Folhetim de fim-de-semana (segundo episódio)

[primeiro episódio] Em 23 de Maio de 2004, ocorreu um acidente grave no aeroporto parisiense de Roissy-Charles-de-Gaulle. Segundo as conclusões de um inquérito tornado público alguns meses depois, na construção de um dos terminais do aeroporto, não foi devidamente levado em conta o efeito que a diferença de temperaturas entre o exterior e o interior da aerogare exerce sobre os materiais. Foi esse efeito térmico que, ao provocar uma retracção da estrutura metálica, deixou o cimento desarmado e originou a queda de uma secção da cobertura daquela área de circulação de passageiros. Por ter ocorrido num domingo de manhã, a uma hora de pouco movimento, o acidente não teve consequências mais devastadoras; nas primeiras horas, temeu-se que tivesse causado seis vítimas mortais, mas finalmente apurou-se terem sido apenas quatro os mortos provocados pelo acidente. Três dessas vítimas foram imediatamente identificadas; a quarta estava irreconhecível, sabendo-se apenas que se tratava de uma mulher, que viajava sozinha, num voo em proveniência da Ucrânia e com um passaporte da República Checa, que tinha um visto de longa duração para os E.U.A.. As autoridades checas informaram, no entanto, que o passaporte em questão tinha sido roubado alguns meses antes e que a sua titular estava viva e de boa saúde em Praga e a polícia francesa também já anunciou ter abandonado quaisquer investigações destinadas a descobrir a identidade da quarta vítima do acidente. Felix qui potuit rerum cognoscere causas.

Chefe de Estado há mais de três décadas de um das mais pobres nações africanas, J.-B.O. desde há muito que domina sem contestação a vida política do seu país. Com efeito, e fora alguns exilados em Paris, a oposição organizada praticamente desapareceu no final dos anos oitenta, quando sob a pressão dos seus principais aliados – os E.U.A. e a França – o regime ensaiou um tímido processo de liberalização, que resultou numas eleições consideradas fraudulentas pela maior parte dos observadores internacionais e a que seguiu uma impiedosa vaga de repressão que conduziu à tortura e à morte os principais adversários de J.-B.O..

Não obstante o estilo paternalista que cultiva, e que passou recentemente por uma muito publicitada conversão pública a uma igreja evangélica norte-americana, J.-B. O. é também conhecido pela excentricidade dos seus gostos, nomeadamente sexuais, que com a passagem dos anos se tornaram cada vez mais sofisticados e em que se diz que delapida uma boa parte dos escassos recursos do seu país. Apesar (ou talvez por causa) do seu metro e quarenta e oito de altura, J.-B.O. já não se satisfaz mais com as jovens da sua região natal, quase todas com a sua compleição física. Por isso, começou primeiro por procurar jovens da tribo W., que habitavam nas florestas da região leste do seu país, junto ao rio Z. e perto da fronteira com a República do H.K..; mas quando as razias das suas forças de segurança nas zonas fronteiriças começaram a causar problemas sérios com as autoridades do país vizinho, J.-B.O., depois de ter ordenado a destituição do chefe da gendarmerie daquela região (que viria a desaparecer sem explicações poucos meses mais tarde), passou a contar antes com os serviços da sua embaixada em Paris (chefiada por um seu meio-irmão) para satisfazer os seus insaciáveis apetites carnais.

O esquema montado pela embaixada era simples: J.-B.O. encomendava junto de uma conhecida casa de alta-costura parisiense um traje novo por semana, que os seus fornecedores supostamente faziam entregar por um dos seus modelos femininos, que era na realidade uma escort de luxo sempre diferente, das muitas que operam na capital francesa. As aparências pareciam assim salvas: os pagamentos da embaixada faziam-se à casa de alta-costura, que cobrava evidentemente uma generosa percentagem sobre o pagamento efectuado à escort, e para esta – sempre uma caucasiana, de preferência loura, e com pelo menos um metro e oitenta e cinco – bastava reservar uma passagem aérea de ida e volta, prevendo uma estadia em solo africano de apenas vinte e quatro horas, e para a qual existia, de resto, um pretexto conhecido.

Este esquema funcionou sem problemas entre 1998 e 2001 e calcula-se que tenha levado durante esse período até ao palácio e ao leito de J.-B.O. mais de uma centena de jovens ocidentais; em 2001, porém, uma das escorts – infectada pelo vírus H.I.V., de que J.-B.O. seria portador desde há mais de uma década mas cuja transmissão não procurava de modo nenhum prevenir – sentiu-se miseravelmente utilizada e decidiu vingar-se, denunciando o caso publicamente. Na capital francesa, uma ONG anti-prostituição usou então essa denúncia para levar a tribunal e fazer condenar por proxenetismo, em Novembro de 2003 e após um longo processo que chegou à primeira página dos jornais, a conhecida casa de alta-costura que fornecia os modelos a J.-B.O.; quanto à embaixada, protegeu-se atrás da imunidade de que gozava e acusou a justiça e a imprensa francesas de fazerem o jogo da oposição do seu país, considerando todo o caso como uma fabricação politicamente motivada e uma intolerável ofensa à reputação do seu Presidente.

Em qualquer caso, o filão francês estava evidentemente esgotado e J.-B.O., depois de um prudente intervalo sugerido pelos seus conselheiros franceses, durante o qual multiplicou os actos públicos de devoção religiosa e dedicação familiar, decidiu poucos meses depois que já era tempo de procurar noutras paragens as jovens caucasianas de que tanta falta sentia. Os seus embaixadores nas diferentes capitais europeias entraram então em competição entre si para lhe conseguirem as mais belas e mais altas jovens e dessa disputa saiu vencedor o embaixador em Moscovo, também acreditado em Kiev, e lhe que garantiu dispor de contactos infalíveis com uma rede internacional de prostituição de alto nível, composta essencialmente de ex-operacionais soviéticas habituadas a servir altas personalidades e a actuar nos cinco continentes.

A primeira dessas jovens partiu de Kiev na noite de 22 de Maio de 2004 com destino a Paris, onde, segundo o estabelecido, deveria apanhar na manhã seguinte, no aeroporto de Roissy-Charles-de-Gaulle, uma ligação para a capital africana onde J.-B.O. a esperava com impaciência, provavelmente no quarto espelhado do último andar do seu palácio presidencial que com tanta minúcia a imprensa francesa tinha descrito meses antes, e usando talvez o mesmo talismã dourado ao pescoço e o mesmo roupão curto de seda roxa, junto da grande cama redonda e enquanto a garrafa de Krug gelava no balde, como os jornais, impiedosos, tinham referido. Mas a rapariga – uma loura espectacular, cujo nome de guerra era Marina e que já tinha recebido metade dos dez mil dólares que constituíam o seu pagamento – nunca apareceu, e nunca se soube porquê.

J.-B.O. esperou em vão e, como seria de prever, não gostou de esperar. Tomou então duas decisões: aceitar as jovens que o seu embaixador em Londres lhe oferecia, a quinze mil dólares cada, e convocar o seu embaixador em Moscovo para consultas na capital. Menos de uma semana depois do desaparecimento de Martina, a escort recrutada em Londres e o embaixador em Moscovo viajaram ambos na primeira classe do voo em proveniência da capital inglesa, ela sem imaginar quem ele fosse, ele temendo que ela fosse quem ele suspeitava. A escort regressou a Londres menos de vinte e quatro horas depois; quanto ao embaixador, nunca mais foi visto com vida. Pode ser considerado a quinta vítima do acidente de Roissy.

(Continua na próxima semana)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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7 respostas a Folhetim de fim-de-semana (segundo episódio)

  1. Ricardo Santos Pinto diz:

    Este folhetim não era para ter sido publicado no último fim-de-semana?

  2. António Figueira diz:

    E foi – o primeiro episódio; este é o segundo.

  3. Ricardo Santos Pinto diz:

    Pois foi. Peço desculpa.

  4. Isto ficava excelente com uma lincagem para os episódios anteriores. É que a minha memória é tão curta quanto a vossa homepage.

  5. António Figueira diz:

    Linkagem feita, obrigado pela sugestão.

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