, nem a gente janta

Quis oferecer a alguém o Agosto, do Rubem Fonseca, que eu tenho numa edição da D.Quixote. Não há, está esgotado. Então quero a edição brasileira, da Companhia das Letras. Não há, “venda proibida em Portugal”, os direitos são propriedade da D.Quixote. O livro é, portanto, pura e simplesmente impossível de comprar e, logo, de ler, porque a D.Quixote não vende nem deixa vender. Sugestão da empregada de uma livraria: “-Se conhecer alguém que vá passar férias ao Brasil, peça-lhe”. Aliás, porque não ir ao Brasil de propósito para comprar livros?

A distribuição de livros brasileiros em Portugal é péssima, as edições portuguesas de autores brasileiros são raras, não há uma livraria de edições brasileiras decente em Lisboa (para quem ainda avaliar as edições brasileiras de livros publicados originariamente noutras línguas pelas traduções manhosas da MacGraw-Hill dos tempos da faculdade, sugiro uma vista de olhos às edições da Martins Fontes, por exemplo, é o suficiente para mudar de ideias). Enche-se a boca de lusofonia e de política da língua e depois é isto. Salvam-se neste deserto (onde a histórica Livros do Brasil parece ter morrido de indigestão, encostada à palmeira de algum oásis), a Campo das Letras (editora de quase todo o Rubem Fonseca, mas que, por razões que desconheço, se tem esquecido do genial Bufo & Spallanzani) e a Cotovia, que, com as suas edições de brasileiros clássicos e modernos, fez por merecer os nossos parabéns no seu vigésimo aniversário.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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13 respostas a , nem a gente janta

  1. Pedro diz:

    António Figueira, vossa excelência é uma pessoa complicada 😉 É você e essa empregada da livraria. Nunca ouviram falar em compras on line? É que não há de facto desculpa para não se ler o que se quer, sem sequer ter de sair de casa. Olhe, se quiser esse Rubem Fonseca ou qualquer outro, vá, por exemplo, ao site da Livraria Cultura, que é um mundo: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/index.asp
    Foi lá que comprei ainda um dia uma excelente edição dos Doze Cesares, do Suetónio, aqui esgotada há séculos.

  2. joão viegas diz:

    Até que enfim que alguém repara no problema, apos meses de conversa de café acerca do acordo (que é um pequeno detalhe insignificante ao lado da triste realidade apontada por Antonio Figueira).

    E verdade que (como diz Pedro) a Internet permite ultrapassar em parte a dificuldade, mas não deixa de ser escandaloso (e contrario a todos os principios da nossa politica pretensamente lusofona) que as livrarias não tenham livros brasileiros. A existência de dois mercados estanques parece-me uma medida perfeitamente contra-producente e artificial. Porque carga de agua, em termos economicos, as editoras de ambos os lados do Atlântico (que tanto quanto sei têm dimensões muito comparaveis) deveriam produzir unicamente para o seu mercado nacional ? Se produzissem para ambos os paises, o publico não ficaria a ganhar, até por poder conhecer melhor a literatura do outro pais ? E as editoras não ficariam também a ganhar ?

    E a abertura não seria uma medida obvia no sentido de levar mais pessoas a ler mais em português ?

    O Antonio Figueira tem toda a razão : encher a boca com palavras sabemos nos, mas quando se trata de realizar o que quer que seja, somos uma desgraça total e completa (e, infelizmente, parece que transmitmos isto aos brasileiros).

  3. Sugiro o site da livraria Cultura de São Paulo. Funciona como a Amazon e a diferença real/euro compensa os portes de correio. É o que eu uso entre viagens ao Brasil. E funciona bem.

  4. Antónimo diz:

    os doze césares existem em qualquer livraria. ainda recentemente os vi.

  5. António Figueira diz:

    Ao Pedro e ao Miguel os meus agradecimentos; não conhecia nenhuma livraria online brasileira q exportasse para a Europa, é óptimo saber q existe pelo menos uma.

  6. Pedro diz:

    Antonimo, os Doze Cesares esteve aqui esgotado durante anos, e nem nos alfarrabistas se encontrava. Isto passou-se há anos.

  7. João Gundersen diz:

    D. Quixote? Isso não é da Leya? Não está esgotado, está arrumado ao pé dos livros escolares que chegam para a semana que vem. (há quatro meses…)

  8. ivan diz:

    Há uma edição muito bonitinha do Agosto em livro de bolso, da Companhia das Letras, a um preço muito razoável. Aliás, há ótimas coisas nessa coleção, incluindo o Livro do Desassossego, o Álvaro de Campos completo, o Ricardo Reis completo e o Alberto Caeiro, tudo em edições bonitas e manejáveis. Será que no centro cultural luso-brasileiro, na Calçada do Combro, não se encontra mesmo essa edição do Agosto?

  9. António Figueira diz:

    Não, já tentei e nada (aliás, foi lá que me sugeriram o passeio ao Brasil…)

  10. Sou editor e livreiro no Brasil e também acho absurda a ideia de não termos um intercâmbio maior entre as publicações portuguesas e brasileiras. Aqui não é muito fácil encontrar as editoras de Portugal, infelizmente. E, sem dúvida, há público interessado.
    Gostaria de entender melhor: não há livrarias em Portugal que vendam os livros do Brasil? É algo difícil? O governo cria algum tipo de impedimento?

  11. António Figueira diz:

    Caro Alexandre,
    Não há nenhum tipo de impedimento oficial, apenas inércia de quem promove, distribui e vende livros; a única livraria lisboeta (que eu saiba) que vende exclusiva ou principalmente edições brasileiras é o Centro do Livro Brasileiro, que é uma livraria muito pouco sofisticada (to say the least); outras há que também vendem (ex: FNAC), mas apenas best-sellers. Verifiquei, por experiência própria, que a livraria postal da Leitura funciona bem, mas pareceu-me muito cara.
    Cumps., AF

  12. Mas será que haveria público para novas livrarias desse tipo em Lisboa? Temos muito desejo de abrir uma livraria em Portugal, que pudesse dispor de um amplo catálogo de livros brasileiros, mas temos muito receio dos custos envolvidos para implantação. Estamos muito aos poucos pesquisando tributos, custo de aluguel de imóvel, bairro ideal… não é uma coisa simples, infelizmente.

  13. António Figueira diz:

    Compreendo o V. receio, e se estivesse no V. lugar provavelmente partilhá-lo-ia. O Centro do Livro Brasileiro resiste desde há muitos anos; pena é ser o armazém de livros que é, e não uma boa livraria. Eu não esperaria que uma livraria brasileira fosse um enorme êxito comercial, e compreendo a prudência das grandes superfícies, que se limitam à importação de best-sellers literários; no V. lugar, e se me é permitida a sugestão, eu apostaria em primeiro lugar numa e-livraria, bem divulgada em Portugal, com um bom site (completo e user-friendly) e com preços competitivos.

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