A voz do dono

O que podem ver na peça jornalística acima é quase inacreditável. Mas aconteceu. Há pouco mais de quatro anos, a gerente de um McDonald’s algures no Kentucky recebeu um telefonema de alguém que se anunciou como agente da polícia. Este convenceu a gerente de que uma sua funcionária era suspeita de furtos a clientes. Louise Ogborn, de 18 anos, viu-se assim atirada para um pesadelo que iria durar três horas: as instruções do “polícia” levaram a que ela fosse despida, agredida, humilhada e por fim forçada a um acto sexual com o namorado da gerente. Tudo porque uma voz sem corpo, mas investida do poder da autoridade, deu ordens nesse sentido.
Soube-se depois que este fora apenas o culminar de uma série de dezenas de casos similares, ocorridos ao longo de uma década e tendo sempre como alvo funcionários de cadeias de fast food. Porquê esta preferência? Simplesmente porque tais restaurantes são comandados por hierarquias rígidas e por manuais de conduta inflexíveis e omniscientes: as batatas são fritas x minutos, as mãos lavadas y vezes por hora. Qualquer fuga à rotina prevista deixa os dependentes do manual sem referências, ansiosos por ordens superiores que façam regressar a normalidade o mais depressa possível. Ademais, a conhecida experiência de Milgram já demonstrara que são poucos os que recusam cumprir ordens que fazem sofrer terceiros; a voz do dono fala mais alto do que a da consciência.

Um suspeito de ser o autor desta “partida” foi detido e levado a julgamento, sendo absolvido. A vítima acabou por receber cerca de seis milhões de dólares da McDonald’s.

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