Obama e a América negra

Um ponto prévio: Obama não é o “afro-americano” clássico. Não descende de escravos, sendo sim filho de um queniano (aliás com uma história amarga de regresso a África) e de uma americana. Sempre esperei que o primeiro negro a subir à presidência americana fosse o último passo na cicatrização da história inter-racial dos EUA; a superação dialéctica dos séculos de lutas, atrocidades e conquistas que se seguiram ao crime da escravatura. Imaginava eu que seria este o sinal último da integração plena: um negro a comandar todo o país, vindicando os seus antepassados reduzidos à condição sub-humana de mercadoria descartável. Parece-me digno de admiração que Obama tenha conseguido unir todas as comunidades negras americanas em seu apoio incondicional; sem o ressentimento dos que se libertaram a duras penas e que poderiam agora acolher com desconfiança o estrangeiro neto de um chefe tribal, limpo das máculas e das memórias dos descendentes dos escravos. Isto é, a meu ver, algo muito mais notável do que mais uma celebração de uma mobilidade social que talvez nem passe hoje de um mito em vias de extinção. Por outro lado, trata-se de uma redenção inesperada, de um término quase poeticamente justo para esse ciclo histórico: que América e África voltem a trocar sangue, desta vez na pessoa de um jovem e brilhante líder, passando por cima da mágoa, do preconceito e do ódio. Começando talvez a ultrapassar as heranças divisivas de um passado escrito a sangue, para muitos ainda fresco.

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