Com a corda na garganta [actualizado]

Há uns dias, ouvi alguém comentar que se devermos 1.000 € a um banco estamos lixados mas se alguém dever 1.000.000 € a um banco, é o próprio banco que está lixado. Eu acrescentaria que se o banco dever 1.000.000.000 € a alguém, somos nós que nos lixamos outra vez.
O movimento “Com a corda na garganta“, propõe coisas simples e relativamente banais para quem, como todos nós, sempre foi o garante dos lucros astronómicos da banca: limitação do spread e o fim da obrigatoriedade da compra de pacotes de produtos quando se contrai um empréstimo e a taxação dos lucros da banca pelo mesmo valor que são taxados os lucros das empresa.
Para isso, está a promover uma petição à Assembleia da República, para que os deputados legislem o óbvio.

ATENÇÃO: Esta petição já esteve online alguns dias, contudo um qualquer problema técnico levou a que as assinaturas se perdessem. Por isso aqui fica o link para a petição.

[Actualização: Numa clara resposta a esta petição, o Banco Central Europeu decidiu voltar a baixar as taxas de juro, que outrora dizia não poder baixar]

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11 respostas a Com a corda na garganta [actualizado]

  1. Como vê, houve outra solução…

    De qualquer modo, a banca comercial tenderá sempre a manter as margens de lucro. Se vir fixado o spread, irá buscar dividendos fora do crédito particular. Mesmo em minoria, não me parece justo que quem poupa pague por quem se endividou consumindo.

  2. Pedro Ferreira diz:

    Fiquei surpreendido com esta mensagem, sempre julguei que a proibição da chamada venda forçada (do tipo impigir o seguro do banco a quem contrai um empréstimo, ou obrigar a comprar o Windows com um computador novo) fosse imposta por uma regra comunitária. Pelos vistos é mais uma especificidade francesa.

  3. Tiago Mota Saraiva diz:

    Dorean Paxorales, o problema é que a maioria das pessoas que se endividam não o fizeram por vontade própria. Na sua maioria as pessoas endividaram-se para ter acesso a coisas básicas para a sua existência como a habitação, a saúde ou a educação.
    Porque não existe uma rede não especulativa de casas para arrendar, porque os salários para a maioria dos portugueses são e sempre foram baixos, porque há pessoas que ao longo dos últimos anos não conseguiram poupar, porque há pessoas que foram perdendo o seu posto de trabalho…

  4. Luís Lavoura diz:

    Como quer que se limite o spread?

    Os bancos portugueses, para emprestar dinheiro aos portugueses, não captam poupanças de outros portugueses, porque Portugal é um país com deficit de poupança e excesso de consumo.

    O que os bancos portugueses fazem é pedir dinheiro emprestado aos bancos alemães. Os bancos alemães emprestam esse dinheiro aos bancos portugueses à taxa Euribor, que é a taxa média para os empréstimos interbancários em euros.

    Os bancos portugueses, para fazerem lucro, têm portanto que emprestar aos seus clientes portugueses a uma taxa ligeiramente superior à Euribor, isto é, ligeiramente superior à taxa à qual pediram o dinheiro emprestado aos bancos alemães. Esse acréscimo de taxa é o spread.

    O spread também tem que aumentar para compensar os bancos do risco do empréstimo, isto é, do risco de que o crédito fique malparado.

    Se se limitasse o spread os bancos, pura e simplesmente, deixariam de emprestar. Ou então só emprestariam a clientes que tivessem um alto grau de probabilidade de não faltarem aos pagamentos. Ou então só emprestariam em troca de um colateral elevado, ou para uma boa hipoteca. Em qualquer dos casos, os clientes pagariam menos spread, é certo, mas muita gente pura e simplesmente não teria acesso a crédito.

  5. Caro TMS,

    Não discuto que a habitação é um bem necessário e que a maioria das pessoas em Portugal necessita do crédito para o adquirir.

    Mas, jogando fora a especulação que houve no custo da construção (que também existe, p.ex., o preço dos materiais está inflacionado), a especulação nos preços da habitação só é possível quando as taxas de juro são baixas.

    Isto porque as pessoas têm uma tendência suicida para se endividarem para além do razoável quando o dinheiro está barato, e com uma desfaçatez de que não fariam uso caso se tratasse de um aluguer. Porque, no fundo, se convencem de que não estão a gastar o seu próprio dinheiro. Muitas vezes mesmo optando por soluções de alta amortização a longo prazo para permitir máximizar o capital em dívida. É deste consumismo que falo porque é este que inflaciona o mercado, acabando por obrigar o cliente que se segue a se endividar ainda mais.

    Que os salários são miseráveis, nem se discute. Que um emprego pode perder-se, é uma fatalidade. Mas é ainda mais uma razão para as pessoas terem mais cuidado na forma como aplicam o seu dinheiro.

    Falando de roubos, sabe quanto dos lucros do cartel bancário português resulta da cobrança de mil e uma taxazinhas e “comissões de gestão” ou “de serviço” sobre contas particulares que só existem porque sim? Anda entre os 5 e os 15%, conforme o arbítrio e a necessidade na altura da previsão do balanço…

  6. Caro Pedro Ferreira,

    E é. Mas, na prática, o gestor de conta tem sempre argumentos muito convincentes para evitar a fuga do cliente para outras opções.

  7. Tiago Mota Saraiva diz:

    Luís Lavoura, não faço ideia a quem é que os bancos portugueses pedem dinheiro. De acordo com as notícias mais recentes, os bancos portugueses, a quem mais pedem dinheiro é ao Estado.
    Contudo há dados objectivos que me permitem afirmar que os administradores dos bancos se pagam prémios e salários exorbitantes para o nosso contexto sócio-económico tendo normalmente poucas capacidades técnicas, científicas e humanas para exercerem os cargos respectivos (veja-se o exemplo Armando Vara).
    Por outro lado, mesmo com gestores pouco qualificados, a banca continua a dar lucros astronómicos.
    Vivemos num mundo e num país surreal em que o Estado (nós) injecta dinheiro nos bancos para que os bancos nos possam emprestar dinheiro.
    Será que não temos o direito de exigir à banca que tenha um pouco de pudor no lucro?

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    Cara Dorean Paxorales, concordo consigo na crítica à lógica do consumo pelo consumo, embora me pareça que esse tipo de endividamento não é o mais preocupante no contexto actual.
    De qualquer forma essa é a cultura criada pelos governantes e banqueiros.
    Veja, por exemplo, a quantidade de publicidade a crédito fácil que circula pela internet. Nestes últimos tempos, e ao contrário do que a tese que Luís Lavoura procura defender, os bancos ainda estão mais agressivos nas ofertas de crédito.
    Há uma semana, por exemplo, recebi em casa uma carta de um banco anunciando-me que tinha um crédito pré-aprovado, sem que o tivesse requerido. A um amigo que esgotou o seu saldo num cartão de crédito foi-lhe proposto fazer um segundo cartão de crédito para cobrir o primeiro.
    É para isto que estamos (nós/Estado) a financiar a banca.

  9. Pingback: cinco dias » Racionalização do sistema

  10. Oscar Carvalho diz:

    Talvez noutro sistema se possam impôr aos bancos quais as taxas de juro que estes devem praticar. No sistema em que vivemos a sua proposta é demagógica e fantasista. Ou então proponha como poderia funcionar um sistema capitalista sem bancos.

  11. Pingback: cinco dias » A crise e os modelos: LIBOR/EURIBOR

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