Tango para um

O João Miranda esconde-se da crise e dá a volta ao mundo para encontrar mais malfeitorias do papão-Estado. Aterrando na Argentina, comenta a forma como a presidente Kirchner abichou os fundos privados de pensões, colocando-os sob controlo estatal. E descreve assim o ocorrido: «Na Argentina, o sistema privado de pensões era um sistema de capitalização. Os descontos eram investidos no mercado de capitais e os trabalhadores eram proprietários das suas contas poupança-reforma. A capitalização garantia que, a longo prazo, o valor descontado aumentaria progressivamente. Pelo contrário, o sistema público de pensões é um sistema de transferência entre trabalhadores e pensionistas. Não há qualquer acumulação de capital. As pensões dos actuais trabalhadores dependem dos descontos dos futuros trabalhadores.»

Estranho. Pelo que li, fiquei com a ideia de que há mais de um ano que o Fondo de Garantía de Sustentabilidad del Régimen Público de Reparto já funcionava da mesma forma que os fundos privados. Até estava capaz de apostar que li coisas como «Ese Fondo de Garantía de Sustentabilidad (FGS) se maneja con un criterio parecido al de las AFJP, con un menú que incluye títulos públicos, fideicomisos, plazos fijos, acciones de sociedades anónimas nacionales, mixtas o privadas, letras del Banco Central y hasta títulos de Estados Extranjeros u organismos internacionales.» E imagine-se, até parecia dotada de alguma liquidez, contrariamente à visão catastrofista do nosso blasfemo preferido: «Es una cuenta especial creada el año pasado para acumular los excedentes presupuestarios de la seguridad social, dado que en los últimos años la recaudación viene superando lo que se paga de jubilaciones. Ese fondo ya cuenta con unos 20.000 millones de pesos.» Mas pode ser que esteja enganado. As minhas certezas nunca foram tão firmes quanto as do João Miranda.

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14 respostas a Tango para um

  1. Model500 diz:

    È verdade que o fundo publico se gere de forma muito semelhante a um fundo privado. Os públicos arriscam menos. É só essa a diferença. Mas o ponto não é esse. O ponto é que no caso do privado todo o dinheiro que se desconta é aplicado, enquanto que no público só uma pequena parte vai parar ao fundo. A grande fatia utiliza-se logo para fazer face a despesas.

  2. Luis Moreira diz:

    Sim, pode é acontecer, que o privado seja varrido pela ganância, e lá vai o fundo público ter que pagar as pensões.Pelo menos, garantias, por estes tempos é um ver se te avias! O que JM não quer ver é que com os fundos privados vai gente para debaixo da ponte.

  3. Luis Rainha diz:

    Tendo o fundo surge dos excedentes do sistema de pensões estatal. Logo, é falsa a afirmação «Não há qualquer acumulação de capital.» Essa é que é essa.

  4. Luis Moreira diz:

    Já agora, vou amanhã para a Argentina.Se for preciso levar algum recado para a Kirschner é só dizer .

  5. Model500 diz:

    “Logo, é falsa a afirmação «Não há qualquer acumulação de capital.»”

    Se quisermos ser totalmente rigorosos, sim, a afirmação é falsa. De facto, o JMiranda, de quando em vez, para defender a sua ideologia manda o rigor às malvas . É uma tendência muito comum. Eu também faço assim.

  6. JoaoMiranda diz:

    Vejo que o Luis Rainha não percebe a diferença entre um fundo de capitalização e um fundo de estabilização.

  7. Luis Rainha diz:

    «o sistema público de pensões é um sistema de transferência entre trabalhadores e pensionistas. Não há qualquer acumulação de capital. As pensões dos actuais trabalhadores dependem dos descontos dos futuros trabalhadores.»
    Errado.

  8. JoaoMiranda diz:

    Caro Luís Rainha,

    Um fundo de estabilização não é um fundo capitalização. Um fundo de estabilização pode ser gasto sempre que a segurança social entra em défice, o que pode acontecer a qualquer momento, quer porque um governo populista decide aumentar as pensões quer porque as contribuições sofrem uma queda por causa de uma crise. Isto implica, claro, que a acumulação de capital nestes fundos em determinados períodos é sempre anulada pelo consumo de capital noutros. Para alem disso, ao contrário do que acontece com os fundos de capitalização, os fundos estabilização representam uma fracção muito pequena das obrigações do Estado.

  9. Luis Rainha diz:

    «não há qualquer acumulação de capital», escreveu. Você não escreveu «não há qualquer acumulação de capital, excepto o fundo de sustentabilidade, que capta os excedentes do sistema e os investe de forma muito similar à dos fundos privados.» Deu a entender precisamente o oposto. Por deficiente informação, palpita-me.
    Como vê, existe mesmo na Argentina um fundo que alberga os excedentes do sistema estatal de segurança social. Custará assim tanto admitir que estava a leste?
    4.826.000.000€. Eis a pequena fracção em questão, e a razão porque a frase «As pensões dos actuais trabalhadores dependem dos descontos dos futuros trabalhadores» tampouco é correcta.

  10. JoaoMiranda diz:

    Luis Rainha,

    Explique-me duas coisas:

    – como é que um fundo de estabilização que capitaliza nos tempos bons e descapitaliza nos tempos maus permite acumulação de capital?

    – Partindo do princípio que as pensões futuras não dependem das contribuições futuras, consegue explicar como é que os argentinos conseguem o milagre pagar as pensões da actual geração de pensionistas e da futura geração de pensionistas com as contribuições de uma única geração de trabalhadores?

    Sabia que Portugal também tem um fundo de estabilização? Sabia que esse fundo não dá para pagar um ano de pensões? Sabia que é suposto os fundos de capitalização pagarem pensões vitalícias a partir dos 65 anos? Como é que um fundo de estabilização o consegue fazer? Os 4.826.000.000€ de que fala não devem cobrir nem 10% das obrigações de longo prazo do Estado Argentino.

  11. Luis Rainha diz:

    João,
    1- Basta olhar para a presente situação do tal Fondo de Garantía. E diga-me, já agora, qual é o fundo exposto à Bolsa que não está nestes dias a descapitalizar, seja qual for o nome que tenha? Aliás foi precisamente este o argumento invocado pelo governo argentino para agora intervir.

    2- Nunca escrevi que «as pensões futuras não dependem das contribuições futuras». Escrevi sim que «Não há qualquer acumulação de capital. As pensões dos actuais trabalhadores dependem dos descontos dos futuros trabalhadores» é uma gorda imprecisão. E estou certo.

    3- Sabia disso, embora não esteja a ver a relação com o seu erro. E quanto à minudência da verba que nem 10% cobre (que será isso do longo prazo, para si?), olhe que os fundos das AFJP agora em discussão também só constituem 5 vezes esse número. Nada de mais, portanto.

  12. Model 500 diz:

    Ó Luís Rainha, não bata mais no João Miranda. Não se esqueça que o JM é agora um órfão – sim, o pai do Neo-liberalismo, Greenspan, já admitiu publicamente que estava completamente errado. O Luís Rainha devia saber que é muito feio cascar em vencidos.

  13. JoaoMiranda diz:

    Vejo que o Luís Rainha ainda não percebeu que a capitalização dos fundos de estabilização é um efeito estocástico e que no longo prazo não é suposto capitalizarem.

    Também parece não ter percebido que as obrigações de um fundo privado estão compartimentadas ao próprio valor que o fundo tem. Quando um fundo privado desvaloriza, as obrigações do fundo diminuem. O mesmo não se passa com o fundo de estabilização. Isto implica que as variações dos fundos de estabilização são fenómenos estocásticos (as descapitalizações em bolsa não são compensadas pela redução de pagamentos e por isso fazem aumentar a diferença entre as obrigações e o valor em depósito) cujo resultado final tende a ser um crescimento zero no longo prazo.

  14. Luis Rainha diz:

    O que percebi bem é que está aí a rabiar há horas para não admitir que se precipitou. Há, efectivamente, «acumulação de capital» no sistema de pensões argentino. O resto é tango.
    Mas quer mesmo convencer-se de que um fundo, aplicado com portfolios apenas um pouco mais prudentes que os homólogos privados (como é o caso), tenderá para um crescimento zero? Nem lhe pergunto porquê, senão nunca mais daqui saímos e eu quero almoçar. E estou como o Model; já chega.

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