Obama e a América negra

Um ponto prévio: Obama não é o “afro-americano” clássico. Não descende de escravos, sendo sim filho de um queniano (aliás com uma história amarga de regresso a África) e de uma americana. Sempre esperei que o primeiro negro a subir à presidência americana fosse o último passo na cicatrização da história inter-racial dos EUA; a superação dialéctica dos séculos de lutas, atrocidades e conquistas que se seguiram ao crime da escravatura. Imaginava eu que seria este o sinal último da integração plena: um negro a comandar todo o país, vindicando os seus antepassados reduzidos à condição sub-humana de mercadoria descartável. Parece-me digno de admiração que Obama tenha conseguido unir todas as comunidades negras americanas em seu apoio incondicional; sem o ressentimento dos que se libertaram a duras penas e que poderiam agora acolher com desconfiança o estrangeiro neto de um chefe tribal, limpo das máculas e das memórias dos descendentes dos escravos. Isto é, a meu ver, algo muito mais notável do que mais uma celebração de uma mobilidade social que talvez nem passe hoje de um mito em vias de extinção. Por outro lado, trata-se de uma redenção inesperada, de um término quase poeticamente justo para esse ciclo histórico: que América e África voltem a trocar sangue, desta vez na pessoa de um jovem e brilhante líder, passando por cima da mágoa, do preconceito e do ódio. Começando talvez a ultrapassar as heranças divisivas de um passado escrito a sangue, para muitos ainda fresco.

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16 respostas a Obama e a América negra

  1. GL diz:

    Até que enfim o termo “afro-americano” faz sentido.

  2. GL diz:

    A estupidez de “afroamericano” é constrangedora.

  3. Talvez por não ser o “Afro-Americano” “Preto” “Negro” (Riscar o que ofender) clássico é que Obama ganhou.

    Quem é que, até Obama aparecer, representava os “Pretos” “Negros””afro-Americanos” (Riscar o que ofender). O clássico Racista Reverendo Jackson de um lado e o clássico Racista muçulmano Farrakhan por outro, cuja mensagem política dependia unicamente da manutenção da comunidade em situação económica confrangedora, fazendo com que qualquer “Afro-Americano” “Preto” “Negro” (Riscar o que ofender) com sucesso fosse visto como um inimigo a abater.

    Aliás Jesse Jackson bem tentou abater politicamente Obama, mas não conseguiu e teve de encarneirar.

    Espero que o sucesso de Obama contribua para consciencializar os “Pretos” “Negros””afro-Americanos” (Riscar o que ofender) a lutarem pelo seu quinhão do sonho americano, tal como o fazem, e com sucesso, os apelidados de Hispânicos e “asiáticos”.

    Aliás o maior siucesso de Obama é fazer com que estas classificações rácicas idiotas caiam rapidamente em desuso. Afinal são todos seres himanos e são todos cidadãos Norte-Americanos.

    Enquanto esta minoria foi representada por estas duas “coisas”, cuja ,

  4. Antónimo diz:

    Completamente ao lado do posto (com que concordo) Li em qualquer lado que Obama vem de uma família da classe média baixa, acho que é melhor reverem certos conceitos. um tipo cujos pais se conheceram na univerisidade (e um deles queniano) serão da classe média baixa? lembra-me aqueles que dizem que quem ganha 1500 euros mensais é um pobrezinho.

  5. GL diz:

    Eu risquei “Preto” e “Afro-americano”, Luis Bonifácio. Em português, o correcto é dizer “negro”. “Preto” é cor.

  6. Luis Rainha diz:

    “Negro” também é cor. Posso não adorar a palavra; mas não vejo o problema de “afro-americano”, sobretudo neste caso. As regras do hífen, como vêm no prontuário, impõem “afro-americano”, mas a versão “afroamericano” também é reconhecida pela Mordebe.

  7. Epá, O preto-Obama é muito mais do que aquilo que anda nas imaginações, mitologias, fantasias, palaermices arrascistizadas de muita gente. O Preto-Obama é o Homem-Verbo. O Homem Sonha-Pensa-fala-y-as-coisas-acontecem nem que tenham que se transformar.
    O Preto-Obama vai para além da cor até nos discursos de quem não consegue conceber o muno regido par além da humanidade branquinha.
    O Obama-Preto é um sábio Precoce! Os sábios movem-se bem na pele da Humanidade. A humanidade é uma coisa que vive ceguinha dentro de nós, mas visionária quando as palavras a acertam. O preto-Obama-preto é Luz iluminando as trevas em muitas cabecinhas.
    A Palavra tem mesmo Poder! Foi Isso!

  8. Chamar “Preto” em Portugal a uma pessoa é ofensa. No Brasil a ofensa é chamar “Negro” e não “Preto”.

    Mas estou-me nas tintas. O nome dele é Barrack Obama.

  9. Caro Luís Rainha,

    Se é verdade que a “história de Obama” não é a dos afro-americanos, também não é menos verdade que a identificação é forte, e que estes o perfilharam. À sua maneira, Barack Obama é tb um afro-americano. Mas concordo consigo num ponto, o que nele conta é o sonho da igualdade ou integração, que era o de Martin Luther King. Não é a especificidade étnico-racial.

  10. Luis Rainha diz:

    Obama é “o” afro-americano por definição: filho de pai africano e mãe americana. Mas é precisamente dessa perfilhação que falo…

  11. GL diz:

    “Chamar “Preto” em Portugal a uma pessoa é ofensa. No Brasil a ofensa é chamar “Negro” e não “Preto”.

    A frase acima não é verdadeira. No Brasil é ofensa chamar “preto”.

    Se não me engano, nos EUA é o contrário, o certo (era, mudaram) é “black”; negger é ofensa.

  12. GL diz:

    “À sua maneira, Barack Obama é tb um afro-americano.”

    Então… ele é que é literalmente afro-americano. Se o pai é africano e a mãe americana…
    O que não percebo no politicamente correcto é categorizar alguém por suas raízes. Ou se é americano ou não, agora “afro-americano”…

    É tão estúpido como se referir ao português falado no Brasil como “português-brasileiro”… enfim… uma invenção idiota.

  13. Luis Rainha diz:

    GL,
    Está a ver a coisa ao contrário: no “politicamente correcto” usa-se mesmo é fazer de conta que tais coisas não existem. Também podemos fazer de conta que o Português falado em Portugal e no Brasil é todo igual. Não me cheira é que fiquemos assim a entender melhor seja o que for…

  14. Model500 diz:

    O Luis Rainha escreve muito bem. Parabéns.

  15. Eu não estou minimamente interessada no facto do homem ser afro-americano, branco, preto ou cor-de-rosa fluorescente.
    Neste momento, o que me preocupa é saber que projectos e ideias concretas pretende apresentar, depois de todo este circo acabar, para que todos juntos (obviamente que refiro-me ao mundo inteiro) possamos encontrar soluções para combater a crise económica que grassa por todo o lado.

  16. GL diz:

    “Está a ver a coisa ao contrário: no “politicamente correcto” usa-se mesmo é fazer de conta que tais coisas não existem. ”

    Luís, acerca do “usa-se”: as regras da brincadeirinha eu percebo. Mas questiono. Acho que é o remédio que mata, não cura.

    “Também podemos fazer de conta que o Português falado em Portugal e no Brasil é todo igual.”

    Erro meu. Estava a me referir à Língua Portuguesa, que do que me consta, só há uma. E a partir de Janeiro, caso haja quem ainda tenha alguma dúvida, será uma por força de lei.
    Mas é verdade, é claro que as fonéticas são diferentes.

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