Dos bois-de-piranha e do nosso insaciável apetite pelas suas costeletas

Citando um meu querido amigo, já não há cu para isto do casamento entre homossexuais. No entanto, até eu, que lamento o facto de ninguém ter proibido o meu próprio casamento há umas décadas, aceito sem urticária que eles se casem. Querem atolar-se num huis clos de sofrimento, intolerância, claustrofobia e abjecção? Entrem, entrem, que o comboio não pára.
O nosso convívio – enquanto agentes dotados de uma coisa estranhamente parecida com o livre arbítrio – com a estrutura social de que somos parte é por vezes ambivalente e desconfortável (por mim, detesto que me possam mandar para o chilindró por cultivar umas certas plantas decorativas na minha varanda; mesmo que, monstro do egoísmo, as queira fumar todinhas, sem partilhar uma só folha viçosa). Claro que o casamento entre homossexuais mexe com os constituintes mais profundos da nossa identidade: que a sexualidade de cada um determine os compromissos que o Estado nos permite assumir, eis algo de incompreensível. E algo que, não duvido, vai por certo acabar em breve.
A questão chave é mesmo a ocasião escolhida para agitar este assunto. Lembram-se das eleições americanas de 2004? E de como os republicanos adicionaram aos boletins eleitorais, em vários estados indecisos, consultas sobre o casamento entre homossexuais? A ideia era levar os fundamentalistas às urnas e, ao mesmo tempo, colar os Democratas a essa “abominação”. A coisa resultou. E está a resultar de novo, aqui e agora.
De que falamos quando falamos hoje dos chamados “temas fracturantes”? Como será possível que, ao vermos a nossa economia a arrastar-se e o mundo à beira do abismo, tanta gente se concentre num tema que pode ser significativo para muitos mas é por certo lateral? Como é que continuamos agarrados a um Governo de cosmética, patentemente incapaz de apontar caminhos ou sequer de motivar os caminhantes? Como é que persistimos em entregar o maior partido da oposição a gente inepta? Bizarria suprema: no meio desta tormenta, importante e urgente é mesmo o casamento entre homossexuais?
Terçamos armas, esgrimimos argumentos acerados, invocamos a luta contra escravatura… porque uns quantos milhares de pessoas se querem casar e não podem? A solução seria óbvia: deixem-nos casar com quem nos apetece: uns com os outros, uns contra os outros, à molhada, etc. Mas aí o Governo ficaria sem bois de piranha; sem os bovinos débeis e sacrificáveis com que as piranhas se banqueteiam, enquanto o restante rebanho atravessa o rio em segurança.
O pior é que nós nem temos “rebanho”. Estas causas – e os seus activistas – são usados apenas para que o país dê a impressão de se mover, para que a turba adormeça com a ilusão de estar a exercer os seus direitos de cidadania, sem que na realidade nada aconteça. Uma espécie de futebol da intervenção cívica, um assunto para discutir apaixonadamente enquanto as decisões cruciais são (ou não) tomadas às escuras. O PS afasta o tema. O Bloco aviva o debate. O PSD sossega os seus eleitores. O PP anuncia o fim da civilização. E assim se entretêm nos seus jogos florais, a caminho do abismo.
A orquestra do Titanic está animada e a pista de dança repleta; ninguém quer saber quanta água é que o navio está a meter.

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