O triunfo da vontade

Não concordo quando as pessoas minimizam a vitória de Obama. Aqueles que afirmam que a eleição é meramente simbólica esquecem-se que os símbolos são tão poderosos quanto os actos, ou mais. O real é delimitado pelo simbólico, não existe nem é apreendido sem ele. Às vezes as injustiças estão presas sobretudo pelos símbolos. Quando se derrubam barreiras e proibições actua-se sobre o real. O facto de um negro ter sido eleito nos EUA é um valente murro real sobre todas as discriminações. O facto de Obama ter feito a sua campanha com a convicção de que é possível mudar, é uma fortíssima afirmação de que a política tem de ser mais do que a simples gestão das coisas. Os actos também começam nas palavras. No mundo, em profunda crise, haver um consenso maioritário da necessidade da sua mudança é um belo princípio. É significativo que a maioria dos cidadãos dos EUA tenha escolhido Obama. É uma feliz e inteligente escolha. Ao contrário da muita gente, eu não acredito na inteligência inata dos povos. Acho, aliás, para escândalo de muitos dos comentadores do 5 dias, que a maioria das escolhas dos eleitores dos EUA, mesmo desde antes da eleição de Reagan, foram profundamente reaccionárias e imbecis. Se há pessoas estúpidas e ignorantes, porque razão não podem os povos enganar-se e ser muitas vezes estúpidos e ignorantes? Estou de acordo que as tarefas com que se vai debater Obama são quase impossíveis e que muitos daqueles que o apoiaram estão apenas interessados que algo mude para que tudo fique igual. Mas as dificuldades e até as impossibilidades não devem escamotear a existência de uma vontade de transformação. A vitória de Obama é a afirmação dessa vontade. O “movimento” que o elegeu, aproveitando essa ideia movimentista do Rui Tavares, pode não ter plataforma ideologicamente esclarecida nem condições sociais para a transformação profunda da sociedade. Mas, como dizia Engels, citando Ricardo Araújo Pereira, a prova do pudim é o próprio pudim. Sem se querer nada se faz. Sem se tentar nada se consegue.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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