Já que o Disco sound provoca mais discussão que o vendedor de magalhães


Nos tempos em que os adolescentes borbulhentos usavam calças azuis de formato duvidoso e camisolas em V, havia uma procura crescente de músicas para dançar agarrado – os malfadados slows. A escolha era limitada: com um pouco de sorte o lado B do Dark Side of the Moon, por regra os Eagles, mas no pior dos casos, vinham os telúricos Santa Esmeralda. Citando o Luís Rainha, “o que fazia um porco para comer a bolota! “.
Pior, só mesmo os Yes e o Rick Wakeman. Há quem diga que o napalm foi inventado para evitar este tipo de música. É uma pena que seja tão pouco utilizado.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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6 respostas a Já que o Disco sound provoca mais discussão que o vendedor de magalhães

  1. xatoo diz:

    o napalm está demasiado presente nos danos que causou para servir de termo de comparação ligeira com merdices corriqueiras

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ok, xatoo, folgo em ver-te no lugar do Papa. Vais assinar xatoo de primeira? Qual é a próxima enciclica sobre a excomunhão do humor negro?

  3. Saloio diz:

    O ” disco sound”ia provocando a morte do “rock” e do “pop”.

    No início dos anos 70, apareceu este tipo de música mais virado para a dança, numa altura em que as boites começaram a ter grandes dimensões (a maior, em Portugal, foi a “2000”, no autódromo do Estoril, inaugurada em 1972). Era música sincopada e cadenciada, com canções muito compridas, com vozes estridentes mas sempre melódicas, próprias para a malta dançar sózinhos abanando a cabeça pela noite dentro.

    O primeiro album a sério do “disco”, foram os Bee Gees, com “Saturday Night Fever” , muito ajudado nas vendas pelo filme com a estupenda Olivia Newton John e o ainda jovem e futuro canastrão, Jonh Travolta. Também o filme “Grease” ajudou. O disco ficou identificado com os afro-americanos e com os gays, que nesta altura começaram a mostrar-se mais desinibidamente no campo artístico.

    A raínha do “disco” foi Donna Summer, uma Senhora em qualquer lado do mundo e uma voz de acordar mortos. Tiro-lhe o meu chapéu com vénia.

    Com o “disco” veio a roupa garrida, de cores berrantes, os óculos marados e os sapatos de salto alto nos rapazes. As miúdas andavam de chinelas também muito altas, e de óculos escuros na testa, mesmo depois da meia-noite.

    Nós, a malta do pop-rock, órfãos das grandes bandas desfeitas na passagem da década (Beatles, Credence, Blood Swet & Tears, Jafferson Airplane), com o passar dos anos 70 íamos vendo outras bandas a mudarem de vida (Genesis originais, sem o chofér de praça ao microfone, Moody Blues, Gentle Giant, etc.) – e olhávamos atónitos para a malta com fatinhos brancos e camisa azul eléctrico aberta pelo peito abaixo até ao cinto, sobre umas sapatorras com solas de meio palmo, amarelas. E não fumavam (começou-se a dizer que fazia mal…), só bebiam.

    Mas o que era aquilo?????

    Com os ingleses e os americanos a coçarem os poucos cabelos na ponta do totiço e atónitos no meio das luzinhas circulatórias, a malta dos centros comerciais abanavam-se pelas noites dentro das sextas-feiras e dos sábados.

    Os únicos que ainda deram luta ao disco foram os alemães: leram bem – os alemães. Ele era Krafwerk, ele era Van Der Graft e, sobretudo, os Camel. Todos eles tinham por modelo os Led Zepplin (que, na verdade, tinham culposamente ajudado o disco). Mas a grande referência mantinha-se: Led Zepplin II.

    A ajudar os alemães haviam alguns resistentes, como os Fleetwood Mac e os Pink Floyd, e uma rapaziada mais nova: Queen (que apresentavam o visual disco, mas eram rock) e Supertramp – uma evolução do disco pró pop. A malta das bandas desfeitas, começaram a enfrentar a coisa isolados e sem medo: sobressai o Bruce “boss” Springsteen.

    Foi preciso vir 1980 para a coisa voltar a mudar.

    Um puto de 21 anos, de Filadelfia, carinha sem barba e com ar de se ter desenfiado das aulas, aparece num concerto no estádio local de baseball e a malta do carro de som, que foi lá gravar uma ou duas canções, fez um duplo album ao vivo que vendeu como o caneco – era Peter Frampton. A sua viola solo chorava e falava como a do seu compatriota Jimmy Hendrix 10 anos antes: “Lines On My Face” e “Do You Feel Like I Do” ainda hoje são antológicas.

    Depois vieram outra vez os ingleses, na chamada segunda invasão (da América, claro – a primeira tinha sido em 1964 com os Beatles no Danny Sullivan Show, e onde as miúdas esperneavam frenéticas), e o disco foi para o caraças de vez (Spandau Ballet, Stanglers, Eurorithmics, Everithing But The Girl, Orchestral Manouvers In The dark, …e os grandes Tears For Fears, Simple Minds, Pet Shop Boys, Blondie,…eu sei lá.

    Felizmente…

    Digo eu…

  4. Saloio diz:

    Desculpem-me lá, que a Teresa nunca mais trás o jantar – só mais uma achega: em Portugal, a malta andava entretida com o 25 de Abril, com o Soares, o Cunhal, o Xico Sá Carneiro e aquele rapaz (tinha 39 anos) que agora é do PS…o Freitas do Amaral.

    Se a estes acrescentámos o Otelo, o Copcon, o MFA, o Conselho da Revolução, o Vasco Gonçalves o Spínula e mais uma malta aguerrida e sem papas na língua que se degladiavam continuamente, compreende-se também porque é que olhámos de soslaio para o “disco sound” – além de mau, era desinteressante. Havia outras coisas…

    Lá em casa reinavam, por exemplo, dois especiais: o Leo Sayer e os Bonney M.

    Fora eles, e quando o meu pai não estava, repetia-se o Zé Mario Branco (“Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” e “Margem de Certa Maneira”). Para variações, havia o Sérgio e o Adriano.

    Outro dia toquei no velho Garrard os Bonney M, e o meu filho perguntou-me o que era “aquilo”.

    Digo eu…

  5. ana diz:

    Pois, oh saloio, eu devia ser mais nova e havia o punk, a blondie, e uma serie de gente. Nao te lembras dos tubes no Dramático de Cascais? Enfim…e a boa música portuguesa, que nunca foi tao boa como naquela altura…

  6. Saloio diz:

    Estimada Ana: não me lembro dos “Tubes” (devia andar a subir a Av. da Liberdade atrás do sindicato dos metalúrgicos a cantar”Tarbalhai meus irmãos que o trabalho, é riqueza, é amor…”).

    No Dramático de Cascais, aí para 76 ou 77, assisti a um concerto histórico dos Génesis (ainda com o Peter Gabriel aos comandos, com uma carcaça de lobo por cima do dorso, e com o choufer de praça lá atrás, no seu lugar na bateria).

    Foi histórico por duas coisas: a primeira, porque pela primeira vez juntou na assistência malta de todas as cores políticas – pela única vez em Portugal, as jotas todas com cêdêésses, udêpês, laranjinhas e comunas, sentaram-se abraçados lado-a-lado a ouvir os tipos, que tocaram, sobretudo, canções do “The Lamb Lies Down On Broodway”.

    Houve outro “encontro” comum, mas de muito fraca monta e memória, quando a Festa do Avante trouxe, para aí em 82 ou 83, os americanos “Fairport Convention” a Loures. A maior parte da malta, não quiz acreditar. Deve ter sido uma tropelia do Ruban para agradar a uma camarada mais aburguesada, tolerada pela nomenklatura distraída com a doença do Brejnev. Perguntem aos vossos pais.

    A segunda razão que tornou a coisa única, foi que, pela primeira vez, no palco se emitiram fumos palidamente coloridos. Nunca tal se tinha visto cá no rectângulo. Os Zés estavam banzados…com a ajudade outros fuminhos…

    A malta das primeiras filas, pensando tratar-se de o início de um incêndio, começaram a levantar-se para zarparem…

    Ainda no Dramático, aí para 93, vi os Kinks…os velhotes do “Lola”…mas isso é outra história.

    Digo eu…

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