Ainda e sempre o surrealismo

André Breton, mesmo prolongando para lá do razoável o seu papado do movimento surrealista, nunca perdeu uma admirável acuidade do espírito. E lembro-me de ter lido uma sua entrevista, já não sei onde, em que ele abjurava um “surrealismo de bazar”. É fácil entender o que lhe ia na alma: o surrealismo nunca se reduziu à popular “arte dos sonhos”. O objectivo declarado desde o primeiro manifesto, há 82 anos, era dinamitar a fronteira entre os reinos do consciente e do inconsciente. Como lá chegar? Mesmo nas artes plásticas, as tácticas foram muitas. Do automatismo de Masson ao verismo de Tanguy, passando pelas revisitações dalinianas de Krafft-Ebbing e pelo acaso cortejado por Ernst, as alamedas do surrealismo prometeram mil caminhos; por vezes difíceis, quase sempre fascinantes.
Hoje, muitos artistas reclamam parte desta herança. Mas são os mais alheados das discussões sobre as partilhas os que mais vale a pena seguir. Gente, só por exemplo, como Matthew Barney ou Robert Longo. Ou Dino Valls. Do primeiro (em cima retratado), recomendo o visionamento da recente longa metragem Drawing Restraint n. 9, criado com a sua mulher, a celebrada Björk. A Longo, conto voltar em breve.
Tudo isto vem a propósito de um site que comentadora amiga me indicou. E que nos alerta para a coexistência, nos dias de hoje, de herdeiros das duas genealogias surrealistas: a que mergulha nos confins das nossas mentes e a que não consegue fugir dos escaparates do bazar.

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