O cio e outros temas igNóbeis

A ausência de cio visível nas fêmeas humanas fertilizou a mais improvável das alianças: entre feministas e cristãos fundamentalistas. Para elas, a ovulação é um domínio privado, mais uma alameda esconsa no tal “continente negro” que é a mulher, pelo menos aos olhos do macho abrutalhado. Para eles, trata-se de mais uma prova de que Deus nos quer castos, recatados e de sexualidade bem discreta. Nada de andar por aí a enviar sinais que possam despertar a concupiscência dos homens inocentes.
Nem a ciência entende o fenómeno com clareza. Os cientistas homens alvitram que a camuflagem da ovulação não passa de mais uma artimanha engendrada pela evolução: um truque para manter os homens sempre por perto e sempre interessados, dado nunca saberem ao certo quando é que os seus cromossomas têm porta aberta para a propagação. As suas colegas sugerem que a coisa poderia ter funcionado ao contrário, dando a Eva liberdade sexual, uma vez que não iria ser aprisionada por um só homem, nem ameaçada por fêmeas dominantes, no seu período fértil – claro que brinco quanto à atribuição de géneros aos proponentes das duas teses.
E se um estudo demonstrasse que a ovulação, por bem escondida que nos pareça, é ainda visível e actuante? Que continua, mesmo subterrânea, a mandar mensagens bem eficazes aos machos exaltados? Foi precisamente isto que três cientistas (gajos, note-se) da universidade do Novo México andaram a investigar, analisando as gorjetas recebidas por cerca de 5300 dançarinas eróticas. Seriam as lap dances recompensadas de forma diferente, consoante a fase do ciclo reprodutivo das dançarinas? Sim: de 335 dólares por turno de 5 horas durante a ovulação a 185, durante a menstruação. As dançarinas que tomam a pílula apresentam uma variação nula.
Este fascinante estudo é apenas um dos laureados com um dos Prémios IgNobel deste ano. Sabem; aquela fonte regular de sorrisos na imprensa séria, aqueles cromos que gastam tempo e dinheiro em pesquisas improvavelmente bizarras. Dos premiados recentes, distingo outros temas fascinantes: a confirmação de que as amibas conseguem encontrar a saída de labirintos rudimentares; a maior eficácia dos placebos mais caros; a influência dos sons “estaladiços” no sabor de alguns alimentos. Já aquilo das considerações morais em torno das plantas, dos saltos das pulgas e das possibilidades espermicidas da Coca-Cola… isso deixo para mentes mais alertas.
Se repararmos no slogan dos IgNobel, tudo se torna mais claro: «Research that makes people laugh and then think”. Nem mais.

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3 respostas a O cio e outros temas igNóbeis

  1. sobre outros comportamentos irracionais mas tão reais, vale a pena ouvir a conversa de Daniel Kahneman no http://www.edge.org

  2. mf diz:

    Bom , àparte outras coisas , no períodp ovulatório a mulher soi ter mais pica , é natural que coqueteie mais , digo eu , e assim receba mais gorjetas. pode ser o próprio comportamento da mulher a explicar isso . suponho que estarão ao corrente de como as hormonas influenciam os humores femininos e como podemos ser antipáticas em certas alturas do ciclo.

  3. Bem o post vale pela linguagem … vá lá! Um gajo a sair da casca sem medo de levar 2 estalos!
    Mas isso já notícia com barbas … eh ehe ehe funciona mais na hora.

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