Do musseque para Manhattan


Quando estive em Luanda há uns meses, não deixei de me sentir esmagado, como qualquer visitante, pela miséria opressiva que domina as grandes extensões de musseques, mares de barracas derramando sem cessar pedintes e negociantes de lixo para as ruas mobiladas com luxuosos jipes e restaurantes onde se bebe champagne como se fosse 7UP. Lembro-me de pensar que talvez só a miragem da ascensão social, materializada em milhares de pequenos, ínfimos negócios, florescendo literalmente debaixo de cada pedra, poderia anestesiar uma população sujeita a tão chocantes desigualdades, adiando uma explosão de consequências impensáveis.
Por estranho que pareça, esta recordação faz-me agora pensar na nação mais poderosa do mundo. Que os EUA mantenham um fosso entre ricos e pobres ainda maior que o nosso, parece coisa desculpável, pois de imediato vem à mente a mítica mobilidade social ali reinante. Certo? Não; errado.
Já em 2005, a London School of Economics tratou de estilhaçar o mito, com um estudo em que se comparava a mobilidade social intergeracional britânica com a de outros países ocidentais, incluindo os EUA. Conclusões surpreendentes: «A careful comparison reveals that the USA and Britain are at the bottom with the lowest social mobility. Norway has the greatest social mobility, followed by Denmark, Sweden and Finland. Germany is around the middle of the two extremes, and Canada was found to be much more mobile than the UK.»
É mesmo pena não terem incluído Portugal. Alguém conhece estudo similar aplicado à nossa realidade?

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15 respostas a Do musseque para Manhattan

  1. ricardosantospinto diz:

    Pessoalmente, acho muito mais indesculpável a situação nos Estados Unidos do que em Angola. Quem chegou onde chegou a América tinha a obrigação de ter promovido uma sociedade minimamente justa.
    Quanto a Portugal, é o que dá 32 anos de Governo do Bloco Central, sendo que, dos últimos 13, 10 foram da responsabilidade de um Partido dito socialista.

  2. manuela diz:

    Os resultados desse estudo são confirmados no relatório da OCDE de 2006.

    Intergenerational earnings mobility varies significantly across countries. It is higher in the Nordic countries, Canada and Australia but lower in Italy, the United States and the United Kingdom.

    http://www.oecd.org/dataoecd/27/28/38335410.pdf

  3. Luis Rainha diz:

    Muito obrigado, Manuela.

  4. Luis Moreira diz:

    Portugl em 1998 terminou uma ronda de grandes obras públicas, com a ponte Vasco da Gama e a Expo 98.Hoje estamos mais pobres, com maior injustiça social e pior classificados no ranking das nações.Vem aí outro ciclo de obras públicas.Mais dez anos em que a inovação fica para trás, a evolução tecnológica pára e a exportação de produtos transacionáveis diminui.Todos,mas todos sabem isto.Mas já ninguem se indigna! O Sr. Lino das certezas “OTAS” tem agora as mesmas certezas, mas não mostra os estudos nem consegue explicar a bondade dos investimentos.E,já agora, a rentabilidade dos mesmos.Nada! Deitar dinheiro para cima dos grupos económicos de sempre. Condicionamento industrial com Salazar.Condicionamento do desenvolvimento sustentável com PS e PSD.Nota-se a diferença?

  5. Deixem lá… estamos bem classificados e imobilidade social, y depois o Sol quando nasce é para todos … Y nós cá temos um Sol de qualidade y em boa qualidade, y sem nos preocuparmos muito encontramos uma boa Sombra. Coitadinhos dos Ricos grande parte do ar que respiram é condicionado … ehehe ehe é se Pobre com qualidade no PT … o resto são T-a-r-e-c-o-s.

  6. o sátiro diz:

    comparar angola com os usa só mesmo no 5dias e noutros k tais.por isso é k há nos usa 12 milhões de imigrantes ilegais k não querem ouvir falar em ser expulros. Vivem lá como nos musseques, sem dúvida. Isto sem falar nos legais. E é pq a mafia-assassina dos Castro tem a ilha fechada a ferrolho, ficava um deserto. Onde chega a imbecilidade raivosa e frustrada.

  7. o sátiro diz:

    então o mpla não se definiu como marxista-leninista? Não tem relações de amizade especiais com o pcp? E este preocupa-se com a miséria dos musseques?

  8. Luis Rainha diz:

    Sei que lhe pode parecer bizarríssimo, mas por acaso também há imigrantes em Angola. Mas, de qualquer forma, não estou mesmo a ver onde é que comparei este país com os EUA.
    E olhe que me confundiu com o camarada Jerónimo.

  9. manuela diz:

    O eterno e querido sátiro… Diga-se o se disser, a propósito do que quer que seja e por mais opostos que sejam os assuntos, a receita é sempre a mesma.

  10. Luis Moreira diz:

    Sabem que a anedota que corre é que as balieiras estão agoa a chegar a Cuba…

  11. o sátiro diz:

    lr, referia-me ao rsp. Certo não é do 5dias. Qto aos imigrantes em angola não se comparam em termos sociais aos ilegais nos usa. Estimada manuela, tem razão, às vezes é necessário repisar as evidências qdo são sempre ocultadas ou deturpadas. Saludos

  12. manuela diz:

    sátiro, o mundo é tão plural, as alternativas tão vastas, os quotidianos milhentos, os assuntos tão incontáveis que é no mínimo bizarro que não encontre mais do que uma cassete para a imensidão do universo. Desde a extinção das baleias à arquitectura no Nepal.

  13. ricardosantospinto diz:

    Caro Sátiro,

    Mesmo que continue a chamar-me imbecil, não lhe responderei no mesmo tom, porque não sou mal educado.
    Como é óbvio, não comparei, nem poderia, os EUA com Angola. Disse apenas que não se admite que, nos EUA, as desigualdades sociais sejam tão grandes. E disse também que é indesculpável que se mantenham essas desigualdades. É mais inexplicável que se matenham essas desigualdades na América. Em Angola, onde a democracia ainda é uma coisa muitíssimo rudimentar, é mais explicável que haja milionários enquanto milhares morrem de fome. Na América, não devia ser explicável.

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