Folhetim de fim-de-semana (primeiro episódio)

Em 23 de Maio de 2004, ocorreu um acidente grave no aeroporto parisiense de Roissy-Charles-de-Gaulle. Segundo as conclusões de um inquérito tornado público alguns meses depois, na construção de um dos terminais do aeroporto, não foi devidamente levado em conta o efeito que a diferença de temperaturas entre o exterior e o interior da aerogare exerce sobre os materiais. Foi esse efeito térmico que, ao provocar uma retracção da estrutura metálica, deixou o cimento desarmado e originou a queda de uma secção da cobertura daquela área de circulação de passageiros. Por ter ocorrido num domingo de manhã, a uma hora de pouco movimento, o acidente não teve consequências mais devastadoras; nas primeiras horas, temeu-se que tivesse causado seis vítimas mortais, mas finalmente apurou-se terem sido apenas quatro os mortos provocados pelo acidente. Três dessas vítimas foram imediatamente identificadas; a quarta estava irreconhecível, sabendo-se apenas que se tratava de uma mulher, que viajava sozinha, num voo em proveniência da Ucrânia e com um passaporte da República Checa, que tinha um visto de longa duração para os E.U.A.. As autoridades checas informaram, no entanto, que o passaporte em questão tinha sido roubado alguns meses antes e que a sua titular estava viva e de boa saúde em Praga e a polícia francesa também já anunciou ter abandonado quaisquer investigações destinadas a descobrir a identidade da quarta vítima do acidente. Felix qui potuit rerum cognoscere causas.

Os “anos de chumbo” do terrorismo político na Europa Ocidental terminaram no final dos anos 80 pelo efeito conjugado da repressão policial e do enfraquecimento dos próprios grupos armados, resultante da sua ausência quase total de perspectivas de transformação política e social. Os seus principais activistas e dirigentes que não morreram em acção estavam agora presos ou em fuga e todo o episódio parecia condenado a transformar-se num capítulo menor da história da Guerra Fria, pouco glorioso do ponto de vista dos seus resultados políticos e de dúbia reputação moral, dado o mal esclarecido papel que agentes policiais e militares infiltrados desempenharam em várias destas organizações.

Não obstante, um pequeno sector dos antigos grupos dos anos 70 e 80 encontrou na nova situação política mundial argumentos acrescidos em favor de uma via armada para a destruição do Estado capitalista e para uma transformação revolucionária da sociedade. Inspirando-se paradoxalmente na estratégia dita da “tensão”, utilizada por provocadores neo-fascistas italianos, com a cumplicidade das forças de segurança ocidentais, durante os anos de ascenso da esquerda e quando parecia iminente a chegada por via eleitoral do PCI ao poder, estes sobreviventes dos “anos de chumbo” apostavam na subida da temperatura política como meio de conseguir uma radicalização propícia à criação de uma situação insurreccional.

Diversos assaltos de origem desconhecida mas pouco conformes com a actuação habitual de criminosos de delito comum alertaram primeiro as autoridades italianas e francesas para a possível reconstituição de grupos “brigadistas” naqueles dois países – suspeita que depois foi confirmada por informações recolhidas pelas respectivas polícias junto dos meios políticos radicais de cidades como Milão, Turim e Lyon. Terá sido nesta última que, já em 2002, se realizou a denominada “Assembleia Reconstitutiva do Comunismo Combatente”, onde durante quase uma semana militantes políticos vindos dos dois lados dos Alpes debateram a estratégia e a táctica a seguir pelos grupos que se assumiam como herdeiros das organizações clandestinas dos anos 70 e 80.

Os serviços de segurança franceses e italianos obtiveram conhecimento directo e imediato do conteúdo desses debates, em que se afrontaram duas linhas: a dos chamados “articuladores”, que defendiam a criação de uma vasta coligação de descontentes, de todas as origens mas desde que assumissem a dimensão violenta do seu protesto (dos defensores dos direitos dos animais aos “jihadistas” islâmicos) e a autodesignada “nova vanguarda”, que assumia o seu isolamento dos movimentos sociais e a sua filiação intelectual no populismo russo pré-marxista. As duas correntes separaram-se num clima de animosidade e pareceu improvável à polícia que viessem a juntar as suas forças num futuro próximo. Das duas, os serviços de segurança franceses e italianos (em colaboração já com os seus congéneres europeus e norte-americanos) elegeram como preocupação principal a “nova vanguarda” (cujos membros passaram a ser conhecidos nos meios clandestinos como os “neo-narodniks”), visto que esta se propunha abertamente usar métodos terroristas para, nas palavras dos seus próprios ideólogos, “decapitar o poder imperial e libertar a multidão”.

No Verão de 2003, a polícia alemã registou a existência de uma célula de neo-narodniks em Berlim, que segundo as informações disponíveis prepararia um golpe espectacular em território norte-americano, além de outros elementos ditos “adormecidos”, que se ocupariam da logística dos militantes operacionais. Em Novembro do mesmo ano, o cruzamento de informações dos serviços alemães e norte-americanos apontou pela primeira vez para a presença de “neo-narodniks” em algumas antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, onde teriam tido contactos não-confirmados com elementos ligados ao programa nuclear paquistanês já sob a vigilância dos serviços secretos ocidentais. As viagens de membros desta célula a países da ex-URSS passaram desde então a ser seguidas de muito perto pelos norte-americanos, que confirmaram de forma inequívoca a extrema perigosidade dos seus objectivos a partir de intercepções sistemáticas das suas comunicações via satélite.

Os contactos no Tadjiquistão com elementos renegados dos serviços secretos paquistaneses eram feitos por Roberto Colasanti, de 42 anos, um sobrevivente do “brigadismo” italiano, e Rachid Hitaisse, um francês de 28 de origem magrebina, que depois contactavam na capital ucraniana com outro membro da célula, uma italiana de 38 anos de nome Francesca Battistini, próxima do autodesignado “Partido Comunista Combatente” nos anos 90 e referenciada desde essa época pela polícia do seu país.

Os contactos de Roberto e Rachid com Francesca em Kiev rodeavam-se de grandes cuidados conspirativos: alojavam-se em hotéis diferentes e cruzavam-se uma única vez num local público (onde os dois homens forneciam o material obtido nas suas viagens) sem nunca aparentarem conhecer-se; para além disso, Francesca (que pintara o cabelo de louro e viajava com um passaporte checo, obtido recentemente em Praga pela rede de apoio do grupo), falava russo fluentemente e tinha uma aparência eslava que a distinguia dos seus dois camaradas de feições mais meridionais. O passaporte checo que Francesca utilizava tinha ainda uma vantagem adicional: um visto de entrada permanente nos E.U.A., onde os homens da C.I.A. sabiam que ela se iria deslocar e onde para contribuiria, de forma decisiva, para um atentado de grandes proporções, e onde por isso a esperavam na tarde de 23 de Maio de 2004, à chegada de um voo de Paris, de onde ela chegaria a partir de Kiev.

Quando Francesca, alias Martina Svoboda, não surgiu nessa tarde, como previsto, no aeroporto J.F.K., em Nova Iorque, a C.I.A. admitiu que ela tivesse conseguido iludir a vigilância que se exercia sobre ela e desaparecer; viveram-se por isso momentos de grande ansiedade, em que foram controladas todas as entradas em todos os aeroportos americanos nesse dia, até que finalmente a notícia inequívoca da morte da “neo-narodnik” num acidente ocorrido essa manhã num aeroporto da capital francesa anulou os alertas de segurança emitidos horas antes. Uma vez estabelecida a identidade de Francesca Battistini, a polícia francesa foi alertada, a fim de recuperar o material explosivo que ela carregava pessoalmente e de conter os seus possíveis efeitos radioactivos, o que foi conseguido.

Apesar da intervenção de vários serviços nacionais de polícia, foi também possível impedir que as notícias relativas à sua morte e à acção do grupo de “neo-narodiks” a que pertencia transpirassem para a opinião pública. Quanto aos seus camaradas Roberto e Rachid, embora tenham acabado por colocar a hipótese da sua morte acidental no acidente de 23.05.03 (conforme se pôde apurar a partir de diversas comunicações interceptadas), continuam ainda a suspeitar (assim como outros membros da organização) da sua defecção e, até, da sua possível traição. A coordenação dos diferentes serviços de segurança nacionais envolvidos no acompanhamento e controlo da “nova vanguarda” decidiu entretanto manter estes dois elementos em liberdade, por uma tal solução parecer mais conveniente aos objectivos de segurança prosseguidos.

(Continua no próximo fim-de-semana)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

8 respostas a Folhetim de fim-de-semana (primeiro episódio)

  1. Uma semana para ler mais???

  2. António Figueira diz:

    É, temo que sim. É o absoluto contrário do post curto, um regresso ao ritmo pausado do folhetim oitocentista, que está um pouco como o movimento slow food em relação ao come-em-pé. Mas não há que temer, eu também não vou exagerar: em apenas quatro semanas a história fica contada (sempre aos sábados).

  3. Luis Rainha diz:

    Mas vais enviar-me por mail a antestreia, não?

  4. António Figueira diz:

    É pá, não espalhes, mas ainda não a escrevi…

  5. Resignado, penitente, expectante. Mas cá virei.

  6. Maravilha. O prazo de uma semana é, nitidamente, um acto terrorista.

  7. Pingback: cinco dias » Folhetim de fim-de-semana (segundo episódio)

  8. Pingback: cinco dias » Folhetim de fim-de-semana (quarto e último episódio)

Os comentários estão fechados.