Folhetim de fim-de-semana (terceiro episódio)

[episódio anterior] Em 23 de Maio de 2004, ocorreu um acidente grave no aeroporto parisiense de Roissy-Charles-de-Gaulle. Segundo as conclusões de um inquérito tornado público alguns meses depois, na construção de um dos terminais do aeroporto, não foi devidamente levado em conta o efeito que a diferença de temperaturas entre o exterior e o interior da aerogare exerce sobre os materiais. Foi esse efeito térmico que, ao provocar uma retracção da estrutura metálica, deixou o cimento desarmado e originou a queda de uma secção da cobertura daquela área de circulação de passageiros. Por ter ocorrido num domingo de manhã, a uma hora de pouco movimento, o acidente não teve consequências mais devastadoras; nas primeiras horas, temeu-se que tivesse causado seis vítimas mortais, mas finalmente apurou-se terem sido apenas quatro os mortos provocados pelo acidente. Três dessas vítimas foram imediatamente identificadas; a quarta estava irreconhecível, sabendo-se apenas que se tratava de uma mulher, que viajava sozinha, num voo em proveniência da Ucrânia e com um passaporte da República Checa, que tinha um visto de longa duração para os E.U.A.. As autoridades checas informaram, no entanto, que o passaporte em questão tinha sido roubado alguns meses antes e que a sua titular estava viva e de boa saúde em Praga e a polícia francesa também já anunciou ter abandonado quaisquer investigações destinadas a descobrir a identidade da quarta vítima do acidente. Felix qui potuit rerum cognoscere causas.

De entre todos os grupos criminosos a operar nos E.U.A., a chamada máfia colombiana é unanimemente considerada como um dos mais violentos. Não é dos mais antigos – a máfia italiana, por exemplo, não só chegou antes como até lhe emprestou a designação – mas, em relação aos mais recentemente chegados – as máfias centro-americanas, fortemente baseadas na presença e na acção dos gangs de rua, sobretudo do sul da Califórnia – faz figura de veterana e de muito mais profissionalizada.

Os historiadores do crime organizado fazem remontar ao final dos anos quarenta – quando, na própria Colômbia, começou o período conhecido como “la violencia”, que deu início à guerra civil endémica que sobrevive naquele país até aos dias de hoje – a primeira tentativa séria dos grupos ligados já ao tráfico de narcóticos, e baseados nas cidades de Medellin e Cali, se instalarem em território norte-americano. Nessa altura, porém, o seu âmbito de actuação era bastante limitado, confinando-se essencialmente às regiões de emigração colombiana na época: a região metropolitana de Los Angeles e alguns boroughs nova-iorquinos. A expansão geográfica da organização, assim como o recrutamento de não-colombianos para as suas fileiras, só ocorreu nos anos 50 e 60 – uma altura em que as atenções das autoridades policiais norte-americanas estavam, de resto, muito mais viradas para a “Cosa Nostra” e para a sua (bem sucedida) tentativa de implantação no tecido económico legal do país.

Como a máfia ítalo-americana antes dela, também a máfia colombiana procurou aplicar o produto da sua acumulação primitiva de capital nos circuitos da economia legal; partia porém com atraso nessa corrida e, muito embora o tráfico de cocaína para os E.U.A. lhe proporcionasse lucros astronómicos a partir de meados dos anos 70, terá sido decidido, ao mais alto nível da sua direcção estratégica, que o último quartel do século XX seria ainda um período de acumulação violenta; a reprodução legal não viria nunca antes de 2000. Como todos os latecomers, a máfia colombiana sofreu a concorrência desleal dos já instalados. Foi então que a ultraviolência dos seus métodos foi denunciada à saciedade (como se os seus acusadores, da Cosa Nostra, nomeadamente, fossem, ou tivessem sido, meninos de coro) e teve início a sua diabolização mediática.

A essa táctica, respondeu o crime organizado colombiano de uma dupla forma: procurando encurtar, pela intensidade das suas operações, o quarto de século que a si próprio se tinha atribuído para constituir a massa crítica das suas operações futuras, e procurando internacionalizar a sua actuação a partir dos E.U.A., em parte também para que as suas inevitáveis consequências mediáticas pesassem o menos possível na opinião pública e, por seu intermédio, na acção das autoridades norte-americanas. A queda do Muro de Berlim foi rapidamente entendida pelas cúpulas do crime organizado de origem colombiana como uma oportunidade a aproveitar, não só para alargar “em extensão” geográfica as suas actividades (quer o tráfico de estupefacientes quer o de armas e, crescentemente, o de pessoas) como para “intensificá-las”, diminuindo assim o período (assumidamente de alto risco) que se haviam imposto antes de optarem decididamente pela legalização das suas operações nos E.U.A..

Uma das fraquezas mais generalizadamente reconhecidas à máfia colombiana (e desde sempre assumida pelas suas cúpulas) resulta da sua muito reduzida capacidade de recrutamento fora do meio étnico colombiano, ou colombiano-americano. Enquanto a máfia clássica, sobretudo na era de Las Vegas, inclui desde descendentes de escandinavos do Midwest a judeus nova-iorquinos, incluindo mesmo alguns afro-americanos, continua a ser penoso imaginar a máfia colombiana a operar, digamos, em Berlim – leste ou oeste. Tanto por essa compreensão das realidades presentes, como por um atavismo vindo directo do passado, o certo é que o crime organizado colombiano, quando quis passar a operar na Europa Central e de Leste, fez exactamente aquilo que as antigas famílias mafiosas já haviam feito há mais de meio-século: escolheram os países onde queriam operar e foram recrutar à Little Ukraine e à Little Czechoslovakia os seus novos operacionais.

O problema é que os candidatos não abundavam. Os imigrantes chegados nos anos 40 e 50 estavam demasiado velhos, ou demasiado bem integrados, (ou ambos), para admitirem sonhar sequer com o tipo de aventuras que os colombianos lhes propunham, e qualquer que fosse a taxa de retorno que daí pudesse advir. Restavam os emigrantes políticos de última geração, os recém-chegados a que o excesso de zelo ideológico dos consulados norte-americanos atribuíram descuidadamente vistos de entrada permanente no território dos E.U.A. ou mais ainda. Foi aí que, na Primavera de 2003, um grupo operacional dependente do comando de Miami do cartel de Cali a operar em Nova Iorque identificou dois possíveis correios de nacionalidade (então já apenas) checa.

Eram duas mulheres; Martina temeu envolver-se excessivamente com o grupo e acabou por regressar sem aviso a Praga, onde aparentemente um seu conhecimento nova-iorquino lhe tinha conseguido uma confortável situação na filial de uma grande empresa norte-americana; quanto a Svetlana, mais débil psicologicamente, mãe solteira, toxicodependente e já envolvida em alguma pequena delinquência, aceitou a oportunidade que lhe ofereceram como se fosse uma hipótese de salvação do abismo em que parecia prestes a mergulhar. Para as funções de correio, entre Nova Iorque e as diversas localizações do leste da Europa que deveria começar a abastecer, Svetlana deveria utilizar a identidade de Martina Svoboda, que então já estava em Praga, e casada com o C.F.O. americano da empresa em que trabalhava, mas cujo passaporte tinha ficado nas mãos dos colombianos e ela não reclamou. Por cada viagem que fazia, receberia cinco mil dólares, de resto gastos em boa parte em cocaína fornecida pela própria organização. Esta porém, fiel aos seus hábitos de muitos anos, guardava sempre consigo uma garantia de que o seu correio não desapareceria com a mercadoria ou o dinheiro que transportava; no caso de Svetlana, guardavam durante o tempo das suas idas e voltas à Europa de leste o único bem que possuía, e que era o seu filho de poucos meses.

Nos primeiros meses de 2004, Svetlana efectuou cinco idas e vindas ao leste da Europa, todas sem grande história; em 23 de Maio, porém, desapareceu sem deixar rasto numa escala em Paris depois de um regresso de Kiev. Os operacionais da máfia colombiana não lêem jornais, e não conseguiram por isso associar o desastre de Roissy ao seu desaparecimento. Para eles, a regra é simples: se um correio desaparece por mais de 48 horas, deve pagar. Neste caso, o filho de Svetlana foi abatido com uma bala de grande calibre que lhe entrou pela boca e pulverizou o crânio. Imprudentemente, os seus assassinos permitiram que o pequeno corpo fosse recuperado e deixaram indícios suficientes para permitir que a polícia pudesse chegar aos autores do crime.

Mesmo numa cidade violenta como Nova Iorque era à época, a morte premeditada e violenta de uma pequena criança em ligação ao tráfico de estupefacientes é susceptível de causar ondas de choque nos jornais e provocar uma revolta da opinião pública. As máfias concorrentes também não perderam a oportunidade de fazer coro com a maioria da população. Em resultado, às autoridades foi exigido que agissem e elas agiram. A máfia colombiana foi vítima de uma vaga de repressão que levou à prisão de muitos operacionais e à decapitação de secções inteiras da organização; o processo de expansão das suas actividades criminosas para a Europa de Leste, nomeadamente, ficou suspenso desde esse dia e é pouco provável que venha a ser retomado. De resto, para o cartel de Cali, que foi o mais atingido pela ofensiva policial, não há dúvidas ainda hoje de que o desaparecimento de Svetlana, aliás Marina, foi obra da Cosa Nostra.

(Continua na próxima semana)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Folhetim de fim-de-semana (terceiro episódio)

  1. Pedro Ferreira diz:

    António, o teu excelente texto fez-me lembrar uma história que li hoje no rue89. Uma mulher vítima de uma rede mafiosa de prostituição utilizou a possibilidade de trocar o seu testemunho por uma autorização de residência, hoje está em vias de ser extraditada para a Roménia pais da UE por causa de uma queixa dos mafiosos que ajudou a desmascarar em França…

  2. Nik diz:

    Não há uma versão condensada do texto?

  3. António Figueira diz:

    Há sim, Nik, e também há uma com bonecos, a pensar na malta com mais dificuldades.

  4. Nik diz:

    Com menos tempo, amigo Figueira, com menos tempo.

  5. Pingback: cinco dias » Folhetim de fim-de-semana (quarto e último episódio)

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