Louvor de Guy Debord (a melhor prosa francesa do século XX – já agora sem french-bashing, que não uso cá em casa)
7 de Novembro de 2008 por Carlos VidalBom, parece que me vou estrear com Guy Debord, o apaixonado do espectáculo, do bezerro de ouro que adorava e só ele conhecia bem. Adorador do espectáculo, sim senhor; pois não não era, queriam-no jesuíta, não? (Vamos então ?)
Acho que Debord sempre quis dizer literalmente “nunca mais tão jovem beberei”, amava o fracasso (e quem não ama ?).
Como depois teve de beber sem ser jovem e ainda por cima trémulo demais, decidiu não aceitar a vontade de Deus (palavra que nunca usou, mas eu uso muito) e o jogo que ele lhe propusera: jogar doente e com muitas dores nas costas ou lá o que era. Por isso, Deus metafísico soberano, Debord não mais jogou o jogo que mais gostava: estar vivo e fracassar espectacularmente.
Fruiu prazeres e fracassos revisitados com uma melancolia nunca antes vista na literatura francesa, a não ser no cardeal de Retz (e vou usar uma tradução de Júlio Henriques): “Toda a minha vida sempre vi tempos inquietos, tumultos extremos na sociedade, e imensas destruições: entrei nessas desordens. E tais circunstâncias certamente bastariam para impedir que o mais transparente dos meus actos ou raciocínios se visse aprovado, fosse onde fosse”.
Acho que Debord preferia o prazer trágico à transformação da sociedade. Nunca foi esse o seu plano, mas não mesmo, nem da IS nem do seu cinema, o cinema mais fúnebre e mais encantatório dos canais de Veneza. E via nos canais paisagens soturnas e melancólicas.
Debord não tinha projectos, era o que faltava, apenas desejava a vida penosa de uma manhã de alcoolismo com tremor de mãos (idolatrava Cravan e Lautréamont). Depois de concluída a parte pacífica da sua juventude, como diz em Panégyrique, vem o prazer do desespero dos que o possuíam a rodos: “conheci, por conseguinte, sobretudo os rebeldes e os pobres. Vi em meu redor em grande número indivíduos que morriam jovens, e nem sempre por suicídio, de resto frequente. Nesta peculiar matéria da morte violenta, noto aqui, sem poder adiantar uma explicação plenamente racional do fenómeno, que o número dos meus amigos mortos a tiro constitui uma percentagem grandemente inusitada”.
Se Marx, o nosso grande Marx, escrevera nas Teses sobre Feuerbach que era preciso mudar o mundo, tal era precisamente o que Debord não pretendia. Pretendia apenas instalar o seu comunismo nos cafés e tabernas onde bebia pleno de saudade de um tempo primordial que não conheceu, mas soube que existiu (a Paris da comuna), aquele em que as andaluzas tinham os mais belos e maiores peitos da pequena europa. Embora avisado por Gracián, nunca foi homem de prudências.
Sentiu-se bem em Cosio d’Arroscia, onde com os amigos fundou a Internacional Situacionista? Sim, com certeza, nesse recanto onde certamente ninguém o podia encontrar. A felicidade em Debord era não ser encontrado, não ser visto acompanhado pelo tempo que o desfazia, como ele quis que o álcool o desfizesse (mas era o álcool e não o tempo – nada temos de nosso senão o tempo dizia Gracián, mas Debord não queria o tempo para nada, amava a imobilidade, e o ideal era que uma noite com uma veneziana não acabasse nunca). Já se sabe que ele queria meninas de escola mais do que tudo (mais do que o comunismo – e para quê?, com elas junto dele), e que bebeu muito mais do que escreveu. Por isso desejava o fracasso como liberdade, o comunismo implantado nas ruas onde vagueava nas “loucuras de Espanha”, com as de Barcelona e Sevilha e a tal “andaluza de peito trigueiro” (naturalmente grande e nunca pequeno, repito).
Debord conseguiu o que mais ninguém conseguiu: implantar o comunismo! De verdade, e o único que existiu. Mas apenas para os seus, uma coisa paralela ao inferno dos outros, o nosso inferno do trabalho e do capital. Nisso mudou o mundo. Mas quis provar o travo do fracasso para poder dizer por fim: volto aos montes para meu repouso, isto no seu filme (título em português) “Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo”. Por isso, a sua escrita é a mais bela: “Vejo porém distintamente que para mim não há repouso; e antes de mais porque ninguém tem a bondade de pensar que não tive êxito”. Guy sabia-o bem, “não havia êxito nem revés para Guy Debord e suas desmedidas pretensões”.
Porquê Debord? Porque é o meu ídolo e me impressionou que o imbecil Simon Critchley tenha comparado a Internacional Situacionista à Al Qaeda, numa inenarrável conferência (disponível em DVD) onde pululavam gracinhas a Britney Spears, uma mulheraça de quem gosto por completo. Imbecis sempre houve! Quer dizer, todos nós que nos empenhamos no trabalho, por exemplo. Mas, como sempre e para sempre, Marx vingar-nos-á: porque disse na altura certa que a situação desesperada do mundo lhe enchia de esperança.
PS: Voltarei em breve a Critchley e a Spears (quanto a esta, estou desejoso e nem sei se estou à altura).
E talvez a George W., quem sabe, para elogiar.
(Ah, as fotos: a segunda é minha e dedicada a Saint-Just; usa uma sua frase: a nossa liberdade é filha da miséria – e este é outro que na prosa francesa dificilmente se ultrapassará)



Comentário de Chuckie Egg
Data: 7 de Novembro de 2008, 14:49
“Eu que com tanta frequência tive de ler a meu respeito as calunias mais extravagantes ou muito injustas criticas, sinto aliás certa surpresa por ver que afinal se passaram trinta anos, e até mais, sem que alguma vez um descontente tenha utilizado a minha bebedeira à laia de argumento, pelo menos implícito, contra as minhas ideias escandalosas; com excepção, de resto única e tardia, de um escrito dado a lume por uns jovens drogados, em Inglaterra, no qual revelavam, per volta de 1980, que doravante eu estava embrutecido pelo álcool e que, per conseguinte, deixara de causar dano. Nunca me passou pela cabeça dissimular esta feição talvez contestável da minha personalidade, feição esta indubitável para todos quantos me tenham visto mais de uma ou duas vezes. Posso até assinalar que em todas as ocasiões bastaram poucos dias para me ver grandemente estimado, fosse em Veneza ou em Cádis, em Hamburgo ou em Lisboa, pelas pessoas que só por frequentar certos cafés fui conhecendo.”