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O triunfo da vontade

6 de Novembro de 2008 por Nuno Ramos de Almeida

Não concordo quando as pessoas minimizam a vitória de Obama. Aqueles que afirmam que a eleição é meramente simbólica esquecem-se que os símbolos são tão poderosos quanto os actos, ou mais. O real é delimitado pelo simbólico, não existe nem é apreendido sem ele. Às vezes as injustiças estão presas sobretudo pelos símbolos. Quando se derrubam barreiras e proibições actua-se sobre o real. O facto de um negro ter sido eleito nos EUA é um valente murro real sobre todas as discriminações. O facto de Obama ter feito a sua campanha com a convicção de que é possível mudar, é uma fortíssima afirmação de que a política tem de ser mais do que a simples gestão das coisas. Os actos também começam nas palavras. No mundo, em profunda crise, haver um consenso maioritário da necessidade da sua mudança é um belo princípio. É significativo que a maioria dos cidadãos dos EUA tenha escolhido Obama. É uma feliz e inteligente escolha. Ao contrário da muita gente, eu não acredito na inteligência inata dos povos. Acho, aliás, para escândalo de muitos dos comentadores do 5 dias, que a maioria das escolhas dos eleitores dos EUA, mesmo desde antes da eleição de Reagan, foram profundamente reaccionárias e imbecis. Se há pessoas estúpidas e ignorantes, porque razão não podem os povos enganar-se e ser muitas vezes estúpidos e ignorantes? Estou de acordo que as tarefas com que se vai debater Obama são quase impossíveis e que muitos daqueles que o apoiaram estão apenas interessados que algo mude para que tudo fique igual. Mas as dificuldades e até as impossibilidades não devem escamotear a existência de uma vontade de transformação. A vitória de Obama é a afirmação dessa vontade. O “movimento” que o elegeu, aproveitando essa ideia movimentista do Rui Tavares, pode não ter plataforma ideologicamente esclarecida nem condições sociais para a transformação profunda da sociedade. Mas, como dizia Engels, citando Ricardo Araújo Pereira, a prova do pudim é o próprio pudim. Sem se querer nada se faz. Sem se tentar nada se consegue.

Comentários

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 6 de Novembro de 2008, 0:26

Posso-me enganar, mas só uma pessoa realmente excepcional poderia ultrapassar tanto racismo, tanta ignorância, tanto medo pós-11 de Setembro. Ser preto de origens muçulmanas depois do 11 de Setembro e conseguir chegar a Presidente dos Estados Unidos tão pouco tempo depois é de alguém realmente excpecional. Por muito que me custe dizer, a América é mesmo um país diferente.
Já agora, parabéns ao «5 Dias» pela cobertura.

Comentário de Aires
Data: 6 de Novembro de 2008, 2:06

excelente e oportuno comentario…
há sempre umas gentes que se presumem donas das verdades fundamentais
e ignoram o processo e seus ensinamentos derivados
abraço

Comentário de emiele
Data: 6 de Novembro de 2008, 9:34

Completa e totalmente de acordo!
Para além de ele ser um tipo ainda jovem em relação ao que se tem visto nos Presidentes de uma país onde a Presidência é uma função activa e não honorária, e do inegável carisma que tem o que o pode ajudar em muitas coisas, mesmo nas tarefas ‘impossíveis’ que tem pela frente.
Mas se sabemos que são tarefas impossíveis, e vai herdar uma situação infernal, será simpático não começar logo a bater-lhe à primeira promessa não cumprida com a rapidez que se desejaria…
E essa da «inteligência inata dos povos» é uma utopia.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 6 de Novembro de 2008, 12:49

Nuno, sendo da corrente minoritária não-obamista do 5dias permite-me contrariar-te.
Em primeiro lugar, esclareço que acho que Obama é diferente de McCain ou Bush, e que a sua vitória se traduzirá nalgumas alterações políticas significativas nos Estados Unidos e na sua política internacional.
Contudo rejeito a leitura “movimentista”, que a sua vitória se traduzirá em algo de novo, transformador ou revolucionário.
É preciso perceber que, numa altura de crise do sistema global, Obama não personifica a transformação mas sim o adoçar do sistema. Obama, não demonstrou ser (e gostaria de estar enganado) um candidato que venha a por em causa as estruturas do sistema mas (talvez) procura humanizá-las – o que aliás já não é uma receita nova.
Se reconheço a importância histórica da sua vitória, é sobretudo, por representar a derrota da direita bushista não pelo potencial transformador de Obama.

Comentário de xatoo
Data: 6 de Novembro de 2008, 13:11

não é a pessoa a titulo individual – são as estruturas de macro-dominação, estúpidos!

Comentário de carmo da rosa
Data: 6 de Novembro de 2008, 13:31

“É uma feliz e inteligente escolha. Ao contrário da muita gente, eu não acredito na inteligência inata dos povos.”

Há assim tanta gente, com mais de dezoito anos, que acredita na inteligência inata do povo? De qualquer forma é verdade que o povo, aliás como toda a gente, tem por vezes rasgos de génio e outras vezes é capaz de aturar um Salazar durante 48 anos!

Outro exemplo: os EUA libertaram-nos dos Nazis, pagaram do bolso deles com o Plan Marshall a reconstrução da Europa destruída pela Guerra, defenderam as nossas democracias periclitantes da expansão soviética. Mesmo assim, e assim como o autor, há muita boa gente, inteligente, que sugere que Reagan (juntamente com Kennedy e Margaret Thatcher um dos nossos melhores defensores) é um exemplo de uma escolha reaccionária e imbecil. Não, eu acho que neste caso o povo demonstrou não ser totalmente burro…

Ao escolher agora Obama, também a minha escolha, espero que o povo, mais uma vez, tenha feito uma escolha sensata, histórica e inteligente.

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 6 de Novembro de 2008, 13:59

Reagan e Tatcher, que dois belos exemplos, Carmo da Rosa. Os dois num barquinho em alto-mar, a afundar lentamente, sem bóias de salvação, que bom que teria sido para a Humanidade.

Comentário de carmo da rosa
Data: 6 de Novembro de 2008, 16:52

”Reagan e Tatcher, que dois belos exemplos, Carmo da Rosa. Os dois num barquinho em alto-mar, a afundar lentamente, sem bóias de salvação, que bom que teria sido para a Humanidade.”

Belos não direi, mas realmente dois bons exemplos. Para abordar só um deles, Reagan, creio que a maioria dos Russos, Ucranianos, Romenos, países Bálticos, checos, Eslavos, Hungria e todos os Polacos (esqueci-me de alguém?) estão muito agradecidos a Reagan.

É evidente que esta gente não representa totalmente a Humanidade, isso é, sobretudo quando se começa a falar em alto-mar, reservado a um só português que seja – incham, e aí vão eles por mares nunca dantes navegados cuidando que personificam integralmente a Humanidade…

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 6 de Novembro de 2008, 17:54

«Para abordar só um deles, Reagan, creio que a maioria dos Russos, Ucranianos, Romenos, países Bálticos, checos, Eslavos, Hungria e todos os Polacos (esqueci-me de alguém?) estão muito agradecidos a Reagan. »

Engraçado. Pensei que estavam agradecidos ao Gorbatchov!

Comentário de Lidador
Data: 6 de Novembro de 2008, 18:39

“Pensei que estavam agradecidos ao Gorbatchov”

O que demonstra cabalmente a tese do autor: há gente totalmente burra.

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 6 de Novembro de 2008, 19:50

Porquê? Achas que é ao Reagan que estão agradecidos, ó inteligência?

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 7 de Novembro de 2008, 0:20

Tiago,
As mudanças são mais ricas que os esquemas. Apenas quero dizer que a vitória do Obama significa um acontecimento simbólico mais poderoso do que a mera substituição de um presidente republicano por um democrata. Não sou particularmente obamista, mas acho que se pode interpretar as forças sociais em presença olhando para a ideologia dos seus dirigentes, mas também para os movimentos sociais de que são frutos e que são desencadeados. Exemplificando com Portugal, a queda do fascismo não se resumiu a um golpe de Estado e não seria possível analisar o 25 de Abril apenas escalpelizando o pensamento de Spinola.

Comentário de carmo da rosa
Data: 7 de Novembro de 2008, 3:15

”Engraçado. Pensei que estavam agradecidos ao Gorbatchov!”

Pois é caro Ricardo, mas antes do Gorbatchov dizer JÁ CHEGA, o Reagan telefonou para o Kremlin, com o famoso telefone vermelho, e disse-lhe: ‘é pá, tem juízo, 44 anos a chatear os Polacos, Checos, Húngaros……., já chega!’.
E o Gorbatschov respondeu: ‘é pá, tens toda a razão, e ainda por cima a minha Raiza está-me sempre a chatear a mona porque quer ir fazer compras a Nova Iorque e visitar a Disneylândia’…

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Data: 7 de Novembro de 2008, 9:21

[...] derrotado em vários referendos nos EUA terão sido os mesmos que simbolicamente terão votado no triunfo da vontade. Porque esta pode ser grande mas a  América é maior, ao clicarem sobre a imagem, irão [...]