Louvor de Guy Debord (a melhor prosa francesa do século XX – já agora sem french-bashing, que não uso cá em casa)

Bom, parece que me vou estrear com Guy Debord, o apaixonado do espectáculo, do bezerro de ouro que adorava e só ele conhecia bem. Adorador do espectáculo, sim senhor; pois não não era, queriam-no jesuíta, não? (Vamos então ?)

Acho que Debord sempre quis dizer literalmente “nunca mais tão jovem beberei”, amava o fracasso (e quem não ama ?).

Como depois teve de beber sem ser jovem e ainda por cima trémulo demais, decidiu não aceitar a vontade de Deus (palavra que nunca usou, mas eu uso muito) e o jogo que ele lhe propusera: jogar doente e com muitas dores nas costas ou lá o que era. Por isso, Deus metafísico soberano, Debord não mais jogou o jogo que mais gostava: estar vivo e fracassar espectacularmente.

Fruiu prazeres e fracassos revisitados com uma melancolia nunca antes vista na literatura francesa, a não ser no cardeal de Retz (e vou usar uma tradução de Júlio Henriques): “Toda a minha vida sempre vi tempos inquietos, tumultos extremos na sociedade, e imensas destruições: entrei nessas desordens. E tais circunstâncias certamente bastariam para impedir que o mais transparente dos meus actos ou raciocínios se visse aprovado, fosse onde fosse”.

Acho que Debord preferia o prazer trágico à transformação da sociedade. Nunca foi esse o seu plano, mas não mesmo, nem da IS nem do seu cinema, o cinema mais fúnebre e mais encantatório dos canais de Veneza. E via nos canais paisagens soturnas e melancólicas.

Debord não tinha projectos, era o que faltava, apenas desejava a vida penosa de uma manhã de alcoolismo com tremor de mãos (idolatrava Cravan e Lautréamont). Depois de concluída a parte pacífica da sua juventude, como diz em Panégyrique, vem o prazer do desespero dos que o possuíam a rodos: “conheci, por conseguinte, sobretudo os rebeldes e os pobres. Vi em meu redor em grande número indivíduos que morriam jovens, e nem sempre por suicídio, de resto frequente. Nesta peculiar matéria da morte violenta, noto aqui, sem poder adiantar uma explicação plenamente racional do fenómeno, que o número dos meus amigos mortos a tiro constitui uma percentagem grandemente inusitada”.

Se Marx, o nosso grande Marx, escrevera nas Teses sobre Feuerbach que era preciso mudar o mundo, tal era precisamente o que Debord não pretendia. Pretendia apenas instalar o seu comunismo nos cafés e tabernas onde bebia pleno de saudade de um tempo primordial que não conheceu, mas soube que existiu (a Paris da comuna), aquele em que as andaluzas tinham os mais belos e maiores peitos da pequena europa. Embora avisado por Gracián, nunca foi homem de prudências.

Sentiu-se bem em Cosio d’Arroscia, onde com os amigos fundou a Internacional Situacionista? Sim, com certeza, nesse recanto onde certamente ninguém o podia encontrar. A felicidade em Debord era não ser encontrado, não ser visto acompanhado pelo tempo que o desfazia, como ele quis que o álcool o desfizesse (mas era o álcool e não o tempo – nada temos de nosso senão o tempo dizia Gracián, mas Debord não queria o tempo para nada, amava a imobilidade, e o ideal era que uma noite com uma veneziana não acabasse nunca). Já se sabe que ele queria meninas de escola mais do que tudo (mais do que o comunismo – e para quê?, com elas junto dele), e que bebeu muito mais do que escreveu. Por isso desejava o fracasso como liberdade, o comunismo implantado nas ruas onde vagueava nas “loucuras de Espanha”, com as de Barcelona e Sevilha e a tal “andaluza de peito trigueiro” (naturalmente grande e nunca pequeno, repito).

Debord conseguiu o que mais ninguém conseguiu: implantar o comunismo! De verdade, e o único que existiu. Mas apenas para os seus, uma coisa paralela ao inferno dos outros, o nosso inferno do trabalho e do capital. Nisso mudou o mundo. Mas quis provar o travo do fracasso para poder dizer por fim: volto aos montes para meu repouso, isto no seu filme (título em português) “Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo”. Por isso, a sua escrita é a mais bela: “Vejo porém distintamente que para mim não há repouso; e antes de mais porque ninguém tem a bondade de pensar que não tive êxito”. Guy sabia-o bem, “não havia êxito nem revés para Guy Debord e suas desmedidas pretensões”.

Porquê Debord? Porque é o meu ídolo e me impressionou que o imbecil Simon Critchley tenha comparado a Internacional Situacionista à Al Qaeda, numa inenarrável conferência (disponível em DVD) onde pululavam gracinhas a Britney Spears, uma mulheraça de quem gosto por completo. Imbecis sempre houve! Quer dizer, todos nós que nos empenhamos no trabalho, por exemplo. Mas, como sempre e para sempre, Marx vingar-nos-á: porque disse na altura certa que a situação desesperada do mundo lhe enchia de esperança.

PS: Voltarei em breve a Critchley e a Spears (quanto a esta, estou desejoso e nem sei se estou à altura).

E talvez a George W., quem sabe, para elogiar.

(Ah, as fotos: a segunda é minha e dedicada a Saint-Just; usa uma sua frase: a nossa liberdade é filha da miséria – e este é outro que na prosa francesa dificilmente se ultrapassará)

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16 Responses to Louvor de Guy Debord (a melhor prosa francesa do século XX – já agora sem french-bashing, que não uso cá em casa)

  1. Chuckie Egg diz:

    “Eu que com tanta frequência tive de ler a meu respeito as calunias mais extravagantes ou muito injustas criticas, sinto aliás certa surpresa por ver que afinal se passaram trinta anos, e até mais, sem que alguma vez um descontente tenha utilizado a minha bebedeira à laia de argumento, pelo menos implícito, contra as minhas ideias escandalosas; com excepção, de resto única e tardia, de um escrito dado a lume por uns jovens drogados, em Inglaterra, no qual revelavam, per volta de 1980, que doravante eu estava embrutecido pelo álcool e que, per conseguinte, deixara de causar dano. Nunca me passou pela cabeça dissimular esta feição talvez contestável da minha personalidade, feição esta indubitável para todos quantos me tenham visto mais de uma ou duas vezes. Posso até assinalar que em todas as ocasiões bastaram poucos dias para me ver grandemente estimado, fosse em Veneza ou em Cádis, em Hamburgo ou em Lisboa, pelas pessoas que só por frequentar certos cafés fui conhecendo.”

  2. Excelente começo.
    Abraço,
    Nuno Ramos de Almeida

  3. Caro Carlos,
    Debord não se resume ao Panegírico e ao In Girum imus….
    A sua escrita tardia caminha na direcção que o teu post propõe, mas não foi a única coisa que ele escreveu. E se lermos os textos de Potlach (sobretudo os últimos) e os artigos de IS penso que se vê ali um ensaio de pensamento estratégico acerca das possibilidades revolucionárias do seu tempo, que dificilmente pode ser arrumado tão facilmente como o fizeste. Há uma fase em que o político predomina sobre o estético sem nunca deixar de o ter em conta. E essa fase também pertence a Debord.
    Talvez os seus escritos tardios sejam amargos e auto-referenciais precisamente porque identificam uma derrota histórica: «Quando todavia alguém teve ocasião de tomar parte numa tentativa deste género, conseguindo escapar às brilhantes catástrofes que a circundam ou se lhe seguem, a posição com que depois se depara não está entre as mais fáceis. O calor e o frio dessa época jamais o hão-de largar. Torna-se imperioso descobrir como será possível viver um futuro digno dum tão belo começo. E esta primeira experiência da ilegalidade desejará ser sempre prosseguida. Eis como aos poucos e poucos se foi inflamando uma nova época de incêndios, da qual ninguém que hoje vivo verá o fim: porque a obediência morreu».(Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo).
    Enfim, acho que todas as aproximações são possíveis e o Debord tardio, poético-literário, fascina-me bastante. Tenho um fraquinho pela melancolia da derrota.
    Mas importa ter em conta que essa melancolia resulta de um tempo de empenho total numa revolução social que cumprisse o programa da poesia moderna e abolisse o Estado, o trabalho assalariado e as classes. Sem isso, seria «apenas» uma escrita plena de erudição e inspiração.

  4. Carlos Vidal diz:

    Nada mais certo que este comentário pertinente de Rick. Contudo, a melancolia e a reivindicação de uma vida (e não tanto de uma política) que se sobreponha à arte sempre esteve presente. Curiosamente, através da arte. Um pungente documento artístico, logo desde o seu título, como “Mémoires” com Asger Jorn, já fala dessa melancolia do impossível tornado possível na deriva sem finalidade pela urbe “liberta”, digamos, numa carne viva da proximidade. “Mémoires”, de 1959, é já um desses belíssimos documentos de algo que não pode ser vivido senão como uma memória. E isso é realizado através da arte. As fotos de Cosio d’Arroscia tb atestam isso. De resto a consideração da ideologia como uma visão deformada do mundo, ou a ideia de que o idealismo se reduz ao espectáculo, também remetem para uma forma de mudança do mundo que escapa à transfiguração global. O comunismo dos conselhos da IS, se não me engano, é aquilo que podia ser vivido num lugar como Cosio d’Arroscia. Como que a dizer-nos: todos temos a responsabilidade de criar a nossa Cosio d’Arroscia. E isso era, sem dúvida revolucionário.

  5. Carlos Vidal diz:

    Quanto ao primeiro comentário, é preciso ver que não faço colidir as teses de Debord com o seu alcoolismo, ou não uso o alcoolismo para lhe atacar o pensamento. Apenas Debord não é uma ilha. As neovanguardas dos anos 50-60-70, para utilizar um cliché de que não gosto muito (mas, como diria Said um cliché guarda alguma verdade), tentaram infiltrar a vida na arte, a célebre fusão arte-vida. Desde o interesse do minimalismo pelo objecto ao interesse do conceptualismo pela linguagem, ou os de performers como Allan Kapprow pelo efémero, ou o de Smithson pelo redesenhar da natureza, essa pulsão para cruzar a arte com o que a rodeia é um facto. A vida de Debord, alcoólico ou não, mediático ou não (claro que não), não pode ser posta no exterior da sua obra, porque a sua obra não se resume à teoria política da sociedade do espectáculo. Juntamente com figuras como Straub / Huillet, Duras ou o Resnais de que gostava (o de Horoshima, meu amor) Debord redesenhou a paisagem do cinema, por exemplo.

  6. A «nossa» Cosio D’Arroscia, desculpa a franqueza, soa-me sempre a algo um pouco claustrofóbica, um condomínio privado com sofisticação. Respeito todas as opções, mas a fuga do mundo não me parece a proposta mais interessante destes textos. A referência a «Mémoirs» parece-me interessante – algo que não pode ser vivido senão como uma memória – mas repito que me parece um olhar para uma experiência recente (a ILetrista) que está prestes a ser encerrada (ou para ser mais preciso, já a encerrou). E a partir daí a aventura poética deixa de ser uma questão de pequenos círculos boémios para procurar o tabuleiro do mundo.
    Acho que a Arte (com maiúscula) não foi equacionada como um meio para a realização de outras coisas, mas que as outras coisas foram equacionadas como meios para a realização da arte. uma arte que se confundisse de tal modo com a vida que roubasse o lugar a todas as formas de reificação, a começar pelo fetichismo da mercadoria mas extendendo-se também à hierarquia burocrática das organizações políticas.
    Penso que o seu parênteses “(e não tanto uma política)” não se coloca, porque se tratava precisamente de buscar uma vida em que essas distinções não fizessem sentido, precisamente porque não haveria espaço para separações e especializações – o artista, o dirigente, o teórico, o poeta, etc…

  7. Carlos Vidal diz:

    Quanto à nossa Cosio d’Arroscia, seria preciso, porque nossa, reduzi-la à singularidade irredutível de cada indivíduo (ampliá-la no fundo), o que pode levar a vários tipos de explosão, emancipação imprevisível e não organizada: Maio 68 é um pouco isso. Como diz Badiou, é mais a paixão por uma novidade do que um combate contra uma sociedade injusta.
    E Debord aí é claro – a IS sempre combateu a possibilidade do seu sucesso, não por querer o fracasso, mas antes por não aceitar ser uma “organização” (piramidal, nem qualquer outra). Agora, do penúltimo parágrafo, faço uma outra leitura. Creio que a arte, em Debord, foi de facto equacionada como meio para fazer outras coisas, sociais e políticas, e penso no filme “Hurlements en Faveur de Sade”, de 1952, o primeiro, e o seu último plano negro de 25 minutos. Esse plano é fundamental para compreender uma arte de luta política, pois há aí algo que mostra que uma ferramenta eficaz contra o capitalismo pode (deve) ser o bloqueio da comunicação. O nosso sistema economico-político não é por acaso que se chama também “sociedade da informação” e do primado da comunicação. Ora, uma alternativa ou oponência ao capital e seus fluxos fantasmagóricos e performativos, passa pelo bloqueio da comunicação de que a arte pode servir de ferramenta exemplar. Trata-se de superar o sentido, o significado e o juízo de valor. De criar arte que refute os pilares do mundo. E ela existe e os planos negros de Debord entenderam isso muito bem. Mas nessa incomunicabilidade desejável está também a pintura de monocromo, de Malevich a Ellsworth Kelly ou Robert Ryman, estão os silêncios de Webern e Cage, a mise-en-abime de Pirandello ou a poesia de Lezama Lima e Herberto Helder (claro).

  8. A IS teve um amplo debate acerca de organização, que culminou aliás com a sua dissolução em 1972. Parece-me que se tratou aí de conceber um tipo de organização que combatesse permanentemente a passividade e chamasse constantemente cada um dos seus integrantes a assumir por completo o conjunto da actividade colectiva. Talver por ser um rumo novo e arriscado, a coisa não correu muito bem, mas não me parece que possa ser ignorada. Ou seja, há um salto grande no seu comentário, que me parece passar ao lado da diferença entre a recusa de uma organização burocrática assente na representação e na hierarquia e a concepção de uma organização (no sentido de uma acção colectiva com continuidade no tempo e um designío estratégico) através da qual os indivíduos se apropriam da própria história.
    Quando o debate entra na esfera artística sinto-me menos confortável e em piores condições para argumentar. No fundo a minha aproximação a Debord é fundamentalmente política e feita à luz de «História e consciência de classe», de Lukács, mesmo se a dimensão de vanguarda estética me interesse e me fascine. Simplesmente não vou na mesma direcção.
    Acho que 25 minutos de ecrã preto se destinaram a demonstrar o vazio das «novidades» estéticas elogiadas pela crítica cinematográfica francesa dos anos 50 e fazer, num só gesto artístico, a crítica da arte enquanto domínio separado. Simultaneamente, denunciam a separação entre o espectador e o produtor, a passividade do espectador, que está a consumir aquilo que lhe dão, mesmo quando pensa estar a fazê-lo de forma crítica.
    Parece-me que Debord está a denunciar a inexistência de uma verdadeira comunicação na sociedade moderna, do modo exclusivamente negativo que caracterizou a Internacional Letrista. Mas nem por isso deixou de procurar as condições em que essa comunicação pudesse tomar forma e os textos da IS são outros tantos ensaios dessa procura. No fundo as condições para uma comunicação livre dependeriam da crítica do simulacro de comunicação dominante e o ecrã negro seria o fogo visual com o qual queimar todos os obstáculos que separam os indivíduos uns dos outros.
    Acerca do Maio de 68:
    «Num tal processo, a propriedade foi negada, vendo-se cada pessoa em casa fosse onde fosse. O desejo desconhecido do diálogo, da palavra integralmente livre, o apreço pela comunidade verdadeira, tinham encontrado o seu terreno nos edifícios abertos ao encontro e à luta comum; os telefones, que figuravam entre os raros meios técnicos ainda em funcionamento, e as andanças erráticas de tantos emissários e viajantes, em Paris e pelo país fora, entre as instalações ocupadas, as fábricas e as assembleias, mostravam o emprego real da comunicação. O movimento das ocupações foi evidentemente a rejeição do trabalho alienado; e foi por isso a festa, o jogo, a presença real dos homens e do tempo.» (O começo de uma nova época, Internacional Situacionista – Antologia)
    Li a tradução do Badiou. Há mais?

  9. António Figueira diz:

    De Badiou por agora é tudo.

  10. Carlos Vidal diz:

    A Internacional Letrista que existe até 1957, como se sabe, inpregnará a IS com uma matriz dadaista de tal modo que sempre se disse que a IS tinha uma paternidade amada, que era Dada, e uma odiada, que era o surrealismo de Breton. Este era uma estética idealista fundada no delírio amoroso e na realidade do sonho que nunca aceitou um surrealismo de compulsões e dissidente onde pontificou Bataille, a bassesse, a ideia (e revista homónima) de acéfalo como um corte na racionalidade idealista, a horizontalidade como elogio do eixo, como dizia Bataille, boca-ânus, eixo oposto à verticalidade da percepção-razão.
    O título Potlatch vem dessa perdição ritual, dessa antropologia do dispêndio. Estas matrizes formataram organizacionalmente a IS, independentemente do seu programa, e a sua hibridação artística e política. Debord é influenciado pelo cinema de Isidore Isou (o célebre Traité de Bave et d’Éternité) e, recentemente, reconhece, numa reedição de Potlatch, que o letrismo era uma tentativa de reunir a vanguarda com a política revolucionária. Nada daquilo que fez Debord deixou de ter essa dimensão híbrida entre a arte e a política, de uma forma evidente. Quer dizer, para Debord, Lukacs era tão importante quanto Arthur Cravan, o que o situa desde logo num plano de “indecisão” entre o movimento organizado (à Breton) ou em forma de rede sem comando (à Tzara ou Schwitters).
    No plano formal é um facto que no programa “oficial” situacionista os 25 min de Hurlements são uma crítica do esgotamento do paradigma das vanguardas, aquilo que nos EUA, mais tarde Harold Rosenberg (crítico menor, na minha opinião) chamará de “tradição do novo”. A crítica da verdadeira comunicação na sociedade moderna dá lugar, como também creio, a uma hipótese de bloquear a comunicação. Senão vejamos: no filme La Société du Spectacle, as imagens voltam, apropriadas e pré-existentes (descontextualizadas e recontextualizadas), mas voltam como imagens, e mais: espectaculares. O bloqueio da comunicação também se efectiva quando Debord põe a célebre voz-off a ler o seu livro com o mesmo título com o tom mais monocórdico e neutro que se possa imaginar. Há uma recusa de fazer passar uma mensagen demasiadamente clara ou clarificada, recuperando estratégias de vanguarda concernentes à participação do espectador, que deveria trabalhar desde esse bloqueio do significado. O bloqueio estendia-se também, como disse, ao juízo de valor, que decididamente Debord não aceitava, não sendo por acaso que seu filme seguinte se intitulou: “Réfutation de tous les Jugements, tant Élogieux qu’Hostiles, qui ont été jusqu’ici portés sur le Film La Société du Spectacle”. Portanto, recusa da comunicação (a voz off monocórdica que quase impossibilita a compreensão teórica do texto A Sociedade do Espectáculo), a meu ver, e recusa do juízo estético, porque tornado pilar de um mundo mediatizado, em que o verdadeiro, como ele dizia, nunca deixaria de ser um momento do falso. Lendo o texto de Debord no número da IS que refere pode constatar-se uma espécie de grande problema organizativo para esse colectivo: como é que um movimento como a IS podia actuar na criação de conselhos de greve e ocupação ou assembleias de autogestão até uma “luta final” (expressão utilizada) ? Sem resposta, ou talvez por outra razão, os problemas foram-se avolumando e, como diz numa entrevista relativamente recente Henri Lefebvre, a IS e Debord transformam-se em máquinas de acusação contra todos, vendo em todo o lado inimigos, e também internamente (Vaneigem). Quer dizer, julgo que em 68 a IS já estava praticamente acabada, e Debord sabia-o.

  11. santanton diz:

    Muito bem vamos indo de iconoclastias, assim sim, esgotando, secando melhorando o memorando do art criticism. Cuidado com as purgas e felicidades.

  12. Carlos Vidal diz:

    Caríssimo Santo António. Lá está o que eu dizia lá por cima, o nosso Debord preferia o dada ao surreal “company” (Lda). Mas, na organização de grupo parece que tendia para a bretoníade. Não prefiro Artaud ou Bataille ou Schwitters ao sr Breton, gosto de todos. Por isso, iconoclastias, nada. O art criticism, como sabes, é um problema que temos de sanear lá para as bandas dos Estudos Culturais e pós-coloniais, e conseguiremos fazê-lo. Por exemplo, lá pela nossa escola, os nossos amigos escultores já viraram as costas aos cultural studies, e muito bem. O meu contributo para os estudos culturais são então estas duas meninas, a Britney (lindíssima, como sempre) e a outra, mais abaixo, acompanhada de Saint Just, de que não digo o nome.

  13. Nem sequer baixinho, ao ouvido de quem está muito interessado em saber?

  14. Carlos Vidal diz:

    Parece-lhe uma boa peça de arte, é, caro Rick ??
    Pela forma da pele clara (e que pele) ou pelo Saint-Just ??

  15. Carlos Vidal diz:

    E a Britney, hã ??

  16. Carlos Vidal diz:

    Para o Rick: Maria de Lurdes Rodrigues. Acredita ??

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