A insustentável leveza da tontice

O sempre à coca Alberto Gonçalves deu pela polémica em torno da possível delação de Kundera. E vai de ir procurar paralelos cá no burgo luso. Coisa fácil, dirão alguns. Similar à ditadura comunista que na década de 50 enjaulava os checos numa sociedade concentracionária e paranóica, o que é que existiu em Portugal? O Estado Novo?
Ná. Para o sociólogo Gonçalves, o símile perfeito é mesmo o gonçalvismo. Aquele longo Inverno de sangue, Tarrafais, holodomors em barda.
Claro está que às tantas até o escriba repara que a comparação nasceu avariada: «os Kunderas caseiros não faziam queixa à polícia: os polícias eram eles.» E acaba por sair de órbita, regressando fugazmente ao nosso planeta: «caso a democracia tivesse dedicado aos bufos do comunismo o rancor que dedicou aos seus equivalentes “salazaristas”, dois terços da classe “intelectual” e “artística” actual não existiriam». Antes de ponderarmos se o Alberto Gonçalves existirá mesmo, note-se o primoroso uso das aspas; depois, a noção de que os bufos do antigamente foram vítimas de intenso e recidivo «rancor», talvez, imagino eu, incluindo execuções em massa. Por fim, notemos que os odiosos crimes são agrupados em acusações vagas e sonsas, sem nomes, claro, culminando num libelo acusatório de tremenda força moral: «vultos da escrita, da pintura, da música, do teatro e do cinema nomeados para as Comissões Consultivas de um governo que ninguém elegera.»
Uau. Isto é igualzinho a denunciar um estranho, que acaba por sofrer 14 anos de prisão. Talvez seja mesmo pior. Toda a gente sabe que num país que ainda não teve eleições, ninguém, repito, ninguém pode colaborar seja com que autoridade for. Quem o fizer, arrisca-se a ter à perna a Polícia do Não-pensamento, na tenaz e ilustrada pessoa do inspector Gonçalves.

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