Nome de Guerra II

Eu gostava do José Cardoso Pires quando ele ainda era o José Cardoso Pires. O Delfim é um belo romance, embora para mim um bocadinho mal resolvido, a Cartilha do Marialva é um livro notável, a que se liga pouco agora, mas que há-de passar a prova do tempo, e quase tudo o resto que ele escreveu se lê com gozo. Isto, claro, até ele ter deixado de ser o José Cardoso Pires e ter passado a chamar-se o Zé Cardoso Pires. Na fase que atravessamos, confesso que perdi a pachorra para o tema. Eu não duvido que haja quem tenha sido suficientemente próximo do Zé para tratá-lo assim em público, mas certamente que a legião de comemoradores do décimo aniversário da sua morte não andou toda nos copos com ele – senão a reputação do Zé ainda era manchada com uma acusação póstuma de pedofilia. O José Cardoso Pires sofre um pouco da síndrome de José Afonso – ou melhor, o Zé Cardoso Pires e o Zeca Afonso padecem do mesmo mal: assim que morreram, metade da humanidade revelou logo que os tratava por tu, e tenta convencer a outra metade de que era íntima dos grandes homens. Eu modestamente confesso que só os conheço, um de o ler, e o outro de o ouvir.

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Nome de Guerra II

  1. LR diz:

    «Os bares do José Cardoso Pires, o British e o Americano, onde nos encontrávamos às vezes para pôr a conversa em dia e ele me passar a memória daquela Lisboa de luz e de tempo, com anedotas pícaras e restos de fado. O Zé amava Lisboa, não apenas aquela, toda ela, da Graça à Mouraria, dos Olivais a Benfica, do Areeiro ao Terreiro do Paço.»
    🙂

  2. Ricardo Santos Pinto diz:

    O José Cardoso Pires batia na mulher. Grande homem!

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