ironia : especulações

Obama propõe reinventar o estado “social”. As suas propostas não visam a instituição de um estado social à Europeia nem um regresso nostálgico ao passado Rooseveltiano, apesar do intuito ético-filosófico ser o mesmo: justiça social. Visam, pelo contrário, a criação de um estado social sustentável, com métodos de intervenção radicalmente inovadores. Ironicamente, a crise actual coloca-lhe nas mãos os instrumentos de que necessita para implementar este programa de mudança. É verdade que os instrumentos não estão em boas condições. Todavia, a capacidade de adaptação do sistema Americano não deve ser subestimada. Been there, done that! seria a metáfora histórica mais apropriada, julgo eu. O mito de que a intervenção ou a regulação é irracional ou indesejável foi aniquilado por Wall Street, no less.  O estigma da regulação será brevemente uma curiosidade arqueológica. Parece que até as estruturas hermenêuticas (Charles Taylor) estão a torcer pelo Obama!

A tecnologia desempenhará um papel crucial na criação e manutenção deste “novo” estado social. O que não deixa de ser doubly ironic: a crise no sistema financeiro dos EUA fará com que a aplicação de capitais acumulados (ex. subprime) seja considerada menos importante do que a gestação de valor no domínio da inovação tecnológica e cientifica. Precisamente  as policy  areas privilegiadas por Obama e os seus economistas!

É sabido que se aproximam tempos difíceis, para todos. A crise é sistémica. Um exemplo: A China dispõe de cerca de (julgo eu, corrijam-me se estiver errado) 1500 biliões de USD em reserva. Imaginem, por favor: Os EUA em recessão. As exportações Chinesas para os EUA diminuem radicalmente. Repito: radicalmente. (Nos EUA, a estabilidade orçamental será um imperativo Kantiano, ou quase. São os efeitos transversais da presente crise). Continuemos:  os últimos anos de crescimento económico na China geraram expectativas nunca sentidas. Get the picture?  De onde virá o capital para manter a malta satisfeita? Das reservas do estado, naturalmente. Terá a China outros mercados para onde exportar. Claro que sim. Quais? Qual é o poder de compra destes mercados alternativos? Pois.

Em algumas partes da  Europa proclama-se o fim da hegemonia Americana com uma satisfação reminescente  da ejaculação precoce (neste caso,o Johnny come quickly syndrome tem um John at the elm). Gray escreve um artigo para o Guardian onde afirma, com a dramatismo teatral e English miopia que lhe é peculiar, o fim do hegemonia Americana. Não explica. Limita-se a constatar um facto. Não percebe e nunca perceberá que Washington não é Roma e que nunca será Londres (sorry, but, hey, that’s a fact). Não compreende o império Americano. Nem sabe onde se encontra. (escreverei um post acerca das teses estapafúrdias e cómicas de Gray). Na Áustria, a extrema direita realiza um objectivo há muito pretendido. A declaração mais memorável de um dos líderes da nova vaga de nazis, dirigida ao seu eleitorado,  é a seguinte (parafraseando): ” Estes imbecis nem sequer conseguem resolver o problema do emprego!  Nós resolvemos este problema, não duvidem!” Seria bom lembrar que o desemprego já é bastante elevado na Europa.  Não duvido da determinação da extrema direita e não tenho qualquer dúvida que o autoritarismo Prussiano consegue nulificar o poder dos sindicados e dos esquerdistas bem intencionados em poucas semanas. Não tenho a menor das dúvidas.  Na Flandres, o Vlams Blog conquista novos aderentes com cada dia que passa.  Na Suécia, well well. A França de Sarkozy, da Action Directe, das minorias recalcadas e de Napoleão  poderá vir a testemunhar a ascendência meteórica da FN, particularmente no sul. Tragicamente, Sarkozy poderá ser a grande vitima desta crise. Com o falhanço da direita neo-lib-conservadora, a extrema direita terá uma oportunidade de ouro para emular os seus confréres Austríacos. Não duvidem: o falhanço de Sarkozy será a grande oportunidade da extrema direita Francesa. A esquerda Francesa não se entende e não se vislumbra um consenso a médio prazo. Nem quero pensar em tal coisa. (sim, refiro-me à possibilidade de uma guerra civil de baixa intensidade) O potencial impacto destas mudanças no projecto Europeu é deveras assustador. Repito: assustador.

O que me dizem?

Cenário provável?

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31 respostas a ironia : especulações

  1. vienna diz:

    digo que escreve disparates. vivo na áustria e o que escreve não faz sentido. a extrema-direita não ganhou as eleições. se tiveram aumento do número de votos há que analizar isso e não apenas consumir a informação requentada que oferecem os média.

  2. Saloio diz:

    Aqui no “5”, como já é hábito, perferem manter-se alheados a discutir o sexo dos anjos e a promover o candidato americano Obama, como se isso tivesse alguma importância para o porteguezito, perdidos em exercícios de estilo mais ou menos insultuosos, mas sempre inócuos, como impõe a tradição divisionista e de ódio de estimação figadal, entre as diferentes facções vermelhas.

    É curioso como ainda ninguém se referiu a Dinis Machado, que era humilde, era português, tinha valor cultural, e merece ser lembrado na sua morte.

    Está aqui o meu filho a dizer-me que aqui não é falado porque ele não era nem fashion, nem caviar…

    Diz ele…

  3. Saloio, não me parece que esteja a ser justo. Quanto ao Dinis Machado, merecia efectivamente ser lembrado, mas diga por favor ao seu filho que a falha não é imputável a nenhum dos motivos que aponta.

  4. Antes de mais nada convém perceber o que está por trás desta “crise financeira” e do absurdo de pensar que tudo se resolverá com a “regulação” feita por um Estado também ele falido e por um Paulsen que ãté veio da Goldman Sachs.

    Quase toda a gente fala da crise de Wall Street como se se tratasse apenas de um acesso de ganância concretizado através de malabarismos à beira da vigarice.
    Se assim fosse estaríamos nós bem. Castigava-se os tarados e repunha-se a ordem dos mercados.

    O problema é que , por trás dos exageros na concessão do crédito, existe uma crise económica profunda. Não há um equilíbrio sustentável entre a procura, essa sim em crise, e a oferta que cresce exponencialmente.

    O trabalho é cada vez menos incorporado durante a produção, que se automatiza constantemente, e torna-se cada vez mais um componente não-repetitivo que se esgota antes (concepção, planeamento…) ou depois (marketing, distribuição..) do acto produtivo.

    Nos tempos de Marx os operários eram explorados porque quando chegavam às quatro da tarde já tinham produzido o equivalente ao seu salário e, apesar disso, continuavam a laborar até às sete. Hoje, os “trabalhadores do conhecimento” recebem o ordenado do mês em troca de “software” ou “ideias” ou “imagens” que ficam a facturar para os seu patrões durante anos, mesmo até depois de eles terem sido despedidos da empresa que ficou com as suas criações.

    Esta diferença levou à emergência de uma sociedade que tem muita dificuldade em encontrar compradores para as quantidades brutais de mercadorias, físicas e virtuais, que disputam entre si os salários dos trabalhadores.

    É por esta razão que o sistema gera constantemente novas formas de ampliar a capacidade de aquisição, a procura, através de esquemas cada vez mais delirantes de concessão de crédito.

    Em vez de pagar a quem trabalha, a quem cria valor, de acordo com o que rendeu o que se faz é tentar convencer os cidadãos a gastar já hoje aquilo que se supõe que vão ganhar no futuro.

    Enquanto esta contradição não for superada continuaremos a ter “crises financeiras” que não são mais do que sintomas epidérmicos da doença.

    Quando esta contradição for superada já não estaremos provavelmente a viver em capitalismo.

  5. ezequiel diz:

    Ze Carlos,

    O Sr Scruton escreveu este livro que deverá interessar-lhe. É a sua melhor obra. Recomendo-a vivamente. Obrigado pelo comentário.

    http://www.amazon.co.uk/Palgrave-Macmillan-Dictionary-Political-Thought/dp/1403989524/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1223119777&sr=1-1

    vienna,

    eu vivi país das maravilhas mas nunca conheci a Alice. Pena. Espero ter o privilégio de ler a sua “análise” aqui. Há que analisar a cultura política Austríaca, de facto. E a história do país, claro. Por onde devemos começar? ANALISE e deixe-se de tretas. Please, with sugar on top.

  6. ezequiel diz:

    Saloio,

    Envie-me a sua lista de temas. Isto, como sabe, é uma jukebox. É o povo quem mais ordena, que é como quem diz, &%$%&$.

    Crie um blog e celebre a memória do Exo. Senhor Dinis Machado. Do as you like. Mas, por favor, deixe-me escrever o que me vem à cabeça. Será pedir muito?

  7. Saloio diz:

    Estimado ezequiel, entenda-me bem: longe de mim o ensejo de limitar ou condicionar a sua liberdade de escolha e escrita. Tal liberdade é ponto de honra de todos, e se aqui venho é porque quero e porque gosto (ninguém me obriga, nem sou masoquista).

    Como (se calhar ingénuamente) considero o “5” um pouco a casa de todos, também é um pouco a minha casa, e eu em minha casa gosto de lembrar os que merecem…Por isso não vou criar blog nenhum, e peço desculpa se ofendi o seu critério de propriedade e posse – tamém não era esse o meu intuito .

    Apenas, e humildemente, lamento que todos (os proprietários) aqui se estejam a esquecer do autor do brilhante “O Que Diz Morero”, que me parece ter sido um marco histórico na moderna literatura portuguesa e o iníciador da publicação dos inúmeros autores indígenas que hoje por aí, felizmente, populam. Tratou-se de um livro obrigatório da minha geração (a do 25 de Abril), e entretinha-mo-nos a ler ao serão em voz alta para os amigos, a cena da pancadaria com os cámones no Bairro Alto.

    O meu filho diz-me que aqui se esqueceram dele propositadamente porque não era da esquerda caviar, mas o estimável Rogério da Costa Pereira diz-me que não é isso, e eu (que sou um homem de fé) acredito nele, ficando esperançado que algo aqui venha a aparecer.

    Aproveito para estender os meus agradecimentos, pelo óptimo texto/comentário de Fernando Penim Redondo às 12:35, que me parece uma súmula compreensível daquilo que nos rodeia, sem destilar veneno propagandístico: os meus parabéns por tal texto.

    Digo eu…

  8. ezequiel diz:

    Caro F P Redondo

    Obrigado. Já lhe respondo. Bacon&eggs na frigi. Tou a “cozinhar”.

  9. nuno castro diz:

    O texto do ezequiel começa bem…mas depois embrulha-se completamente. Talvez esteja a ser demasiado optimista, ingenuamente optimista, mas parece-me que com Obama se calhar o ímpeto da extrema-direita se encontrará porventura refreado. Se a crise é sistémica, ainda mais são os modelos para a resolverem. Foi a Europa do sr. Barroso que deu o ímpeto à extrema-direita europeia. Note-se, não foi a Europa ab Barroso, mas sim aquela que ele preconiza. Ora esta tinha como grande respaldo os compagnons de route Bush (certamente McCain), Blair e Sarkozy que curiosamente, modelo mais ou menos social aparte, comungavam das mesmas premissas políticas e, em grande medida, do mesmo estilo de fazer a mesma. É preciso compreender que a América de Bush estendeu as suas consequências bem para além das suas fronteiras. A extrema-direita austríaca tem a vitória esmagadora que teve (e sim, é uma vitória: não sei em que parte de Viena vive um dos comentadores…???) porque esta visão do mundo está fortemente imbuída nos governos nacionais. Quer dizer, a margem de manobra que foi dada à extrema-direita resulta directamente da entrada dos seus temas preferidos – imigração, família e pouco mais – pela mão dos partidos de direita do mainstream.

    Tenho esperança que Obama e a américa que ele anuncia, possa despoluir este ambiente de pesada ideologia conservadora que a Europa adoptou em quase todas as suas instituições. Tenho esperança que uma nova visão do mundo, possa destronar este ambiente xenófobo e intolerante que a Europa de Barroso has spoused. E tenho esperança que o mantra neo-liberal seja finalmente posto a escrutínio pelos mesmos que tanta propaganda dele fizeram -o império neocon.

    por estas, e outras, razões, considero que o ezequiel perde de vista, justamente, as consequências sistémicas de um novo modelo americano. ou talvez seja mero wishful-thinking da minha parte…we will see.

  10. nuno castro diz:

    grande texto do Penim Redondo! A base das suas conclusões encontram-se no tremendo “The Economics of Global Turbulence” do Brenner que há algum tempo andava a avisar que isto vai acontecer. “vai acontecer” ou seja, como diz o Penim Redondo, é endémico ao sistema, e não está resolvido, este é apenas o primeiro arroto (seria preferível soluço, mas enfim…) da economia assim como ela é…não sustentável.

  11. Caro nuno castro,

    já que citou um livro sugiro também o meu, mais centrado na automatização, no trabalho não-repetitivo e na transformação do trabalho em “capital fixo” em vez de “capital variavel” e nas consequências disso para o sistema. Ver o bloguelivro em:

    http://digital-ismo.blogspot.com/

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  12. ezequiel diz:

    Caro FP Redondo

    Não vejo as coisas assim. Não sou economista, evt.

    Estamos perante uma crise sistémica com uma determinada natureza. Começou num sector e ameaça alastrar-se a outros sectores, o que deverá acontecer, sem qualquer dúvida.

    Não sou economista mas não me parece que o problema central seja o do equilíbrio entre oferta e procura. É evidente que em tempos de crise a procura diminui. Nada de novo aqui, julgo eu. Mencionei o caso das indústrias do sector tech-sci. Não me parece que a Google, Cisco, Apple, Intel, Oracle etc etc estejam a passar por dificuldades severas (por ora) no que diz respeito à “procura” dos seus produtos. Estas companhias não tem muitas dificuldades em encontrar compradores.

    A actual crise, dizem os economistas que eu leio (que não são muitos), deve-se a um período de crescimento económico sem precedentes na história dos EUA. Mais coisa menos coisa, os EUA não param de crescer desde Clinton ou até mais cedo. Este crescimento económico engendrou expectativas irrealistas. Um erro elementar. Os bancos ofereceram crédito aos NINJAS porque tinham capital em abundância. Basta ver os resultados fenomenais dos mesmos Bancos no período pre-subprime.

    Também me parece evidente que o sistema tem que “gerar novas formas de ampliar a capacidade de aquisição…” Eu diria isto de forma diferente: o sistema capitalista tem que gerar novas fontes de valor. É assim que se multiplica. Se bem me lembro, Marx também falou, como um puto fascinado, da imensa criatividade do sistema capitalista.: a incessante criação de novos plateaus de valor, de inovação etc.

    Aquilo que o Sr interpreta como “contradição” eu interpreto como “potencialidade.” Acho que estamos a falar de dois lados de uma mesma moeda. A questão vital é saber como é que o sistema vai mudar, em que direcção etc

    Mas, como disse, esta é apenas uma opinião muito superficial.

    Quanto a isto:

    “Hoje, os “trabalhadores do conhecimento” recebem o ordenado do mês em troca de “software” ou “ideias” ou “imagens” que ficam a facturar para os seu patrões durante anos, mesmo até depois de eles terem sido despedidos da empresa que ficou com as suas criações.”

    Sabe o que ganham estes trabalhadores? Esqueceu-se de mencionar que os salários dos trabalhadores cresceram muito nos EUA.

    Obrigado pelo comentário,

    Cumprimentos, ezequiel

    PS: Caro Nuno Castro,

    Tenha paciência meu caro. Não sou nenhum génio. Mas, confesso, defender q a xenofobia e a ascensão da ext direita tem alguma coisa a ver com a Europa de Barroso, parece-me um exagerozinho. As origens destes “fenómenos” são bastante antigas. Mas, ok. É a sua opinião.

    Obrigado pelo comentário.
    Cumps, ezequiel

  13. ezequiel diz:

    Do Capitalismo para o Digitalismo

    no less, caro FP Redondo.

    Os Marxistas continuam a notável tradição de serem os melhores analistas e interpretes do sistema capitalista. Irónico, mais uma vez.

    Lerei este livro com a maior das atenções. Obrigado. 😉

  14. ezequiel diz:

    ah, quase que me esquecia: o estado Americano não está falido..está endividado! Não é a mesma coisa. Clinton endireitou a coisa em pouco tempo (refiro-me apenas aos orçamentos equilibrados e às amortizações da dívida) Os que compraram a dívida são aqueles que tem o maior interesse em ter acesso ao mercado Americano. A economia Americana também não está falida. Não exagere.

  15. ezequiel diz:

    ah, quase que me esquecia: o estado Americano não está falido..está endividado! Não é a mesma coisa. Clinton endireitou a coisa em pouco tempo (refiro-me apenas aos orçamentos equilibrados e às amortizações da dívida) Os que compraram a dívida são aqueles que tem o maior interesse em ter acesso ao mercado Americano. A economia Americana também não está falida. Não exagere.

    Presumo que conheça este texto.

    Deixo-o aqui, de qq forma:

    http://www.ndn.org/advocacy/globalization/the-idea-based-full.html

  16. ezequiel diz:

    Perdoem-me a insistência. A noite foi longa e a memória não está grande coisa.

    Só mais um reparo, o último: Eu penso que as pessoas ainda não reflectiram adequadamente sobre o seguinte: a concessão de crédito a pessoas SEM trabalho e SEM recursos. Pensem bem nisto. Per si, já reflecte uma mudança radical na lógica do capitalismo.

    Cumps,

  17. nuno castro diz:

    pois é ezequiel é por isso é que as suas análises valem o que valem: vive entre a biblioteca e as exposições dos museus…not in touch with reality.

    então se me permite, uma resenha rápida. Quem levou a extrema- direita ao poder em Itália? Berlusconi e a força Itália. Sem ela Fini nunca se aproximaria sequer do governo; para além disso, ao darem-lhes poleiro, caucionaram a retórica anti-imigração e anti-estado. Quem levou a extrema-direita ao poder na Áustria? O ovp ou seja o equivalente do CDU na alemanha. Não só fizeram uma coligação com Haider há vários anos atrás, como sempre se inclinaram para o seu quadrante político desputando a sua retórica.

    o Bauman escreveu uma coisa engraçada há uns tempos. dizia ele que os partidos do mainstream (de direita) deixavam a extrema-direita fazer o trabalho sujo que eles não podiam, pela sua posição supostamente democrática e pluralista. Por isso, não se coibem minimamente de com eles fazerem alianças (seja porque razão estratégica for – por exemplo os socialistas austríacos sempre recusaram uma aliança com FPO e seus congéneres) e deixam-nos arengar à vontade. Há um exemplo muito próximo de nós: a retórica anti-imigração de Pacheco Pereira é um equivalente ao fenómeno que Bauman salientou nessa altura. Lembram-se quão vexado ficou o senhor com os cartazes do gato fedorento a gozarem com o PRN?

    pois é, é pessoal dessa massa qque compõe a Europa de Barroso. Pessoas como Fratini, Butiglioni, Berlusconi, Sarkozy (retórica anti-imigração que o levou ao poder e que abrirá – não posso estar mais de acordo – espaço para a FN – Merkel, e outros nomes difíceis de pronunciar quanto mais de escrever, na Dinamarca, na Suécia, na Suíça. É isto que eu chamo a europa de Barroso, e que andou tudo a reboque do beacon of freedom do sr. Bush. Todos eles caucionaram a extrema-direita; veja-se o exemplo de Pia Kiersgarten (tá mal escrito mas quem a conhece sabe a quem me refiro) na Dinamarca. Uma fascista neo-liberal, mais uma vez caucionada por uma governo de centro direita.

    se não percebeu isto da Áustria, então lamento dizer-lhe, não percebeu nada. O ezequiel não é tão esperto como julga e um bocado mais de modéstia – também nos seus textos – não lhe ficaria mal.

    Donde salto para o Penim Redondo. Vai-me desculpar, mas entre você e o Brennen é assim como você estar a falar do Hegel e eu dizer-lhe para ir ler a minha tese em filosofia. Haja pachorra!

  18. Carlos Fernandes diz:

    Penso que por muitas e pertinentes análises teóricas e ideológicas que se façam ( como esta deste Post, por ex.), é tempo de deixarmos os factos falarem por si:o facto é que o que está a acontecer tem na sua raíz causal o facto da China, com o seu impune e esclavagista DUMPING comercial, ter estado a arrasar e a destruir, nos ultimos 15-20 anos a industria e o comércio americano e ocidental.

  19. nuno castro,

    não pretendi comparar-me com o Brennen, que aliás nem sei quem é.
    O que não é grave pois ele, se ainda é vivo, também não sabe quem eu sou.

    Também tenho a certeza de uma coisa: por muito genial que ele seja não pensou em todas as coisas que eu já pensei e vice-versa. O mesmo se aplica ao Nuno e ao Hegel.

    Ou devemos ficar todos calados, daqui para a frente, porque o Brennen já falou ?

  20. ezequiel diz:

    Nuno,

    as forças políticas que menciona – sem excepção – chegaram onde chegaram porque conseguiram afirmar-se nas eleições ANTES dos tais compromissos que menciona. Ou seja, o sr confunde causa com efeito. Finni defendeu a retórica anti-imigração muito ANTES de chegar ao poder. As estratégias de acomodação surgem depois das conquistas eleitorais. Ou seja, o que levou Finni ao poder foi o seu sucesso nas eleições. Foi isto que o elevou à categoria de um player. Afirmar que eles chegaram ao poder por terem chegado ao poder é um atentado ao senso comum, julgo eu. É isto que o sr faz.

    Quanto ao resto, só me resta recomendar que visite a biblioteca. A secção dos jornais talvez seja a mais apropriada. Comece por anotar as datas dos eventos e relacione-as com o poder eleitoral dos partidos de extrema direita. A correlação que menciona (entre a Europa de Barroso e os partidos de extrema direita) só ocorre DEPOIS destes partidos terem conquistado uma boa fatia do bolo eleitoral. Mas diga de sua justiça. Posso estar completamente errado.

    Além disso, a tese de correlação (Europa de Barroso-Partidos de ext direita) que apresenta aqui assenta no pressuposto que estes partidos não usufruem de uma base eleitoral sólida, com uma história política firmemente enraizada nas culturas políticas Europeias. Não surgem desta correlação, por outras palavras.

    Modéstia??? Ok. Pense o que quiser. O Brennen que me perdoe por ter ousado discordar. Pois, é isso mesmo: haja pachorra. LOL 🙂

    Carlos Fernandes,

    O Nuno vê a Europa de Barroso (?) por toda a parte. O Sr. vê a China. Tá tudo explicado.

    obrigado pelos comentários.

    Cumps,
    ezequiel

  21. Luis Moreira diz:

    Bravo Carlos Fernandes, sendo verdade o que diz não pode ser apresentado como argumento.É o mesmo que dizer que eles deviam habituar-se a viver mal e não chatearem! Mas eles pensam e querem uma vida melhor.É uma chatice!

  22. ezequiel diz:

    “Fini was first elected as a representative to the Chamber of Deputies on June 26, 1983 as a member of the rightist Italian Social Movement. He would later serve as the party’s national secretary from December 1987 to January 1990 and again from July 1991 to January 1995. During his time as national secretary, he famously established the MSI as distinctly pro-fascist, with a number of such famous polemical statements, including: “Dear comrades, MSI claims its right to refer to fascism” (1988), “We are fascists, the heirs of fascism, the fascism of the year 2000” (1991), “After almost half a century, fascism is ideally alive” (1992), “There are phases where freedom is not among the key values” (1994), ” Mussolini was the greatest Italian statesman of the twentieth century” , “Fascism has a tradition of honesty, correctness and good government” (1994).[1] .
    Towards the end of the 1990s he gradually began to move the MSI away from its neo-fascist ideology to a conservative political agenda. Some members left, but most remained, and in 1994, Fini merged the MSI-DN with conservative elements of the disbanded Christian Democrats to form National Alliance.
    In January 1995, at a National Alliance conference in Fiuggi he was officially elected president of the newly-formed party, a position he has held since. The conference became known as “la svolta di Fiuggi” (the turning point at Fiuggi) in Italian political parlance.
    Fini and his party have been part of Berlusconi’s right-wing House of Freedoms coalition which won the 1994 and 2001 parliamentary election. Fini became deputy prime minister in 2001 and foreign minister in November 2004.”

    Fonte: Wikipedia.

    passo 1:Fini was first elected as a representative to the Chamber of Deputies on June 26, 1983 as a member of the rightist Italian Social Movement.

    passo 2:Fini and his party have been part of Berlusconi’s right-wing House of Freedoms coalition which won the 1994 and 2001 parliamentary election. Fini became deputy prime minister in 2001 and foreign minister in November 2004.”

    O seu argumento, Nuno pode ser sucintamente delienado: Non sequitur.

  23. Carlos Fernandes diz:

    L. Moreira, o que me chateia não é que eles queiram uma vida melhor, têm todo o direito a isso, o que chateia é que o façam de uma forma desonesta, pelo dumping.

    De resto os jornalistas e os media ocidentais em vez de encherem diariamente as páginas e o prime-time muitas vezes de trivialidades, podiam investigar por ex. se as ” lojas dos 300″ chinesas (porque a ideia que existe é que eles compram ou alugam as lojas com a ajuda de primos ou familiares…) não são tb. financiadas pelo Governo chinês, que assim assegura a montante pontos de venda e de escoamento da produção.

  24. “Vlaams Blok” e não “Vlams Blog”, sff. Get it?

  25. Luis Moreira diz:

    Carlos Fernandes, o grande problema que está em cima da mesa, e que você aborda , é a transmissão da riqueza dos países ocidentais para os países produtores de petróleo.E tambem, para os países que fazem dumping social, Índia e China, mas aqui porque os mercados deles de milhões e milhões de pessoas interessam ás nossas multicionais.Somos nós que achamos que é do nosso interesse. Mas os países estão a fazer o que devem,embora levando o nosso dinheirinho.

  26. ezequiel diz:

    João André,

    ah, vlams blog vlams glog vlams shop seuey vlams clams vlams with pink tutus… who gives a sheit?!

  27. nuno castro diz:

    raios os partam – parece que não ficou claro que a Europa de Barroso é uma metáfora e não tem nada que coincidir com a entrada de Barroso para presidente da UE. Por isso, a sua preleição sobre a temporalidade da europa de Barroso não tem nada a ver com o que eu estava a dizer. Contudo, os líderes europeus foram na sua maioria aqueles que mais caucionaram a política norte-americana dos últimos 10 anos e isso teve as suas consequências em diversos aspectos, nomeadamente, economia e direitos cívicos.

    Eu não disse que a massa crítica da extrema-direita não existia antes de chegarem ao poder. Não há confusão nenhuma entre causa e efeito. O que aconteceu é que a extrema-direita estava contida – sobretudo a sua retórica – por uma espécie de pacto de cavalheiros inquebrável resultante do após-guerra. Ou seja, este pacto de contenção começou a ser quebrado quando as alianças com partidos de extrema-direita surgiram. O que é preciso ter em atenção é que as alianças não surgiram por questões matemáticas, mas porque começou a haver uma partilha de ideais. A esse respeito o mais interessante é observar a Europa de Leste que é muito mais ilustrativa (ainda mais…), onde a extrema-direita se apoderou do poder porque o contra-discurso da esquerda foi anulado. O mesmo se passa na Áustria: os partidos do centro concederam todo o espaço à extrema-direita, e a esquerda simplesmente não existe.

    agora seria ingénuo julgar que a coisa se mobiliza meramente a nível partidário. se há elemento que fez pesar a balança para o lado da direita foram os media. Nos países onde a extrema-direita abocanha o poder, quando analisados os media de maior expressão compreende-se a completa lavagem ao cérebro. Imaginem um diário de notícias a debitar diariamente merdas anti-imigração, contra o estado-providência, e páginas cheias de exemplo de criminalidade de estrangeiros, e têm um panorama aproximado do que são os principais jornais na Dinamarca, na Áustria, em Itália, e por aí afora.

    Portugal é um caso interessante. Pra já, porque o discurso parece estar contido. Lembra-se quando Portas veio com merdas sobre trabalho pós portugueses e o caraças…o PSD cortou-lhe logo as vasas e bem. E assim mantêm-se o prn nas baias dos 0,4%. Até ver. se esta retórica começar a campear nos partidos do mainstream, aí acabou-se. por isso é que tipos como pacheco pereira são irresponsáveis (quando não idiotas) ao viram com a treta da liberdade de expressão. é que o jogo é perigoso e as suas regras não estão bem definidas. aliás o ezequiel aflora isso no texto da identidade nacional…

    o Brenner? Que raios, o Brenner é um historiador da economia e tem as obras mais importantes (da esquerda) sobre história dos sistemas financeiros e suas crises. limitei-me a referi-lo porque o gajo anunciava isto no economics of global turbulence que é bem fixe…

  28. ezequiel diz:

    caro Nuno

    percebi que a europa de barroso = metáfora.

    não poderia ser outra coisa.

    Compreendo melhor a sua posição agora

    Obrigado pelos comentários interessantes.

    cumps, ezequiel

  29. ezequiel diz:

    Nuno, oops, esqueci-me..

    a “temporalidade” a que me referi não tem rigorosamente nada a ver com a entrada do Barroso. Tem q ver com os passos dados por fini.

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