EUA, a sombra das fraudes eleitorais

Jeb Bush, governador da Flórida durante as Eleições dos EUA de 2000, acusado de ter permitido uma maciça fraude eleitoral no seu Estado, que permitiu a vitória do seu irmão George Bush sobre o candidato democrata Al Gore.

O Esquerda publica um dossier sobre as eleições nos EUA. Realço, entre vários artigos, um do historiador Howard Zinn sobre as diferenças entre os dois principais candidatos e um da activista Amy Goodman falando de potenciais trapaças eleitorais. Fiquem com este último para meditar.

O dia das eleições aproxima-se, e com ele um teste à integridade do sistema eleitoral dos Estados Unidos. Quem será autorizado a votar? Quem será impedido de o fazer? Quem inscreverá o voto num boletim de papel? Quem usará máquinas de voto electrónicas? Estarão as assembleias de voto abertas o tempo necessário para dar resposta a uma afluência que se prevê histórica?
Por Amy Goodman

O activista veterano Harvey Wasserman é co-autor de quatro livros sobre eleições e direitos dos eleitores. Diz que em 2004 ganhou John Kerry. Por que olhar para trás? Wasserman está preocupado com a tentativa de o Partido Republicano do Ohio, com a ajuda da Casa Branca de Bush, questionar o recenseamento de novos eleitores no Ohio:

“O GOP[1] está a tentar privar de direitos estas 200 mil pessoas, ao questionar o seu direito de voto, pedindo à secretária de estado Jennifer Bruner que permita que as comarcas investiguem e retirem dos cadernos eleitorais, se assim lhes aprouver, as pessoas que apresentarem pequenas discrepâncias nos números da Segurança Social ou da carta de condução. E a secretária de estado demonstrou que muitos destas inconsistências se devem a erros tipográficos, verificados na altura em que os números são registados por ocasião do recenseamento.”

O Supremo Tribunal Federal deliberou que só o Departamento de Justiça norte-americano pode retirar estes novos eleitores dos cadernos eleitorais. John Boehner, líder minoritário republicano, no Ohio, e o Presidente Bush pressionaram o Procurador-Geral Michael Mukasey a tomar medidas, removendo potencialmente estas 200 mil pessoas. Os advogados temeram que os sem-abrigo do Ohio fossem removidos dos cadernos por não terem morada fixa ou registo de identidade tradicional (Wassserman chama atenção para o facto de muitos deles poderem ser veteranos de guerra). O juiz federal Edmund Sargus decidiu que as comarcas do Ohio devem aceitar todos eleitores que registem bancos de jardim e outros locais menos ortodoxos como morada.

As duas maiores preocupações de Wasserman relativamente à integridade das eleições prendem-se com a privação maciça do direito de voto através da exclusão electrónica e de falhas das máquinas de voto electrónicas que podem distorcer as contagens e causar filas intermináveis nas assembleias de voto (assim como a distribuição dessas máquinas em número reduzido, quer funcionem quer não). Ambas as questões estão a tomar proporções desagradáveis no Colorado, onde o secretário de estado Mike Coffman, um republicano que também se está a candidatar ao congresso, foi processado pela Common Cause, pela Mi Família Vota e pela União Internacional dos Trabalhadores de Serviços[2] por ter excluído 30 mil eleitores num período de noventa dias antes de uma eleição. Seis mil e 700 novos recenseados foram excluídos por não terem posto a cruzinha num quadradinho do boletim de recenseamento eleitoral. O Colorado assistiu a uma participação muito entusiástica de votos prematuros[3] (segundo algumas estimativas, o número de votos prematuros terá atingido a soma espantosa de 10 milhões, a dias do final), e também viu muitos eleitores optarem por votar por correspondência. No entanto, mais de 11 mil eleitores de Denver não receberam os seus boletins de voto por correspondência devido a um erro feito pelo Sequoia Voting Systrem, a companhia que deveria ter entregue 21 mil boletins a um serviço de distribuição postal de Denver. Os funcionários dos círculos eleitorais prometem que os boletins serão entregues.

Brad Friedman, do BradBlog.com disse-me: “A Sequoia é uma das quatro grandes empresas de voto electrónico. Claro, têm falhado nuns estados a seguir aos outros.” Friedman também se refere a “votos trocados”, um problema que ocorre com a máquinas de voto de ecrã táctil. “Acontece em West Virginia, no Tennessee, no Texas, Missouri, Nevada… as pessoas chegam, votam em bloco nos candidatos de um partido[4] ou em Barack Obama, e o voto vai para um republicano ou outro candidato qualquer.” As empresas dizem que as máquinas podem ser calibradas para funcionar como deve ser. Friedman discorda: “Estas máquinas têm de ser retiradas, porque mesmo quando funcionam, o problema é que não há maneira de verificar se um voto depositado numa máquina de ecrã táctil foi registado no candidato escolhido pelo eleitor.”

Em resposta ao vídeo que mostrava os eleitores prematuros da Georgia em filas de oito horas, Friedman escreveu no seu blogue: “Obrigado a todos os eleitores que se mantiveram ali de pedra e cal! Que vergonha para os responsáveis por este sistema que nem sequer são capazes de dar resposta ao número limitado de eleitores prematuros! Deus nos acompanhe a todos na próxima terça-feira. Força e coragem, pessoal!”

A Associação Nacional para a Promoção das Pessoas de Cor processou o governador da Virginia, Tim Kaine, do Partido Democrático, com o argumento de que ele não está preparado para lidar com a comparência maciça de eleitores no dia 4 de Novembro. Viriginia não pertence aos 31 estados que permitem a votação prematura.

Milhares de advogados e activistas irão monitorizar as assembleias de votos no dia das eleições. As pessoas estão a publicar vídeos dos problemas eleitorais em videotape.org. Quando for votar, leve um amigo ou um vizinho, leve a sua identificação e leve também uma máquina fotográfica. A protecção das eleições é responsabilidade de todos nós.

Denis Moynihan contribuiu com pesquisa para este artigo.

Amy Goodman foi agraciada com o prémio 2008 Right Livelihood Award, considerado o “Nobel Alternativo”, que irá receber no Parliamento Sueco em Dezembro.

Traduzido por Maria José Simas

[1] Sigla de Grand Old Party, nome dado ao Partido Republicano. (N. da T.)

[2] Sindicato que representa mais de dois milhões de trabalhadores em mais de cem profissões, entre serviços de saúde em hospitais e lares de terceira idade, funcionários governamentais, empregados de limpeza e outros. (N. da T.)

[3] 31 dos estados permitem que os eleitores depositem o voto nas urnas antes do dia da eleição. (N. da T.)

[4] Possibilidade de votar em bloco em todos os candidatos de um partido. (N. da T.)

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a EUA, a sombra das fraudes eleitorais

  1. João Luiz Figueira diz:

    Os sistemas de voto electrónico (o futuro) devem ter auditorias permanentes (não pelas big five).

  2. A.Silva diz:

    Já vem de longe estas manobras nas eleições dos EUA,contudo causa-me alguma confusão que as comissões das candidaturas não fiscalizem e exigam a reposição da normalidade até ao dia das eleições

  3. pisca diz:

    E não é possível meter o povo todo em fila, vota, mete o dedo no frasco da tinta e está a andar ?

    Ou será que o Burkina Fasso tem que mandar observadores, para não falar noutros sitios ?

    E depois andam aí uns “especialistas” a cantar hossanas à mais “perfeita democracia”, com muitas citações em inglês e nomes que ninguém conhece para darem um ar de muito cultos.

    Ou será que sou eu que tenho dificuldade em entender ?

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