A Economia
13 de Outubro de 2008 por João GalambaO Manuel Pinheiro e o Miguel Morgado gostam do Krugman académico mas têm algumas reservas quanto ao Krugman opinador/divulgador. Esta é uma separação que considero perigosa (e falsa). A ideia de que a economia é uma ciência especializada, com um objecto bem definido e ‘leis’ próprias, é um enorme disparate. Se a economia pretende ser uma ciência social, ela não pode existir desligada da complexidade do mundo que a rodeia, da sua história, nem pode abster-se de dialogar com as restantes disciplinas do saber. Focando-me numa área que me interessa, a economia pressupõe —acriticamente— uma metafísica e uma filosofia. Por isso mesmo, o diálogo interdisciplinar e a divulgação não são extras optativos; eles são fundamentais para que a economia produza saber relevante e —fundamental— se compreenda a si própria (no sentido socrático do termo), pois só assim se torna possível praticar o mínimo de auto-crítica. O risco da sobre-especialização e autismo académicos são enormes, pois produzem pseudo-iluminados que olham para as outras áreas do saber com a condescendência de quem já conhece a verdade. Em países como o Reino Unido é impensável estudar apenas economia. Em Oxford, por exemplo, estuda-se economia, política e filosofia*. Em Portugal, a situação (que eu saiba) é radicalmente diferente. Independentemente de existirem razões históricas que o justifiquem, a separação da FEUNL da FCSH é um desastre nacional, pois institucionaliza uma separação entre a economia e as ciências sociais, contribuindo para uma clivagem entre as ‘letras’ (história, filosofia, sociologia, etc…) e a economia que trará custos significativos a longo prazo. Quando olhamos para o mundo como se este fosse uma realidade económica mais ou menos evidente, que cabe aos sacerdotes encartados interpretar correctamente, estamos a delegar responsabilidade em senhores com uma estriteza intelectual que faria os precursores da economia e da mão invisível corar de vergonha. Aprender com a crise também passa por repensar de forma radical o actual desenho e organização das nossas instituições universitárias.
*ao contrário do que diz um comentador deste post, os alunos de economia da London School of Economics também estudam matérias bastante diversas. Por exemplo, eu dei aulas de Introdução à Filosofia Política a alunos do primeiro ano de diferentes BA’s (a licenciatura inglesa), e alguns dos meus alunos eram estudantes de economia. Só para terem uma ideia do programa, deixo aqui uma lista dos autores: Platão, Aristóteles, Cícero, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Marx, Rawls. Cada um dos autores ocupava no mínimo uma semana. E cada aluno tinha de escrever dois essays e um exame, no final do ano…

Comentário de Antónimo
Data: 13 de Outubro de 2008, 16:14
em portugal as escolas de economia estão separadas, mas não é isso que as estraga. o grande drama é que algumas, como a da Nova e a da Católica, desprezam a história económica