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Ideias em tempo de crise

16 de Outubro de 2008 por Rui Tavares

Já estou habituado a nunca ter lido nada do Prémio Nobel da Literatura quando ele é anunciado. Invulgar é ter lido neste Verão o último livro do Nobel da Economia.

The conscience of a liberal, de Paul Krugman (em português uma tradução seria “Uma consciência de esquerda”), é um ensaio sobre história política e as suas consequências económicas e sociais. A certa altura do seu livro, Krugman convida-nos a levar a sério algumas das políticas que F. D. Roosevelt seguiu para fazer face à Grande Depressão: “Enormes aumentos de impostos sobre os ricos, apoio a uma vasta expansão do poder dos sindicatos e um período de controlo dos salários para diminuir as diferenças entre extremos”, entre outras. Não duvido de que para um leitor de direita esta seja uma visão do inferno. Para Krugman, aquelas medidas “igualitárias” foram as grandes responsáveis por uma sociedade preparada para crescer e dar conforto a milhões de pessoas nos anos 50 e 60.

O reverso da história é também conhecido. Em final dos anos 60, por razões que têm principalmente a ver com a história dos conflitos raciais nos EUA, os republicanos tomaram os bastiões brancos do Sul e passaram a dominar a política americana. Este domínio consolidou-se partir dos anos 80 com Reagan (e Thatcher na Europa) e com o tempo contaminou até o próprio centro-esquerda (a Terceira Via de Clinton e Blair foi a aceitação tácita deste predomínio, com algumas medidas periféricas de suavização). As consequências são as que temos agora: extremos de desigualdade e pobreza, menos mobilidade social e uma sociedade fragilizada perante as crises.

O apogeu da crença no mercado omnisciente e omnipresente levou Krugman a escrever isto há dois anos: “O modo de vida dos americanos é agora vender casas uns aos outros, com dinheiro emprestado pelos chineses.” Estava correcto e o veredicto soou nas últimas semanas: passámos à beira da catástrofe e para evitar o pior vamos gastar muito do dinheiro que antes nos diziam que não tínhamos para a educação, a saúde ou os transportes públicos.

Um aspecto interessante da carreira de Krugman, para nós portugueses, é o facto de ele ser um observador à distância do nosso país desde que aqui trabalhou em 1976. Já como economista célebre e colunista no New York Times, foi entrevistado em 2004 pelo Semanário Económico e sugeriu que o nosso investimento público se deveria centrar na educação e, em menor medida, nas infra-estruturas. Especialmente interessante para mim, como imagina quem costuma ler esta coluna, foi esta sugestão de política urbana: “Promover a identidade cultural e económica de uma cidade ajuda se se conseguir vender a cidade como um bom sítio para viver e visitar, tornando-a num bom local para fazer turismo, mas também para localizar um negócio.”

A esquerda e o centro-esquerda estão mais próximos agora do que alguma vez estiveram nas últimas décadas. Ambos preconizam hoje um reformismo social em torno do combate às desigualdades, aposta na educação e na mobilidade social, defesa da qualidade de vida em meio urbano, apoio às energias renováveis e regulação do mercado. Pode parecer pouco, mas já é mais do que suficiente para nos dar trabalho no próximo par de décadas.

Comentários

Comentário de xatoo
Data: 16 de Outubro de 2008, 15:02

mais do mesmo
Obama como Roosevelt, ou dito de outro modo: Zbigniew Brzezinski depois de Madeleine Albright, ou seja: Bush Pai seguido de Bush filho, com Clinton pelo meio
O que muda é apenas a quantidade de dinheiro impresso; ou não são reconhecíveis as estruturas económicas do Império?
http://www.politico.com/news/stories/0907/5783.html

Comentário de Saloio
Data: 16 de Outubro de 2008, 15:09

Caro Rui Tavares: a circunstância do senhor confessar com à-vontade ee de forma destemida que nunca leu nada de literatura, pelo menos de autores que vieram a ser prémios nobeis, demonstra, mais que o seu grau cultural, um desassombro de incultura que me comove.

E a referência que faz da sua leitura do livro do economista agora nobel, um texto técnico, faz-me lembrar o Dr. Mário Soares na última campanha presidencial, comentando em surdina o silêncio atrapalhado do Prof. Cavaco, quando lhe perguntaram que livros/romances tinha lido ultimamente: “ele” não lê livros…só lê dossiers!!!!!

Pelos vistos está na moda e até é fashion não ler literatura; eu imagino: dá trabalho, perde-se tempo para textos que se facturam e juntam ao curriculo, e os livros não dão para discutir na net, porque os outros argonautas também já não lêm.

Porém, pelo exemplo do homem de Boliqueime, prevejo para si (pessoa de quem gosto), um futuro alto cargo na nossa nação.

…Só espero é que nessa altura tenha em conta o que agora vai dizendo.

Espero eu…

Comentário de Luis Rainha
Data: 16 de Outubro de 2008, 15:17

Leio, entre obrigações académicas, profissionais e puro lazer, pelo menos um livro por semana. E ainda não li um só livro do mais recente Nobel. Mais um deserto de incultura e iliteracia.

Comentário de Catarina
Data: 16 de Outubro de 2008, 15:28

Fantástico artigo. Já o recortei do Público de ontem para comentar com os meus alunos do plano de desenvolvimento (9ºano).

Comentário de rui tavares
Data: 16 de Outubro de 2008, 15:49

Eu e os Nobel da literatura, à data da sua atribuição:

2008 – Jean-Marie Gustave Le Clézio. Não tinha lido. Conhecia de nome.
2007 – Doris Lessing. Idem.
2006 – Orhan Pamuk. Tinha lido Istambul.
2005 – Harold Pinter. Tinha visto várias das suas peças, entre as quais O Regresso.
2004 – Elfriede Jelinek. Não tinha lido e, tanto quanto me lembro, conhecia vagamente o nome.
2003 – J. M. Coetzee. Tinha lido um ensaio, “Giving Offense”, cerca de dez anos antes. Alguns contos e excertos de romances em pré-publicação. Estou sempre a dizer que quero ler mais dele, mas não tem calhado.
2002 – Imre Kertész. Não tinha lido. Conhecia de nome.
2001 – V. S. Naipaul. Tinha lido mais de um par de livros e ensaios. Conhecia moderadamente bem.
2000 – Gao Xingjian. Não tinha lido. Não conhecia.
1999 – Günter Grass. Tinha lido A Ratazana.
1998 – José Saramago. Tinha lido meia-dúzia de livros.

O Saloio lê certamente romances enquanto escreve comentários anónimos nos blogues, portanto ser-lhe-á muito fácil dizer-nos que já tinha lido vários livros da maioria destes autores à data da atribuição dos respectivos Nobel.

Comentário de mesquita
Data: 16 de Outubro de 2008, 15:53

Uma observação muito lateral: penso que era boa altura de pelo menos a D. Quixote anunciar a reedição do Deserto. É um romance fulgurante, e penso que por si só justifica o Nobel.

Já agora, achei curioso que este ano o Nobel da Literatura tenha sido tão “discreto” (até o da Química foi mais discutido!). Gostava de pensar que tal se deve a um apreço consensual pela obra de Le Clézio, mas receio que não seja bem esse o caso…

Comentário de Fernando Penim Redondo
Data: 16 de Outubro de 2008, 17:29

“o modo de vida dos americanos é agora vender casas uns aos outros, com dinheiro emprestado pelos chineses”

Esta frase do Krugman tem pouco a ver com a “crença no mercado” mas sim com a dinâmica que se criou pelo diferencial entre a frugalidade e os sacrifícios dos chineses e o consumismo dos americanos. Como o vento que se cria entre as altas e as baixas pressões.

O PCC assumiu sem rebuço que não se importava com o enriquecimento de alguns desde que muitos melhorassem a sua condição económica e qualidade de vida.
Resolveu tornar a China um verdadeiro e apetecível mercado, começando com o engodo de vender mão-de-obra barata quer embutida em produtos exportáveis quer através da exploração no próprio país por empresários estrangeiros.

À medida que milhões e milhões de chineses iam acedendo a salários, ainda que muito baixos, o apetite das empresas estrangeiras por esse novo mercado foi crescendo e levando à implantação de mais e mais produção no país que se converteu na “fábrica do mundo”.
Qualquer pessoa percebe hoje, e pode constatar por notícias constantes, que esse mecanismo a partir de certo ponto se autoalimenta e está em vias de criar uma “classe consumidora” cuja extensão, nã riqueza, não terá paralelo no mundo.

Foi portanto à custa de sacrifícios que os chineses prepararam um futuro de hegemonia. É curioso haver quem pense que para combater isso os americanos deviam melhorar ainda mais o seu nível de consumo quando ele, já hoje, está acima das suas possibilidades.

Comentário de Luis Moreira
Data: 16 de Outubro de 2008, 19:06

O Krugman ganha o Nobel com o desenvolvimento de uma ideia muito simples.Nas trocas comerciais entre países não se alimentam só as necessidades sentidas mas tambem se ganham importantes mais valias com a especialização em clausters.Isto é ,se vocês se especializarem em carros podem-me vender carros que eu preciso a preços muito mais baixos .E se eu me especializar em têxteis posso vender-te vestuário e calçado a preços muito mais baixos.Mas se eu tambem construir carros e tu produzires têxteis,nunca conseguíremos ter carros e têxteis com tal qualidade e a preços tão baixos!
E como é que o mercado sòzinho chegava a este conceito tão simples e o punha em prática?

Comentário de Rogério da Costa Pereira
Data: 16 de Outubro de 2008, 19:06

Já eu costumo lê-los ainda antes de serem editados – leio as provas, eles mandam-mas. Agora, por exemplo, ando a ler o Nobel da Literatura de 2048, que tem agora 7 anos. É uma redacção.

Comentário de Luis Moreira
Data: 16 de Outubro de 2008, 19:30

Claro que o Krugman nem se atreveu a publicar isto antes de falar comigo!

Comentário de Miguel Marujo
Data: 17 de Outubro de 2008, 15:10

ó Rui, o saloio até os deve ler na sua língua original, pois alguns deles à data dos seus Nobel nem os tinham publicado em português… coisas!

Comentário de manuela
Data: 17 de Outubro de 2008, 20:04

Mais uma com falta de pontaria, também falhei alguns Nobel. E Óscares, o que torna a incultura ainda mais gorda.