A mão bem visível dos nossos genes?

Um dos grandes desafios colocados à sociologia pela História humana recente é a eclosão do industrialismo. Philip Abrams assinalou que as conclusões alcançadas pelos pais da sociologia (Marx, Durkheim, Weber) quando enfrentaram esta questão foram, “felizmente” flagrantemente díspares. “Felizmente” pois foi dada assim partida para uma série de discussões que ainda hoje dinamizam importantes áreas do pensamento sociológico. Quanto ao problema do industrialismo, resta-nos permanecer indecisos face a hipóteses que colocam, entre outros, factores como a anomia, a luta de classes ou a racionalização no centro das causas para o seu triunfo. O que nem sequer satisfaz, a bem da verdade, as parcas exigências do mesmo autor: “a sociologia histórica pode esperar mostrar que tudo é inevitável uma vez tenha acontecido. Mas está constringida a assumir que nada é inevitável até esse momento.”
Visão diversa apresenta Gregory Clark — presidente do departamento de economia da universidade da Califórnia e especialista em história económica — na sua já muito falada obra A Farewell to Alms: A Brief Economic History of the World (2007), tomo em que colige e amplia uma sua tese que já circulava havia anos em alguns artigos: a Revolução Industrial terá sido em grande parte produto de um processo de selecção natural sofrido pela população inglesa.
Segundo este autor, a espécie humana encontrava-se, desde o início do século XIII, presa numa “armadilha malthusiana”: sempre que novas tecnologias aumentavam a produção, as condições de vida melhoravam, acarretando um aumento de natalidade que depressa consumia a riqueza suplementar. Depressa regressava a pobreza antes dominante; em 1790, a ingestão média de calorias da população inglesa — então talvez a sociedade mais rica do mundo — assemelhava-se à das tribos recolectoras, estando os pobres bem abaixo desse limiar. Os únicos tempos de bem-estar em que este equilíbrio entre o rendimento disponível e as taxas de natalidade e de morte se alterava em favor das condições de vida eram os anos subsequentes a grandes pragas, que dizimavam populações e permitiam aos sobreviventes maior desafogo. Só com a revolução industrial é que a produtividade acelerou o suficiente para gerar riqueza capaz de acomodar o aumento do número de bocas a alimentar. Mas como e porquê?


Clark, depois de consultar cerca de 2.000 testamentos da Inglaterra medieval fez uma descoberta-chave: os filhos das classes superiores, por apresentarem taxas de sobrevivência naturalmente mais elevadas, tendiam a ser mais numerosos que os descendentes dos pobres. Em 1600, um rendimento manual de 1.000 libras significava que cerca de 4 filhos do seu detentor iriam chegar à idade adulta (quando uma mulher inglesa dava à luz, em média, 3,6 crianças ao longo da sua vida); o dobro do correspondente a agregados familiares com rendimentos inferiores a 10 libras. Depois, a natureza estática da economia, com um reduzido número de oportunidade para o enriquecimento, tratava de impor a mobilidade social descendente como regra: “os artesãos de uma geração forneciam muitos dos trabalhadores da seguinte, os filhos dos mercadores tornavam-se pequenos comerciantes e os filhos dos latifundiários acabavam como rendeiros.” Isto viria provar que “a população moderna de Inglaterra descende em grande parte das classes economicamente superiores da Idade Média”.
Com esta mudança da estrutura da população, os novos valores culturais dominantes nas classes privilegiadas começaram a espalhar-se como uma contaminação benfazeja e imparável: literacia, predisposição para a poupança, não-violência, maior dedicação ao trabalho. Entre 1200 e 1800, factores como as taxas de juro e de homicídios não pararam de decair.
Quando esses valores civilizacionais alcançaram massa crítica, a mudança social em Inglaterra tornou-se numa força imparável. Mas a Revolução Industrial não se tratou, defende o autor, de um processo que, como é comummente visto, tenha eclodido em menos de uma geração: ela “estendeu-se por centenas e anos desde a sua origem, e foi um desenvolvimento gradual e evolucionário que afectou outra economias europeias quase tanto como a Inglaterra”. Eventos como a invenção do tear mecânico por Richard Arkwright não foram afinal decisivas; para Clark, a verdadeira chave do progresso esteve em factores acidentais e contingentes, como o grande crescimento populacional inglês depois de 1760, os sucessos militares do país e o desenvolvimento da América. Nações igualmente desenvolvidas em 1800, como o Japão ou a China, nunca sofreram este salto quântico no seu desenvolvimento porque, ainda segundo Clark, as suas classes superiores apresentavam uma fertilidade extremamente reduzida: estudos sobre testamentos de samurais revelaram que estes recorriam muitas vezes à adopção para angariar herdeiros. Em resumo, o industrialismo terá florescido porque a população europeia adquiriu gradualmente “um reportório de perícias e disposições que eram muito diferentes dos do mundo pré-agrário.”
A reacção a esta tese tem sido acalorada: muitos economistas preferem dar primazia a factores mais clássicos no desencadear da Revolução Industrial: a descoberta de grandes jazidas de carvão, concomitante com o aperfeiçoamento do motor a vapor, e a enorme produtividade dos campos de cereais da colónia americana.

A Farewell to Alms é muito mais do que esta tese, que talvez nem seja correcta ou sequer original. Pretende ser uma História resumida da Humanidade, do Neolítico à actualidade. Por alguma razão demorou 20 anos a completar…
Já não sei que blogue liberal cá da praça recomendou a sua leitura há uns meses; mas agradeço-lhe na mesma.

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3 respostas a A mão bem visível dos nossos genes?

  1. o sátiro diz:

    felizmente díspares! Para k a obsessão do totalitarismo seja esmagada. Olhando para o mundo, creio k falta(ou) à sociologia estudar a estruturas tribais islâmicas, o sistemas d castas na india, cada um envolvendo centenas d milhões d pessoas. E em qqr caso bem mais graves do k a “exploração d classes”!

  2. Luis Rainha diz:

    Não, não falta.

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