Roads to Renegacy

Eu tenho uma tese: a saloiada nacional continua a copiar servilmente a França como há cem anos e não se dá conta de que o seu French-bashing e o seu proclamado amor pela política e a cultura anglo-saxónicas são imitações de um deslumbramento semelhante das elites francesas. Outra prova desde mimetismo perverso e ridículo q.b. está no papel que os ex-esquerdistas desempenham na nossa vida política e cultural, obviamente sem paralelo com o que se passa no R-U e nos USA e que tem tudo a ver com o que se passa em França. Eu não tenho nenhuma simpatia especial por Alain Badiou: a sua filosofia parece-me razoavelmente inútil e não concordo com grande parte da sua intervenção política, mas agrada-me a sua constância de princípios e a sua recusa da facilidade: eis pelo menos alguém que não toma como pretexto a superioridade de meios do adversário e a aparente inevitabilidade da sua vitória para justificar a sua própria rendição política e virar a casaca em consequência. Por isso – pela dimensão histórica e pela lição moral – vale a pena ler esta sua entrevista.

Na melhor tradição francesa (também existe), Badiou revela-se aqui um fino psicólogo, e descreve processos mentais que recordam irresistivelmente o PREC: o meu preferido é o “outubrismo” dos maoístas da época, com o MRPP à cabeça (as Testemunhas de Jeová do marxismo-leninismo, como dizia uma amiga minha, católica, bem entendido), sempre à procura do mês certo, no ano de 75, para proclamarem as suas “Teses de Abril” revisitadas, imaginando no seu delírio que o bando de adolescentes excitados e de adultos retardados que eles formavam, absolutamente cortado da realidade social do país, reincarnavam Lenine e o partido bolchevista…

Uma nota final: esta entrevista de Badiou foi publicada no último número da New Left Review, mas corresponde à tradução inglesa de um original publicado no livro Changement de propriétaire, dessa interessante figura que é Éric Hazan, e que conclui com um texto de ficção política que aqui se deixa aos interessados.

PS: A propósito da figura do “renegado” comunista, a obra clássica continua a ser Herectics and Renegades, de Isaac Deutscher, publicado originariamente em 1955, reeditado em 1969 e actualmente esgotado (na net encontra-se em segunda mão e, nestes tempos de incerteza nos mercados, é um refúgio seguro para a aplicação de capitais) – mas, claro, não é certo que os renegados a que Badiou se refere possam ser considerados comunistas, tanto no sentido objectivo como subjectivo do termo.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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