Madeira: do relógio de cozinha à suástica


Eu sei que de pouco adianta escrever mais sobre a vida política e cívica da Madeira. Tudo o que eu agora tenha a dizer será mais uma variação sobre prosas que já ando a debitar há anos e anos. Por ter tido laços familiares, profissionais e até políticos com a região (até fiz por lá uma campanha eleitoral), sempre me senti muito próximo do arquipélago. Mas estou farto de afirmar o óbvio (para quem conheça aquilo por dentro): que a famosa “falta de oposição” madeirense não é a raiz do problema mas sim um mero sintoma. Que uma oposição capaz não pode sobreviver naquela atmosfera asfixiante, marcada pelo nepotismo e pelo mais absoluto desprezo pelas regras da vida em democracia. Quem é que se sujeitaria a ser perseguido, ver bens seus expropriados e ter o nome arrastado pela lama todos os dias, apenas por brio cívico?
Isto não é exagero. Para lá das folclóricas ameaças de nacionalização de jornais, a tribo de Alberto João não hesita mesmo em castigar quem se coloca à sua frente. A família Welsh, dos poucos poderes efectivos que não se submete ao polvo laranja, já sofreu os efeitos do jardinismo na carteira. E de pouco lhes tem servido recorrer aos tribunais para castigar ameaças e insultos de sarjeta. O PND madeirense é, aliás, um subproduto desse conflito: primeiro foi o Garajau, jornal satírico que os madeirenses compravam sempre na companhia de outro, para o poderem esconder. Depois, veio a “ocupação” do PND. E a figura do agora famoso deputado regional José Manuel Coelho, o «desempregado de longa duração» que sempre admitiu estar ali, onde se trata «dos negócios do senhor Jaime Ramos e companhia limitada», para «avançar com uma nova ideia de protesto, porque o PSD não tem qualquer sensibilidade para os protestos verbais. Por isso fizemos um projecto que apelasse ao audiovisual, ao símbolo, e teve realmente um efeito muito grande.»

O resto, do relógio de cozinha à bandeira nazi, é já assunto de conversa de tasca em todo o País.
Não adianta apontar as minudências legais da situação. Não é esse o território do Mugabe insular. Ele está muito para lá das obrigações que uma democracia por norma coloca. E foi nesse plano para nós impensável, da resistência a um regime que confunde Estado com bolsos privados, vida pública com assuntos pessoais, serviços do Estado com vinganças mesquinhas, que José Manuel Coelho encenou o seu grotesco protesto. Que funcionou, está visto: as trapalhadas do regime insular multiplicam-se em torno deste caso. Prova de que, por fim, Alberto João, Jaime Ramos e demais comparsas encontraram adversários à (rasteira) altura.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

13 Responses to Madeira: do relógio de cozinha à suástica

Os comentários estão fechados.