Estava na cara

Há fachadas que revelam, num piscar de olhos do passante, o que por trás delas se agita. Esperar-se-ia que um organismo com as funções da ERC se desenhasse discreto, sóbrio, quase invisível. Imaginar-se-ia um pequeno batalhão de mangas de alpaca, com os seus cronómetros e os seus mapas horários, assinalando quantos segundos a mais de cobertura noticiosa teria tido o PP em relação ao PNR, quantos golos de água cada comentador bebeu esta semana em directo. Tudo oculto algures num armazém sem marcas exteriores, com um bengaleiro repleto de gabardinas cinzentas, tão inconspícuas quanto os seus donos.
Mas basta olhar para a fachada da ERC, na 24 de Julho, para perceber de que massa é aquela malta feita. Metal rutilante, cheio de design e de vontade de dar nas vistas, uma entrada majestática, a impor o respeito ao transeunte. Ali não há discrição silenciosa, assim à laia de uma polícia secreta eficaz e anónima. Há sim uma declaração berrada: “reparem em mim!” Há ali sim um grupo de académicos de repente investido de autoridade a sério. Para mal da actividade que deviam regular com um mínimo de espavento. E para mal, palpita-me, de todos nós.

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