Um bom princípio

Na vida, o essencial é emitirem-se opiniões a priori a propósito de tudo. Efectivamente, bem se vê que as massas erram e os indivíduos têm sempre razão. É forçoso que a tal respeito nos abstenhamos de deduzir regras de conduta: para serem seguidas, estas não devem ter necessidade de ser formuladas. Existem apenas duas coisas: o amor, de todas as maneiras, com raparigas belas, e a música de Nova Orleães ou Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, porque o resto é feio, e as poucas páginas de demonstração que se seguem vão buscar toda a força ao facto de a história ser inteiramente verdadeira, já que a imaginei de uma ponta à outra. A sua realização material, propriamente dita, consiste de uma forma essencial na projecção da realidade, em atmosfera rebatida e aquecida, sobre um plano de referência irregularmente ondulado e apresentando distorção. Como se vê, um processo confessável, a havê-los.

Nova Orleães, 10 de Março de 1946

Boris Vian, prólogo de A Espuma dos Dias

Neste caso, actualizamos a sã doutrina com Miles Davis e John Coltrane.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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6 respostas a Um bom princípio

  1. Nik diz:

    Li L’écume des jours com 18 anos. Não me lembro de nenhum prólogo. Mas ainda me lembro daquela mulher que ia ficando cada vez mais pequena. A música é boa. Faz bem.

  2. ana diz:

    E a mim esta-me a crescer um ciclame…

  3. xatoo diz:

    tá bem Nuno
    posso assumir o papel de Papa, talvez o João XXIII que é o da tumba que tem mais freguesia.
    e, como vcs andam muito pró-musicais, em vez do napalm aqui vai outra amostra de humor negro (na verdade, white): o rapper Colin Powell e os Africom`s

  4. mesquita diz:

    Pois eu sou mais da opinião do Tony Wilson: o jazz é o refúgio dos que não têm talento. :p

  5. Nick,
    É mais uma citação de abertura. Mas está lá.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    mesquita, a sua declaração leva-me rapidamente à violência e ao assassinato. O Jazz é talento.

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