The Vices of Historiography

Conhecia o E.H.Carr do “What is History?”, o Carr historiador da Rússia Soviética (só os volumes publicados em português, edição Afrontamento, capas de João Botelho, lidos há muitos anos em S.Martinho do Porto para matar o tédio, courtesy of my mother-in-law, mais um pequeno volume de ensaios intitulado “De Napoleon a Stalin”, assim mesmo, em espanhol, herdado da paternidade), o Carr diplomata (o “The Twenty Years Crisis”, claro, mas também o modelar “The International Relations Between the Two World Wars”) e até o Carr vagamente oisif dos “The Romantic Exiles”; mas escapava-me o Carr as such, e sempre tive curiosidade em conhecer o percurso intelectual que fez de um diplomata inglês, produto do liberalismo radical do princípio do século XX, o maior e mais seguro dos historiadores da URSS, o grande contextualizador da revolução de Outubro, o implacável fustigador de Popper e de Berlin.

Arranjei maneira de satisfazer a minha curiosidade quando comprei, em Agosto passado, na inevitável Judd Books, “The Vices of Integrity”, a biografia dele que Jonathan Haslam escreveu e que eu acabei agora de ler, para meu proveito e satisfação – tanta que a seguir fui falar com o maior especialista português em E.H.Carr (only kidding, mas fez um trabalho sobre ele há uns anos, e parece que tem mais bibliografia sobre o homem), o nosso conhecido Ivan Nunes, à procura de mais alimento espiritual. O Ivan prometeu-me que o arranjava; mas entretanto foi-me dizendo que tinha achado o livro do Haslam um bocado maçador, que um artigo dele de quinze páginas tinha toda a informação relevante que estava no livro (que tem trezentas) e perguntava se fazia sentido que as biografias de contemporâneos se referissem às origens familiares dos biografados na alta idade média (esta faz).

Pensando no assunto (o melhor do Ivan é este lado thought-provoking), respondi-lhe que, nas devidas proporções, bem entendido, até fazia, quanto mais não fosse a contrario sensu, pois confirmando a origem genuinamente inglesa de Carr informava indirectamente que ele não era um newcomer como por exemplo Isaiah Berlin, que a acreditar em Perry Anderson (que conta isso num ensaio sobre ele publicado na colectânea “A Zone of Engagement”) levava o esforço de afirmar a sua Britishness de adopção a extremos que fazem levar o nosso Prof. Espada. Aliás, pensando bem, o gozo principal da biografia de Haslam é a comparação que ela oferece com a biografia que Michael Ignatieff escreveu sobre Berlin; para quem possa lê-las a ambas, sugiro a comparação do episódio do virtual saneamento de Isaac Deutscher por Berlin da Universidade do Sussex – algo que Berlin descreve como “a fair enough application of [his] standards of liberal tolerance” mas que o aproxima bastante mais da categoria do witch-hunter que qualquer outra coisa (p.242 de Haslam e p.235 da versão paperback de Ignatieff).

Mas se a história, a política e até a moral – como resulta claro do episódio Deutscher – separavam os dois homens, havia algo que os aproximava: a sua predilecção por Portuguese servants: Carr, já no fim da vida, quando já vive financeiramente desafogado, contrata um casal para o serviço da sua (terceira) mulher (p.244) e Berlin também não dispensava os serviços de Casimiro e Claudina Botelho, contratados pela sua mulher nos anos 70 e que lhe foram de grande préstimo nos últimos anos da sua vida. De Claudina, diz-nos Ignatieff (p.278) que era “…a fine featured woman with superb culinary taste…”, isto enquanto Casimiro “…became a kind of batman to Isaiah, a devoted and affectionate friend who looked after his every need…” Onde estão hoje estes heróis ignorados e quem disse que os portugueses não estiveram por detrás de alguma da grande historiografia do século XX?

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SEXTA | António Figueira
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