui actuantes e religiosas mais a padrão, série, continuidade, repetição, mais do mesmo, linguagem, tendência e tal. Formulários instituídos pelos próprios e pelo mercado de consumo.
    Tu és apologista do Djanov, não? Bom para cossacos, eslvavos, místicas, violências e tal, mas para a Ibéria não e bem sabes porquê. Desculpa-me-lá qualquer coisinha, já me tinha esquecido que és internacionaleiro modernista.

  38. LAM diz:

    Pode ser. Mas que eu conheça Joana Vasconcelos não passou anteriormente por qualquer processo de “maturação” da sua obra, digamos um processo de afirmação menos institucional, antes uma rápida ascensão muito devida, digo eu, a uma obra de causa(s), nomeadamente sobre a mulher e o papel da mulher etc e tal. Ao contrário de José Rodrigues cujas portas, autárquicas como diz, só se lhe abriram após ganhar estatuto palmo a palmo. Digamos, ascensões diferentes…
    Curioso referir Cutileiro. Porque também considero que, a nível de obras “institucionais” ligadas principalmente ao poder autárquico, o País até há relativamente pouco tempo (hoje o panorama não será muito diferente, valha a verdade), estaria dividido em José Rodrigues a Norte, Penicheiro na zona Centro e Cutileiro para o Sul. Na zona Norte só algumas peças de Zulmiro quebravam essa regra.
    Sobre Armando Alves não é uma qustão de cruxificação. Tudo depende de como é apresentado. O facto de durante muitos anos ter dominado o mercado das artes gráficas não o catapultam automaticamente ao estatuto dos outros “vintes”.

  39. Carlos Vidal diz:

    Caro LAM, como muitos jovens autores portugueses Joana Vasconcelos passou por circuitos não institucionais, desde exposições colectivas que eu chamaria de grupo-tendência em autogestão (como eu tb fiz algumas, e todos os autores da minha geração e anteriores e posteriores fizeram), e circuitos tipo ZDB, etc. Portanto, ela chega a lugares institucionais e a um fácil sucesso comercial só recentemente. Mas a Joana Vasconcelos não é já uma novíssima. Da sua geração, eu destacaria – interessa-me mais – o João Pedro Vale, por exemplo.

    Quanto ao meu caro almajecta, sou jdanoviano, como sempre, como sabes. Saudades de Gorki e não tanto de Schostakovich que digo ser um dos meus apenas para disfarçar. Mas do que eu gosto é de Bouguereau e de realismo, socialista de preferência.
    Agora a sério (antes tb era), concordamos com o virtusismo desenhístico de Jorge Pinheiro, mas não do José Rodrigues: este, amaneirado, decorativo, sem expressão – linha sensual, leve, mas um tipo de mancha sem expressão, uma construção de fundos empre demasiadamente previsível e monótona.
    Quanto ao Ângelo, que tu não aprecias, eu acho-o importantíssimo, por ter inventado um vocabulário próprio, ao qual não sei se chamo desenho ou pintura. O pseudo-minimalismo dos anos 80, com suas superfícies sensualmente tratadas para receberem uma linha quebrada, deixo um pouco de lado para valorizar o seu geometrismo mais recente – seco, frio e não-harmónico, nem cromatica nem compositivamente. Depois falamos do resto no cabaret do costume.

  40. Fora d´horas! amigo CV

    Aqui aprende-se,gostei de ler todo este manancial de análise das obras e dos artistas.

    O Jorge Pinheiro foi meu professor de pintura do 5º ano na ESBAL, ía lá uma vez por semana, vinha do Porto e regressava. Dele tenho presente desde um abstraccionismo rigoroso à morte de Catarina Eufémia.
    Sou muito fraco em ligar nomes aos trabalhos, Medardo Rosso não conheço, mais uns nomes que aqui aparecem. vou estar mais atento, interessa-me.
    Agora um pedido de ajuda se possível: no livro Def. Arte Moderna, nota 4 qual o significado ou conceito de “l´exceptio…estou a tentar ler de novo este ensaio!
    com os meus agradecimentos

    adão

  41. Carlos Vidal diz:

    O Jorge Pinheiro é um amigo sério. Publiquei sobre ele uma pequena monografia na Caminho, há três anos se não me engano. Um texto que o sensibilizou muito. A sua figuração recente (re)começa com uma obra muito curiosa, de título “Porquê?”. Pode ser vista como um luto pela pintura na sociedade da reprodutibilidade, ou o contrário: pode ser uma questão sobre a questão (à Derrida) – quer dizer, pode ser isto também: “porque se fala de morte da pintura quando nada morreu nem vai morrer?”

    Sobre Rosso, procure-o. Vale a pena. Com Rodin fez a escultura moderna.

    Quanto ao conceito de “exceptio”, é um velho tema de Agamben, diz respeito ao facto de, nas nossas democracias, existirmos submetidos ao estado de excepção (que deixou de ser de “excepção” para passar a ser corrente). O homem animal (que também o é) submete-se ao soberano, na nossa biopolítica, já aflorada por Foucault. O Poder faz-nos viver em estado de excepção. A retórica actual da “crise internacional” é esse estado de excepção em que vivemos. Depreendendo-se daí que “acabada a crise” regressa a felicidade. Mas, no capitalismo, a crise existe para não acabar – “estado de excepção” permenente.

    Um abraço amigo.
    CV

  42. Também tenho boa impressão do Jorge Pinheiro, o que começo por dizer “ia uma vez etc.” não é tentativa de o culpabilizar ou denegrir, talvez um sentimento de que isso não criava mais oportunidades de diálogo, mas isso aconteceu entre mim e todos os outros profs. A culpa nesse aspecto também é minha porque nunca fui dado a grandes conversas. Mas guardo com bastante apreço o que ele me disse na avaliação final: “tanta coisa por dizer aí”, mais ou menos, como quem diz, trabalhe e lá chegará.
    Pouco importa, tudo isto.
    Já encontrei o MR, mas na Web, porque na história do R.Huyghe vem com o nome de Menardo Rosso ; “ espírito original e voluntarioso” e “ o paralelismo entre ele e Rodin indispôs os dois artistas”, “as modelações de luz e sombra dão um sentido à sua escultura”
    Na página da Web MuseuMenardoRosso já se pode ver melhor o trabalho. Aqui pode-se ver que a informe forma ou esboço de forma tem qualquer coisa com Twombly.
    Esta história do RH sempre me deixou surpreendido, porque: no capítulo do modernismo em Portugal encontramos a Vieira da S. , Ferreira da Silva, João Fragoso e João Bailote. VS e JF conhecemos, Ferreira da Silva não sei quem seja, mas o meu maior espanto é o João Bailote; este foi um pintor que viveu em Albufeira tinha um café onde expunha os seus trabalhos e vendia aos ingleses preferencialmente, nos anos 60/70 paisagens do casario de Albufeira com planificação cromática com alguma textura da tinta e aplicado se não estou em erro à espátula, reduzida a brancos azuis e traço negro. O CV já tinha ouvido falar destes nomes?
    Com um abraço amigo
    Adão C.
    Ps. Não quero tomar o tempo do CV, mas estas conversas dão-me algum ânimo! Obrigado.

  43. Carlos Vidal diz:

    Não toma tempo nenhum caro amigo Adão Contreiras.
    O Medardo Rosso é uma redescoberta que vale muito a pena. Por vezes vai mesmo mais longe que Rodin. O seu lirismo, o modo como “oculta” as formas na pedra é de uma poética inultrapassável.
    Os nomes que me citou, Ferreira da Silva e João Bailote, são-me quase desconhecidos. Fragoso conheço, conhecemos.
    Ferreira da Silva teve uma carreira de que ninguém se lembra e apenas sei que estudou em Coimbra e se relacionou com Júlio Pomar.
    Sobre Bailote, o meu amigo conhece-o melhor do que eu.

    Vi agora que Ferreira da Silva é citado pelo França na sua História da Arte em Portugal no século XX – algumas linhas sobre uma escultura apresentada em 1961 na Gulbenkian.
    O Huyghe tem uma obra de que gosto muito: são os dois volumes “L’Art et le Monde Moderne” coisa antiga da Larousse. Tem outras coisa incompreensíveis, como o estudo sobre o Henrique Medina.
    Enfim, outros tempos.
    Com amizade, e escreva sempre.

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