A cara da mão invisível

Dick Fuld já foi o menino de ouro de Wall St. Agora, é o poster boy dos que apontam a cupidez de alguns CEOs como a raiz de todos os males. Assim, não há crise: afinal, uma ou outra maçã podre não vão estragar o pomar, pois não? E claro que a santa mão invisível não poderia levar homens de honra a montar cartéis, a esconder informação, a inventar esquemas manhosos de maquilhagem de contas, a distorcer ou acabar com a concorrência.
Enquanto houver malta inteligente disposta a acreditar nas fadas mágicas que convertem a procura de remunerações obscenas e injustificadas em prosperidade para os accionistas e riqueza para as sociedades, o pomar vai continuar vulnerável à bicharada. Enquanto se acreditar no “mercado” como uma terra de fábula, onde as fraquezas humanas não entram e, portanto, não há necessidade de policiamento, continuaremos a dormir sossegados. Até ao próximo pesadelo.

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8 respostas a A cara da mão invisível

  1. Luis Moreira diz:

    Como acreditar que a única criação perfeita do homem,é o mercado? Autoregula-se, é justo, paga segundo o mérito,controla a ganância,cria oportunidades para todos,é amigo do ambiente…

  2. gibel diz:

    Estás a atirar ao lado. O mercado, a mão invisível, etc. é pura divagação. É preciso é discutir concretamente o modelo de governação das sociedades cotadas: porque é que se chegou a um ponto em que os accionistas pouco poder têm face aos directores executivos, em suma, pouco têm a dizer sobre os destinos das sociedades de que são donos? (em parte, devido à implementação exagerada de “shark repellents” destinados a prevenir OPAs hostis da concorrência, que acabam por reduzir para além do razoável o poder dos accionistas); porque é que os conselhos gerais e de supervisão deixaram de representar devidamente os accionistas e de fiscalizarem apertadamente aqueles directores que aprovaram para si próprios as tais remunerações obscenas perante a complacência de quem deveria defender os accionistas?.. an soión. Sinceramente, acredito que muitos destes problemas só serão corrigidos com alguma inteligência jurídica da parte da regulação; certamente não serão corrigidos com planos trilionários à custa do contribuinte, cujos resultados serão incertos e que sinceramente não me convencem. A propósito, o polémico Harold Geneen escreveu em “Managing”, há mais de trinta anos :

    “Above the exalted chief executive, if you look closely, is a large, amorphous mass, representing the owners of the corporation, the stockholders, who more often than not far outnumber all the employees. And if you look even more closely, you will see that the mass of owners is connected to the corporate pyramid by an archaic, creaking contraption at the top call the board of directors. (…) The board was elected to act in the place of the owners. The board’s responsibility is to sit in judgment on the management, especially on the performance of the chief executive, and to reward, punish, or replace the management as the board, in its wisdom, sees fit. That is what is supposed to happen. That is what may appear to happen. But it doesn’t. (…) Over the years [boards] have grown so soft and so ineffectual that most often they are a captive of management, rather than effective representatives of the company owners.”

    E um adágio célebre do mesmo Geneen: “The worst disease which can afflict executives in their work is not, as popularly supposed, alcoholism; it’s egotism.”

  3. Aires da Costa diz:

    “É preciso é discutir concretamente o modelo de governação das sociedades cotadas”

    Concordo plenamente! E Já agora acrescento umas quantas questões?
    – Os gestores dos fundos de pensões será que percebem alguma coisa dos negócios das empresas de que têm em carteira?
    – E os executivos das seguradoras ?
    – E o zé da esquina?
    Pois é! Os donos não percebem nada do assunto, nem estão interessados em perceber. Estão, issso sim, interessados nos rendimentos que podem auferir. Alguns, poucos, em votar na lista que lhes parece oferecer melhor rendimento/segurança, que somente não é lista única quando há dissidências … MAS QUE RAIO ONDE É QUR EU JÁ OUVI ISTO?

    Depois claro, os eleitos agem de acordo com os seus interesses. A propósito, onde é que está o mercado?

  4. Stran diz:

    “É preciso é discutir concretamente o modelo de governação das sociedades cotadas: porque é que se chegou a um ponto em que os accionistas pouco poder têm face aos directores executivos…”

    A questão dos accionistas é apenas uma e para mim não é a mais importante. Um problema que tem de ser discutido profundamente é o modelo de contabilidade.

    Existem duas opticas significativamente diferentes de olhar para os valores contabilisticos: o anglo-saxonico e o que chamaria europeu (que julgo já quase não existir). O primeiro priveligia o curto prazo, os balanços devem demonstrar o que acontece actualmente sem nenhuma reserva, olha para a empresa no instante e no curto prazo. Nesta optica é por mais defendido o “mark to market” em que os activos têm o valor de mercado. Esta politica é muito volátil, no entanto julgo que os anglosaxonicos, principalmente os americanos têm perfil (ou melhor tinham) para esta contabilidade. A europeia era mais conservadora e olha a empresa como uma unidade de curto, medio e longo prazo em que as operações devem de ser sustentadas, priveligia a robustez dos resultados em detrimento da sua rendibilidade. Como vivemos anteriormente num periodo de expansão este modelo caiu em desuso e perdeu competitividade para o anterior que nestas alturas é mais benéfico para investidores e especuladores.

    No entanto, e com todas as suas virtudes, vemos agora os grandes problemas deste tipo de contabilidade e dos seus efeitos perversos. Mais do que magia contabilistica está em causa a propria optica contabilistica e o que deve reflectir.

    Outra discussão que ainda ninguém parece estar interessado em ter e que julgo que é extremamente importante é a seguinte, será o modelo de reformas privadas (vulgo PPR) sustentável?

    É que já discuti isto à algum tempo atrás e provavelmente não terá capacidade para ser sutentado. O primeiro efeito já se sentiu (esta crise), vamos ver se foi apenas este ou se mais uma vez o Estado vai ter que garantir este dominio (e aí a crise será bem maior).

  5. CN diz:

    Luís Rainha

    Até o puro instinto nos diz que os excessos da elite financeira (protegida agora) começam no excesso de crédito (ou crédito fácil).

    Este tipo de ambiente de especulação à volta da subida de preços de alguma coisa (internet stocks, imobiliário, etc) é o resultado da expansão monetária posta à sua disposição (crédito por pura criação de moeda em vez de pura intermediação de poupança).

    Notar o argumento à esquerda sobre o benefício que colhe quem primeiro gasta essas novas quantidades de dinheiro na economia, quando esta ainda não se adaptou via preço, para prejuízo de quem em último tende a utilizar essas novas quantidades (por exemplo, os agricultores).

    Ver os comentários no post sobre Krugman.

  6. Aires da Costa diz:

    Sran

    Sem dúvida! A crise financeira actual é um problema contabilístico: Se os fulanos que não conseguem pagar as suas casas tivessem contabilidade organizada, podiam registar como activos os rendimentos futuros, titularizá-los e colocá-los no mercado financeiro.

  7. Stran diz:

    E passavam a pagar a casa com o dinheiro que tinham feito no mercado, correctissimo…

    Julgo que não entendeu o que quis dizer. A contabilidade é a informação base para o sistema financeiro são os 0 e 1 dos sistemas.

    Como a crise não é um problema contabilistico. Mas a forma contabilistico contribuiu em muito para que tivesse existido especulação e até para a criação ficticia de massa monetária.

    Imagine a empresa A tem 100 Eur. Compra acções no valor de 100 Eur. Até agora não existiu nenhum problema. No ano seguinte essas acções valem 1000 no mercado e a empresa regista então esse ganho na sua contabilidade embora não seja efectivamente um ganho real. A empresa vale então agora 1000. Toda a gente fica satisfeita (num ano aumentou 10x o seu valor). Grande jantarada para comerar, os analistas ficam doidos. No ano seguinte big crash a empresa decide vender mas já só consegue a 100 Eur. Toda a gente fica deprimida, o mundo vai acabar.

    Na realidade aquela empresa não vez mais nada que comprar e vender ao mesmo preço. No entanto a história que é contada é completamente diferente pois criou-se e destrui-se valor sem grande motivo.

    Com uma contabilidade diferente, a história teria outros contornos sem visões esquizofrénicas da mesma realidade. Por exemplo basta que contabilisticamente exista a regra de contabilização pelo minimo (preço de compra vs preço de mercado) que diminui bastante a volatilidade da informação. Quem especula passa a faze-lo por sua conta e risco, quem quiser ser mais prodente olha para a actividade da empresa.

    Imagine o que aconteceria neste caso se tivesse existido entrega de dividendos…

  8. Stran diz:

    Peço desculpa pelo meu mau português:

    Fica aqui a errata (pelo menos do que apanhei):

    – “Como a crise não é um problema contabilistico” = Como é obvio a crise não é um problema contabilístico

    – “Mas a forma contabilistico…” = Mas a forma de apresentação contabilistíca

    – “A empresa vale então agora 1000” = A empresa vale agora 1000

    – “para comerar” = para comemorar

    – “mais prodente” = mais prudente

    Mais uma vez peço desculpa pelos imensos erros de escrita…

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