À beira de um disparate
9 de Outubro de 2008 por Rui TavaresAminha última crónica poderia resumir-se assim: quando falamos da igualdade de acesso ao casamento civil não estamos perante os “direitos dos homossexuais”. Estamos perante uma coisa diferente: direitos dos cidadãos, que têm sido vergonhosamente negados aos homossexuais. A questão de princípio, para mim, está toda aqui. Escrevi essa crónica sem mencionar a palavra “partidos”. Hoje falaremos de táctica partidária e, em particular, de como o PS se prepara para cometer um grande disparate ao obrigar os seus deputados à disciplina de voto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Sim, eu sei: este assunto não estava no seu programa eleitoral do PS.
Mas o facto é que o BE e Os Verdes apresentaram propostas de alteração da lei. Perante isto, o PS tem apenas duas formas de se manter fiel à sua promessa (ou não-promessa): dar liberdade de voto aos seus deputados ou, se fosse para escolher a disciplina de voto, abster-se em bloco.
Mas o que o PS vai fazer é o pior de dois mundos: obrigar à disciplina de voto e votar contra, por medo de perder votos ao centro. Isto poderia fazer sentido táctico, numa condição: se o PSD fizesse o mesmo. Acontece que o PSD decidiu dar liberdade de voto aos seus deputados e pelo menos alguns votarão a favor. Nesta situação, o raciocínio muda: o PS passa a ter de se preocupar mais com os votos que perderá à sua esquerda, e não ao centro.
Peguemos no último estudo da Eurosondagem. Onde estão os melhores resultados do PS? Geracionalmente: entre os 26 e os 35 anos. Geograficamente: em Lisboa e no Porto. O que têm em comum estes dados? Muito simples: maior porosidade com o eleitorado do BE e, supõe-se, menos oposição ao casamento “homossexual”. Abaixo dos 26 anos, por comparação, o PS já perde três por cento para o BE.
Pode defender-se que só para uma minoria de eleitores este é um tema prioritário. O que interessa é saber quantos destes eleitores eram do PS e para quantos este não é um tema de identidade mas de igualdade, o que para um eleitor de esquerda pode ser decisivo. Sei uma coisa: os votos perdidos vão aumentar com o tempo, à medida que mais jovens chegam à idade eleitoral e a polémica se prolonga.
Já vimos este filme. As contradições de António Guterres em relação ao aborto foram o factor decisivo para o nascimento do BE – que, logo nas primeiras eleições a que concorreu, impediu o PS de chegar à maioria absoluta.
Dando liberdade de voto aos seus deputados, o PS dispersaria as perdas e estaria mais defendido. Se a alteração não passasse, poderia pôr as culpas na “precipitação” do BE e de Os Verdes. Se a alteração passasse, poderia dizer que a proposta não foi sua e que alguns deputados do PSD também votaram a favor.
Para jogar seguro, o PS poderia abster-se. Mas, ao votar contra, o PS não garante apenas que o casamento “homossexual” seja chumbado.
Garante que este venha a ser um tema prolongado, tal como foi o aborto durante dez anos. Chegarão entretanto mais eleitores jovens e urbanos, ainda mais difíceis de disputar com o BE. Para estes, a história será simples: em Portugal, há discriminação legal contra homossexuais (ao contrário do que diz a Constituição e do que se passa em Espanha) e a culpa é do PS. Santo amadorismo.
08.10.2008, Rui Tavares

Comentário de Luis Rainha
Data: 9 de Outubro de 2008, 11:28
Não estou bem a ver a relevância de “os melhores resultados do PS” estarem em Lisboa e no Porto. Para tal analisarmos, teríamos de ver a quantos votos ficou o PS de eleger mais ou menos deputados nestes círculos. E esse “supõe-se” quanto às opiniões dessa faixa é bem arriscado: nem todos os jovens de Lisboa vivem nas imediações do Agito.
A aritmética continua confusa na história do BE ter tirado a maioria a Guterres; quantos votos teriam ido para o PS e, em alternativa importante, para o PC, em caso de inexistência do Bloco? (sem esquecer que nessas eleições a abstenção aumentou bastante.) E este nasceu mesmo a propósito do aborto? Não me parece.
E quem nos garante que o que o PS deseja não é mesmo o prolongamento deste discussão por mais uns tempos, até à sua resolução final, no calendário e nas condições que mais convenha à táctica do momento? Acusar o PS de amadorismo nestas embrulhadas é o mesmo que chamar “inocente” a Maquiavel.