À beira de um disparate

Aminha última crónica poderia resumir-se assim: quando falamos da igualdade de acesso ao casamento civil não estamos perante os “direitos dos homossexuais”. Estamos perante uma coisa diferente: direitos dos cidadãos, que têm sido vergonhosamente negados aos homossexuais. A questão de princípio, para mim, está toda aqui. Escrevi essa crónica sem mencionar a palavra “partidos”. Hoje falaremos de táctica partidária e, em particular, de como o PS se prepara para cometer um grande disparate ao obrigar os seus deputados à disciplina de voto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Sim, eu sei: este assunto não estava no seu programa eleitoral do PS.

Mas o facto é que o BE e Os Verdes apresentaram propostas de alteração da lei. Perante isto, o PS tem apenas duas formas de se manter fiel à sua promessa (ou não-promessa): dar liberdade de voto aos seus deputados ou, se fosse para escolher a disciplina de voto, abster-se em bloco.

Mas o que o PS vai fazer é o pior de dois mundos: obrigar à disciplina de voto e votar contra, por medo de perder votos ao centro. Isto poderia fazer sentido táctico, numa condição: se o PSD fizesse o mesmo. Acontece que o PSD decidiu dar liberdade de voto aos seus deputados e pelo menos alguns votarão a favor. Nesta situação, o raciocínio muda: o PS passa a ter de se preocupar mais com os votos que perderá à sua esquerda, e não ao centro.

Peguemos no último estudo da Eurosondagem. Onde estão os melhores resultados do PS? Geracionalmente: entre os 26 e os 35 anos. Geograficamente: em Lisboa e no Porto. O que têm em comum estes dados? Muito simples: maior porosidade com o eleitorado do BE e, supõe-se, menos oposição ao casamento “homossexual”. Abaixo dos 26 anos, por comparação, o PS já perde três por cento para o BE.

Pode defender-se que só para uma minoria de eleitores este é um tema prioritário. O que interessa é saber quantos destes eleitores eram do PS e para quantos este não é um tema de identidade mas de igualdade, o que para um eleitor de esquerda pode ser decisivo. Sei uma coisa: os votos perdidos vão aumentar com o tempo, à medida que mais jovens chegam à idade eleitoral e a polémica se prolonga.

Já vimos este filme. As contradições de António Guterres em relação ao aborto foram o factor decisivo para o nascimento do BE – que, logo nas primeiras eleições a que concorreu, impediu o PS de chegar à maioria absoluta.

Dando liberdade de voto aos seus deputados, o PS dispersaria as perdas e estaria mais defendido. Se a alteração não passasse, poderia pôr as culpas na “precipitação” do BE e de Os Verdes. Se a alteração passasse, poderia dizer que a proposta não foi sua e que alguns deputados do PSD também votaram a favor.

Para jogar seguro, o PS poderia abster-se. Mas, ao votar contra, o PS não garante apenas que o casamento “homossexual” seja chumbado.

Garante que este venha a ser um tema prolongado, tal como foi o aborto durante dez anos. Chegarão entretanto mais eleitores jovens e urbanos, ainda mais difíceis de disputar com o BE. Para estes, a história será simples: em Portugal, há discriminação legal contra homossexuais (ao contrário do que diz a Constituição e do que se passa em Espanha) e a culpa é do PS. Santo amadorismo.

08.10.2008, Rui Tavares

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