Da tradução para o acordo ortográfico

Não sei se seria essa a intenção original do autor, mas como comentário (assinado por “Antónimo”) ao texto da Fernanda encontra-se um excelente argumento a favor do acordo ortográfico da língua portuguesa. Passo a transcrevê-lo (ligeiramente adaptado para este contexto):

Embora as editoras mais do que abusem (por exemplo, é raro pagarem direitos de autor – só o fazem a consagrados -, escondem as vendas a sete chaves e os livros que saem aí com jornais e revistas – tiragens de 30 mil exemplares – têm um custo de produção de 90 cêntimos) é um bocado complicado os livros em português ficarem ao preço de um da Penguin, não é?
Uma Guerra e Paz da Penguin, em inglês tem centenas de milhões de leitores. Até podiam dar os livros que não se sentia. Não há direitos de autor e imagino que as traduções foram pagas há décadas. Se os nossos leitores ainda preferem ir comprá-los em vez dos desgraçados três mil exemplares que a exemplar tradução portuguesa não esgota, mesmo se publicada desde 2005, a coisa piora.
No fundo, paga 15 euros por uma coisa que não custou nada a produzir em vez de pagar 60 euros por algo que custou consideravelmente mais.

Pois é, Fernanda, o que falta para termos livros baratos em português é um verdadeiro mercado global do livro em língua portuguesa!

(Já agora: à entrada da livraria do Instituto Superior Técnico está um anúncio desta editora onde ela se gaba de publicar “autores nacionais”, e recomenda aos estudantes que escolham os livros por ela publicados em detrimento das “traduções brasileiras” (inclui mesmo a frase “Não estudes por traduções brasileiras!”). Esta editora tem desenvolvido um trabalho meritório na publicação de bons livros técnicos de autores portugueses. Mas precisava de os “promover” utilizando um “argumento” tão mesquinho e rasteiro?)

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31 respostas a Da tradução para o acordo ortográfico

  1. ezequiel diz:

    (ref. aos livros em port) ou um “mercado global” ou então pões a malta, cada um de nós, a ler uns 10 livrinhos por semana…seria um mercadinho mais pequenino mas, quiçá, mais interessante….uma ditadura canónica! Ora toma: Shakespeare de manhã, Pessoa ao almoço e Bataille mesmo antes da soneca…:(

  2. JDC diz:

    Eu que estudei engenharia, fui muitas vezes confrontado com as traduções para o brasileiro de obras inglesas importantes. E da experiência que tenho só posso dizer, de facto, muito mal dessas traduções. O defeito mais flagrante é o “aportuguesamento” de alguns termos técnicos ao invés de se usar a palavra portuguesa correcta. Por isso, não se trata de um argumento tão rasteiro quanto isso, a verdade é que, pelo menos as traduções que me passaram pelas mãos, são de fraca qualidade em termos técnicos…

  3. Luís Lavoura diz:

    1) O acordo ortográfico não levará a um mercado global de livros em português, uma vez que o português é uma língua inexistente: as diferenças (inclusivé gramaticais) entre o brasileiro e o português são demasiadamente grandes. Não é pela facto de meia-dúzia de palavras passarem a escrever-se de forma idêntica que os leitores de um país (Portugal ou Brasil) deixarão de estranhar um livro escrito na língua do outro.

    2) Não estou convencido que o problema do preço dos livros em Portugal seja apenas um problema de economias de escala. Ainda recentemente estive em Estocolmo e vi nas livrarias livros em sueco a um preço verdadeiramente espantoso, de tão baixo. A Suécia terá certamente mais leitores do que Portugal, mas não será uma diferença tão abismal quanto a dos preços.

  4. joão viegas diz:

    Completamente em desacordo com os dois pontos do Luis Lavoura. Tanto num como no outro é possivel conferir e ver o que é a realidade.

    1/ Francamente, so por snobismo um português ira preferir uma (boa) tradução inglesa a uma (boa) tradução em português do Brasil. Falo por mim, mas julgo também que por muitos outros, ou acaso as pessoas vêm as telenovelas em versão inglesa ??? Ja agora, alguém se preocupou em saber se existe uma edição brasileira do Guerra e Paz com tradução directa do russo (pergunta minha, não sei a resposta) ?

    2/ Seria bom que O Luis Lavoura nos desse numeros relevantes. Nao se deve comparar a população da Suécia com a de Portugal, mas sim a de pessoas com habitos de leitura (e portanto compradores de livros) nos dois paises. Não tenho dados, mas darei a mão à palmatoria se me mostrarem que as realidades dos dois paises são comparaveis.

  5. Ricardo Santos Pinto diz:

    Tudo começa na escola ou, antes ainda, na família.
    Quando vemos, no ensino, o massacre que os alunos sofrem em relação à gramática, em detrimento da literatura pura, percebemos por que razão os portugueses não gostam de ler.

  6. Luis Rainha diz:

    João,
    Snob serei; mas livros em brasileiro só mesmo técnicos ou BD… e porque tem mesmo que ser. Mas isso não responde à inquietação do Luís: o que nos separa do “brasileiro” está longe de ser apenas a ortografia. Para o confirmar, basta ver alguns minutos de uma telenovela da Globo. E quanto a isso da internacionalização, duvido que um livro português consiga chegar a preço competitivo ao Brasil.

    Mas a questão da escala do nosso mercado é inevitável: se se pagarem 2.000 euros pela impressão e 1.000 pela tradução, quanto se poderá pedir por um livro, tendo em conta que teve 1.000 exemplares e metade do dinheiro fica logo na distribuição e no livreiro (quanto a estes últimos, em muitos casos até fica lá tudo)?

  7. Helena diz:

    Completamente de acordo com o Luis Lavoura. 😉

    A palermice dessa publicidade reside no facto de ser supérflua: qual é o estudante português que gosta de estudar por livros traduzidos para “brasileiro”?

    Não é só a questão da terminologia ser diferente nos dois países, como o João Roque Dias explicou num artigo muito interessante, onde descrevia o motor de um automóvel em “portugalês” e em “brasileiro”.
    É também a questão da qualidade dos tradutores. Conheço um pouco o mercado de tradução brasileiro, os baixíssimos preços praticados. Se uma pessoa depende realmente do trabalho para viver, não tem como fazer boa tradução literária.
    Se é para juntar os dois mercados, e pôr os portugueses a ler traduções feitas muito à pressa por tradutores brasileiros…
    Não, não são todos assim. Conheço alguns tradutores que são exemplares. E até ganham bem, conseguiram um pequeno nicho de mercado. Mas não trabalham para as editoras, a não ser quando lhes dá para escuteiros da língua.
    E são as editoras que decidem os preços da tradução literária, pouco ou nada preocupadas com a qualidade do produto final.

    Já contei aqui? Fui eu quem inventou uma coisa horrível, chamada “português neutro”, para uso de portugueses e brasileiros. Não funcionou, morro de vergonha.
    Alguém pode fazer o favor de aprender a partir dos meus erros?

  8. joão viegas diz:

    Meus amigos : o que se segue é um desabafo, pois não tenho tempo para um texto mais argumentado, que a importância do assunto e a qualidade (pelo menos sofistica) dos argumentos requerem. E não deixarei por isso de me informar sobre a experiência do “português neutro” a que alude a Helena.

    Agora tenham paciência mas o vosso “snobismo” é também um tiro no pé e, ja agora, uma marca de desprezo pela vossa cultura. Isto não me surpreende num pais em que as chamadas “elites” culturais foram durante séculos fabricadas numa universidade que vivia de costas voltadas para o pais. A literatura portuguesa que vocês lêm (mas sera que lêm mesmo, nao preferem antes a literatura americana, como ontem preferiam a francesa ?) foi sempre feita à margem de Coimbra, e muitas vezes contra Coimbra, não se esqueçam disso.

    Portanto quando franzem o nariz diante do portugûes do Brasil (que é a mesma coisa que afirmar que Graciliano Ramos, Machado de Assis ou Guimarães Rosa não têm nada a ver com Portugal) estão a reagir como se vos incomodasse admitirem que têm um primo transmontano que não cheira ao perfume da moda.

    Isto é triste e contraproducente. Quem lê Machado de Assis lê um livro escrito em português, enriquece a sua cultura portuguesa. Experimentem…

  9. “O acordo ortográfico não levará a um mercado global de livros em português, uma vez que o português é uma língua inexistente: as diferenças (inclusivé gramaticais) entre o brasileiro e o português são demasiadamente grandes.”

    Luís Lavoura, dê-me lá um exemplo de uma diferença gramatical entre o português europeu e o do Brasil. Já no seu segundo ponto admito que tenha alguma razão, embora um mercado global do livro em português o tornasse mais barato.

    Luís Rainha:

    “Mas isso não responde à inquietação do Luís: o que nos separa do “brasileiro” está longe de ser apenas a ortografia. Para o confirmar, basta ver alguns minutos de uma telenovela da Globo.”

    Se em vez das novelas da Globo te deres ao trabalho de assistir a alguns programas da SIC Radical verás que muito te separa do português falado pela geração dos teus filhos.

    Se por outro lado vires uma telenovela escrita pelo Miguel Falabella ouvirás uma gramática muito boa.

    “E quanto a isso da internacionalização, duvido que um livro português consiga chegar a preço competitivo ao Brasil.”

    Francamente, estou mais interessado em ter livros do Brasil a preços competitivos em Portugal. Se bem que nem é essa a razão principal que me leva a defender o Acordo Ortográfico.

    João Viegas, completamente de acordo contigo. Principalmente com o comentário das 12:10.

  10. manuela diz:

    “o que nos separa do “brasileiro” está longe de ser apenas a ortografia.”

    Não só está longe de ser a ortografia como a ortografia é de importância menor, neste caso. Se algumas palavras se ‘unificaram’, outras que se escreviam da mesma maneira passaram a ter duas grafias. E mais e mais absurdo, depois de tanta preocupação com as diferenças ortográficas nos dois países, há agora grafias oficiais desaconselhadas para um país e para outro.

    Afinal, há ou não unificação? Há é baralhação. De meia dúzia de palavras com escrita dupla (ouro/oiro) passámos a uma catefrada delas e, para nós portugueses, não vai ser fácil sem a listinha ao lado saber em que situação podemos ou não manter o modo como escrevíamos antes.

    O que nos separa da norma brasileira é essencialmente o léxico e alguma sintaxe e a isto não há acordo que lhe valha.

  11. Luís Lavoura diz:

    João Viegas, note por favor que eu escrevi

    “A Suécia terá certamente mais leitores do que Portugal”

    e portanto comparei o número de pessoas com hábitos de leitura, e não as populações totais, dos dois países.

    Quanto a números exatos, não lhos posso dar, claro, mas digo-lhe que vi livros nas livrarias de Estocolmo que, se fosse em Portugal, não tenho dúvidas, estariam certamente a um preço três vezes maior, se não mesmo mais.

    E posso ampliar a minha descrição e dizer-lhe que isto não é totalmente surpreendente, uma vez que há muitas outras coisas, a começar pela comida, que em Portugal são mais caras do que alhures na Europa, apesar de a nossa mão-de-obra ser muito pior paga. Creio que há um problema global de ineficiência na economia portuguesa, o qual problema leva a que os preços sejam exuberantemente altos. Nos livros o problema é agravado pela reduzida dimensão do mercado – mas não creio que esse seja o único, e se calhar nem será o principal, problema.

  12. JPG diz:

    Quando os “argumentos” dos pró-acordo se resumem a insultos, é difícil contra-“argumentar”, sem descambar também para a mais pura grosseria, senão com mais do mesmo. Mas tentemos conservar a calma e a educação, sem descer a esse nível.

    O que aquela editora faz é lutar pela sua sobrevivência. Nada de mais legítimo e de mais humano, já que uma editora é um conjunto de pessoas.

    “Mesquinho” e “rasteiro” (para não dizer mais nada) é negar esse direito fundamental seja a quem for.

  13. Hummmmm
    Mesquinho e rasteiro sempre foi a posição do Brasil e da Sociedade Civil Brasileira face aos Meninos de Rua. Deixem lá a Língua e fiquem em bicosde pés para tratar dos seus problemas éticos!

  14. Desacordado diz:

    Não é em vão que o recém-condecorado EDUARDO LOURENÇO é o 4º signatário da PETIÇÃO ANTI-ACORDO.
    Será que ele não pensou?
    manuela: não passamos, nem iremos passar. O “acordo” é uma última sobrevivência do autoritarismo que, felizmente, já não tem força. Nem o gosto acrítico pela “novidade” é já suficiente para que se modifique por decreto uma Lingua, degradando-a e tornando-a a-histórica. Vejo por todo o lado – no Brasil e aqui – uma atitude de rejeição.
    Seria bom que os governos dos dois países, países vergonhosamente iletrados, gastassem o seu tempo e dinheiro em esforços substantivos e materiais para melhorar cosias simples como a leitura. Peça-se a 3 ou 4 bons alunos do 11º ou 12º anos para lerem um texto – pode ser de jornal – e pasme: não sabem ler! Engasgam-se, lêem muito mal! Aconselho o teste.
    Quanto a um mercado global: não é motivo para mudar a ortografia, mas a sintaxe é diferente, a colocação dos pronomes é diferente, o uso, até em textos universitários, de expressões do género “eu vi ele”, um erro aqui, é comum, o léxico é diferente, etc. Um “senhorita” e um “terno marron” num conto russo do séc XIX arruina qualquer leitura…
    O acordo é uma sobrevivência das crenças maçónicas (que produziram o esperanto etc) Mas, também a maçonaria tem de evoluir.

  15. Helena diz:

    Algumas informações sobre “português neutro”, para o João Viegas:
    Foi inventado para fazer uma tradução que servisse aos dois países, Portugal e Brasil. O primeiro erro foi achar que bastava usar o acordo ortográfico, e estavam todos os problemas resolvidos. O segundo erro foi não ter decidido qual é o país que ganha, em caso de incompatibilidade.
    Alguns exemplos de palavras impossíveis de traduzir simultaneamente para os dois países: warehouse, file, billion (americano). E é sem entrar nos pormenores dos nomes das peças que compõem uma máquina – aí, podem esquecer.

    Se optarem por ler os livros em brasileiro, terão de aprender nova terminologia. Soube de um filme português transmitido no Rio que, além de ter legendas, tinha direito a distribuição de glossário à entrada do cinema.
    A médio prazo, significa que a maneira portuguesa vai desaparecer. Aliás, já se está a alterar: já ninguém diz bicha de carros, por exemplo.

    O que estão a propor é, a título de poupar dinheiro no preço dos livros, aceitar uma bruta sacudidela na língua falada em Portugal – e refiro-me ao significado das palavras, não à forma de as escrever. Uma outra questão, de que já falei, é a da qualidade dos textos traduzidos para brasileiro – porque as editoras, para poupar dinheiro, levam o tradutor que pede menos.
    Se querem ir por aí…

    Uma última questão: não tenho o menor problema em ler boa literatura brasileira. Conhecem “Lavoura arcaica” de Raduan Nassar? Ou “Miséria e Grandeza do Amor de Bendita”, de Ubaldo Ribeiro?
    Recomendo!

  16. André diz:

    as traducoes brasileiras nao me satisfazem…comprei uma traducao brazuca de um importante pensador europeu. li umas quantas linhas e fiquei com a impressao que estava a ler o guiao de uma telenovela. nao da nao. blaaa. nacionalismo cultural nao. nunca. mas temos o direito a escolher. eu escolho as traducoes luso.

  17. André diz:

    Helena,

    sim, ja ninguem diz bicha de carros.

    mas o termo tem novas conotacoes, bastante mais salientes e significativas

  18. joão viegas diz:

    Resposta rapida à Helena,

    Muito obrigado pela informação. Trata-se de facto de uma experiência interessante.

    Penso que ninguém duvida que existem diferenças entre as duas variantes do português. O universo linguistico que identificamos com uma lingua nacional nunca foi, nunca sera, nem nunca poderia ser, monolitico. Eu, quando leio Aquilino Ribeiro, tenho varios dicionarios ao pé de mim (muitos deles brasileiros, por sinal). Então se formos para as questões técnicas, maquinarias complicadas, etc., teremos dezenas de variantes, não so entre Portugal e o Brasil, mas provavelmente entre Lisboa e o Porto, e por ai fora…

    Não penso que o acordo tenha como objectivo pôr termo a essa situação. Pessoalmente, o acordo não me choca enquanto medida, modesta, em grande parte simbolica, de aproximação das duas grandes variantes do Português. Aproximação que não visa a que uma variante faça desaparecer a outra, mas apenas que as duas se possam alimentar uma da outra. Dito isto, não sou especialista e, se do ponto de vista técnico, fôr ponto assente que o acordo tem efeitos inversos aos pretendidos, serei o primeiro a dizer que deve ser abandonado.

    Outra questão, muito mais vasta e muito mais importante, é a de saber se devemos continuar de costas voltadas para o Brasil, como se não houvesse la um legado importantissimo da nossa cultura. Fazêmo-lo por medo. Por muito que me expliquem o contrario, o que eu vejo nas reacções de aversão ao português do Brasil é medo e mais nada. Medo de sermos absorvidos por algo maior, medo de perdermos o controlo do nosso mercado editorial, medo de passarmos a sermos considerados como uma pequena provincia, etc.

    Eu francamente, não sei se devemos ter tanto medo. Os Brasileiros reclamam-se da nossa cultura. Estudam-na na escola. Editam os nossos autores (às vezes melhor do que nos…). Para preservar Camões, confio muito mais nos Brasileiros do que… nos Americanos ou nos Franceses.

    E para dizer a verdade, ja estive mais longe de confiar mais nos Brasileiros do que… nos proprios Portugueses. Mas ai é de certeza ignorância da minha parte !

  19. Luis Rainha diz:

    Filipe,
    Como sabes, não preciso da SIC Radical; tenho lá em casa 5 miúdos… Ma não estou a criticar a gramática das novelas; a maneira como eles se expressam, oralmente e não só, é que é mesmo diversa da nossa.

  20. manuela diz:

    Desacordado, se tem ilusões, perca-as, o processo não tem retorno. Agora basta apenas um simples despacho do Ministério da Educação a informar que no ano lectivo seguinte o acordo ortográfico entra em vigor na 1ª classe, que tudo começa a rolar em rede. E simultaneamente um outro para a administração pública com a obrigatoriedade da nova norma. São milhões de pessoas em movimento.

    Já este ano ouvi resmungos quanto ao facto de não se ter começado no 1º ciclo. A verdade é que isso só acontecerá quando os livros escolares, dicionários, gramáticas, estiverem prontos.

    Não há modo nenhum de justapor a norma portuguesa e a brasileira, quer pelo léxico quer pela morfologia e sintaxe, não falando já nos idiomatismos. E basta ver que o contexto em que em Portugal o ‘você’ é usado nada tem a ver com o que se passa no Brasil.
    Haverá sempre livros para Portugal e livros para o Brasil, a menos que decretem também que temos que passar a dizer camisola em vez de camisa de dormir, rapariga em vez de prostituta e filé mignon em vez de lombinho.

    É um processo político, não vale a pena tentar encontrar muita racionalidade linguística nisto. Funcionou ao contrário, não partiu da língua para a reforma mas da decisão política para a língua. E um processo caro, vai custar muito dinheiro renovar as bibliotecas escolares e as secções infantis das bibliotecas municipais e locais.
    Porque espero que, pelo menos, tenham o bom senso de não induzir em erro quem está ainda na fase de aprendizagem.

  21. Espanto diz:

    manuela: não tem retorno? Tem todo o retorno. Isto é uma democracia o que, por incrivel que parece, tem implicações. Não se pode legislar e governar à naifada e a asneira tem limites.
    Desde que as pessoas não desistam de ter bom senso tudo está muito a tempo de ter remédio e há muito por fazer. Pôr a coisa como um facto consumado é uma desistência injustificada-
    Se o ministro não sei quê, a gente responde com um não. Ainda não deixei de me surpreender com a quantidade de gente, de todas as idades, políticas e temperamentos que se indigna fortemente com esta saloiada.
    É um processo político, mas de políticos mediocres. Essencialmente a coisa foi cozinhada por meia dúzia de académicos brasileiros nacionalistas e depois vendido com o auxílio dos adjuvantes costumeiros, contando com vaidades, e servindo-se de comendas, doutoramentos honoris causa, lugares em rendodas “biliografias aconselhadas” e amizades maçónicas. Haverá os idiotas úteis costumeiros , que acreditam sinceramente que a lingua evolui muito – confundem a degradação provocada pelo analfabetismo com a evolução… e não se perguntam porque há-de evoluir o português do Brasil mais do que o francês o inglês… Enfim, é uma última manifestação do séc XIX e do autoritarismo rural dos dois países – os dois em lugares vergonhosos em todos os índices de educação. E os dois com gente com fomes. Haja paciência!

  22. manuela diz:

    Espanto, a partir do momento em que a nova ortografia entre nas escolas, não há nada a fazer, é uma engrenagem fortíssima e muito vasta. A agir, teria que ser antes, mas mesmo o movimento de cidadãos, onde se inclui Eduardo Lourenço e outros, não teve grande eco na atitude das pessoas.

    Sinceramente, e com pena o digo, para a maioria da população isto nem um caso é. Se vem facilitar (pensam eles), que venha. E mesmo quem tem alguma opinião sobre a mudança não vê mal de maior.

    Claro que a língua evolui, mas aquilo que evolui na língua é ‘inacordável’, tanto mais que a ortografia não é mais do que uma convenção destinada a representar graficamente os sons. Se fossemos por aí e voltássemos à escrita fonética, então é que teríamos, nós e o Brasil, ‘tanto mar a nos separar’ e qualquer afinidade entre as duas variantes seria irreconhecível.

  23. ana diz:

    5 miúdos?? Poças….

    Nunca tive problemas em ler literatura brasileira, e até gosto de encontrar termos que não conheço, despertam a imaginação, tal qual muitos dos termos e forma de escrever do Aquilino. Mas nós, portugueses, na literatura, estamos virados de costas para o resto do mundo. Conhecemos os best sellers e os nobeis, mais nada! A política das nossas editoras foi sempre apostar em valores seguros ou nos gostos pessoais de um ou outro editor. Por isso é que receio os efeitos Leya, tanta concentração editorial pode levar a maus resultados, e lá se restringe ainda mais a variedade.

    Mas publica-se muito em Portugal, oh se publica…edições de 1000 ou 2000 exemplares, pagas pelos autores ou por autarquia amiga, mas editadas com uma chancela qualquer, muita poesia, muito romance vagamente autobiográfico, muita espécie de qualquer coisa. Fazem o desespero dos bibliotecários.

  24. joão viegas diz:

    Manuela :

    Diz bem : “a ortografia não é mais do que uma convenção destinada a representar graficamente os sons” (da lingua falada) mas isto so se consegue mediante esquematização e simplificação (que é a base da convenção). Ora, precisamente por essa razão, nunca houve, nem nunca havera, uma ortografia que se limite a ser “escrita fonética”.

    Estas mesmas razões levam-me a estar com a maioria, que não vê grande mal, nem grande perigo, neste acordo, e que até acredita que o acordo vai permitir que os locutores das duas variantes do português passem a usar uma mesma norma ortografica (o que não era o caso até hoje).

    Eu gostava de saber que danos pensa vão ser produzidos pelo acordo. Acha mesmo que pour causa dele os locutores de Portugal vão deixar de falar como falam hoje em dia ? Ou que o acordo vai ter uma influência determinante na evolução da lingua falada ca e no Brasil ? Para além do incomodo de chocar com habitos estabelecidos, qual é o mal ? Onde esta o perigo ? Sera por se perderem marcas escritas que são testemunho da historia da lingua e mais propriamente do português continental ? Mas essa critica não se poderia dirigir da mesma forma à anterior reforma ?

  25. mariana diz:

    choca-me uma linguista (suponho) dizer que já ninguém diz “bicha de carros”. é o maldito centralismo linguístico lisboeta que faz orelhas moucas a 8 milhões de falantes. e depois ainda vêm falar de domínio do brasileiro…

  26. manuela diz:

    João, não há realmente línguas fonéticas puras, mas aquilo a que se chama língua fonética é aquela em que a cada som corresponde um só signo gráfico e as palavras são escritas como são pronunciadas. É o caso do espanhol, com pequenas excepções.

    “que até acredita que o acordo vai permitir que os locutores das duas variantes do português passem a usar uma mesma norma ortografica (o que não era o caso até hoje).”

    Mas é que não vai haver mesmo.
    O João veja:

    Antes (P. e B.) – acepção / percepção /
    Depois – aceção ; acepção / perceção ; percepção
    Nota :
    ‘aceção’ / ‘perceção’ não é aconselhável no Brasil
    ‘acepção’ ; ‘percepção’ não é aconselhável em Portugal

    Sabe quantas palavras estão nestas condições, não aconselhadas num país ou no outro? Milhares, presumo. Ainda não tive pachorra para as contar, mas só até à letra E são 258.
    Onde é que está a unificação gráfica, o pretexto para o acordo?

    Acho sim, que o afastamento do ramo da família europeia é um inconveniente e vai afectar milhares de palavras de raiz gráfica comum.
    Mas o pior nem é isso, o pior é a confusão que vai originar entre os ‘escreventes’ portugueses. No Brasil esse problema nem sequer se põe.

    /Eu e qq português, suponho, dizemos ‘rececionista’. Portanto há que tirar o ‘p’ mudo, pensamos nós.
    Por outro lado desconheço que no Brasil se pronuncia ‘recepcionista’, logo o ‘p’ mantém-se.
    Aquele erro que eu emendo a um filho, amigo, explicando pedagogicamente a regra, até nem é um verdadeiro erro afinal, porque o acordo veio legitimar as duas ortografias.

    /Por outro lado, eu também pronuncio ‘Egito’. Logo, seguindo a lógica que subjaz à mudança, vou toda pressurosa eliminar o ‘p’ da minha escrita. Até descobrir um dia que fiz mal, porque essa palavra não aparece sequer na lista das mudanças.

    /Digo ‘cepticismo’ e, inocentemente induzida pelo Egipto, mantenho a minha letrinha na escrita. ‘p’ após ‘p’, por fim lá entendo que, apesar de claramente o pronunciar, não é aconselhável escrevê-lo em Portugal.

    O João acha esta indefinição aceitável numa língua que, bem ou mal, tinha regras bem definidas nesta área? E multiplicada por milhares de palavras?
    Quando e como serei capaz de finalmente dominar todo o vocabulário ou inferir as excepções à regra?
    Nunca, parece-me.

    E sabe, se houvesse ganhos reais que compensassem a barafunda e a dificuldade que se prevê na aprendizagem de regras flutuantes, até se entende que se tentasse unificar a língua. Não há. Não só não acaba a dupla ortografias (porque dependente da pronúncia nos respectivos países) como se criam outras que não existiam antes. Nós, portugueses, vamos andar muitos anos às aranhas e de dicionário na mão.
    As verdadeiras diferenças de entendimento entre o português europeu e o do Brasil, essas permanecem inalteráveis. É o que se chama perder a viagem e o dinheiro.

  27. Espanto diz:

    Falta de eco? Indiferença da maioria? 100 000 assinaturas numa petição?
    Não sei o que queria.
    engrenagem? As engrenagens param-se.
    Acho engraçado estas grandes almas para quem a ortografia seria uma coisa de somenos, uma futilidade.
    Porque estarão contra esta reforma (como estiveram contra as anteriores) os grandes criadores portugueses?
    É também engraçados não se ver grande perigo. Será que leram o texto do “acordo”? É que, mesmo quem concordasse com uma reforma deste tipo, não teria muitos motivos para discordar desta mesta, que é má, como é afirmado aqui e no Brasil por gente que deve ser ouvida.

  28. Espanto diz:

    Manuela: cheio de sono reparo no meu comentário cheio de lapsos: não teria motivos para concordar, queria dizer.Peço desculpa
    Apenas estranho que ache que a maioria está indiferente. Não está! Fico surpreendido com as pessoas que estão contra e que nem sequer assinaram a petição (quase 100 000 ! Nunca houve igual!) por não terem net.
    Não seja pessimista!
    Ah, o que acho estranho é o pouco poder da evidência entre nós. As pessoas vêem que haverá duplas grafias, como as que menciona e falam da grafia unificada!
    Não há dúvida que este “acordo” é acima de tudo um sintoma do nosso grande atraso.

  29. joão viegas diz:

    Cara Helena,

    Os seus argumentos são de facto dirigidos ao ponto que me parece essencial : se o acordo dificulta a aprendizagem da escrita sem promover eficazmente o uso da mesma norma grafica nos dois paises, então não atinge os objectivos.

    O que eu (que não sou especialista) percebo é o seguinte : dadas as diferenças fonéticas entre as duas variantes, era de prever que o acordo desse uma machada nas regras de ortografias cuja logica subjacente assentava precisamente na coerência com a fonética (e, mais precisamente, com a maneira como era pronunciado o português educado do inicio do século em Coimbra e em Lisboa). Portanto as dificuldades que sublinha eram inevitaveis, pelo menos a partir do momento em que se tratava de encontrar uma norma intermédia.

    Nos seus comentarios, muitas criticas estão ligadas ao facto do acordo não ter substituido essas regras por outras arbitrarias mas claras. Optou-se antes pela liberdade, provavelmente (suponho eu) por se temer que as pessoas recusem abandonar os seus habitos. Isto, diz, causa confusão, dificuldades na aprendizagem, etc. Como se deve ver, ainda não integrei suficientemente as novas regras para ter opinião formada. A priori, não me choca que algumas palavras possam ter varias grafias e noto que era o caso sob a norma anterior. Portanto não se trata de uma questão de principio, mas antes de medida. A ver vamos…

    A unica coisa que me parece inquestionavel é que não podemos continuar numa situação em que os Portugueses do continente preferem ler em inglês ou em francês do que em português do Brasil…

  30. manuela diz:

    Não sei se ainda alguém vai voltar aqui, mas queria apenas rematar com duas ou três coisas.

    Espanto, o meu meio profissional é uma óptima amostragem e posso garantir-lhe que não só não existe oposição sistemática como até há um razoável grau de concordância. Mas para lhe dizer a verdade, o que predomina é a indiferença. Não ligam muito, dizem que na prática tanto faz, não é importante assim ou assado.

    ____________________________________________________

    João, creio que a sua resposta era para mim apesar de dirigida à Helena.

    Não há liberdade nenhuma de opção por uma escrita ou outra, o que há é uma enorme lista de palavras que desenvolveram ao longo do tempo pronúncias diferentes num lado e no outro do Atlântico. E a escrita múltipla é incontornável face à filosofia do ‘deve escrever-se como se diz’ com que quiseram convencer-nos.

    Num acordo que faz de conta ser de unificação ortográfica, não há outro remédio senão fingir que as duas ou as três grafias (leu bem, três: microeletrónica, microeletrônica, microelectrônica) são válidas para os dois países, mas na prática só Portugal é que fica com a indefinição, o Brasil continuará a escrever como sempre fez. Vai também ter que se adaptar a mudanças mas na área da acentuação, algumas regras do hífen, algumas maiúsculas.

    Mesmo que eu queira entrar na nova ortografia orientando-me apenas pela pronúncia, terei sempre que andar com a lista no bolso. Como é óbvio, desconheço o que os reformadores consideraram pronúncia culta (foi o que alegadamente norteou a manutenção ou eliminação das consolantes mudas) e qual o critério, pois já encontrei algumas que não coincidem com o modo como as digo.

    Digo ‘Egito’ mas mantém-se Egipto. Digo ‘caracterização’, mas o ‘c’ não é aconselhável em Portugal. O que quer dizer que, apesar de haver falantes que o dizem, os normativos resolveram eliminá-lo.

    O João acha isto mesmo admissível? Razoável? Honesto? Quem tem autoridade para tentar mudar a minha pronúncia, afinal? Penalizar-me se eu insistir em transcrever para a escrita a minha verdadeira língua?

  31. Marcos (Brasil) diz:

    Há muito tempo, vi um filme português em que a mocinha dizia ao amado “amo-te”. Soou estranhíssimo, pois no Brasil qualquer um diria “te amo” (e nunca “amo-te”). Mas as gramáticas brasileiras insitem em afirmar que, na norma culta, nunca se inicia frase com um pronome oblíquio. No Brasil, estudar a norma culta do português é quase como estudar um idioma estrangeiro, de tão afastada que é do padrão popular. Após muitos anos de escola e de esforço, se aprende a escrever “ter-se-á” e “peguem-na”, mas nas ruas sempre se ouvirão “se terá” e “peguem ela”. Imagino que em Portugal, essa dicotomia seja menos profunda.

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