A homenagem

No tempo em que a poesia detinha ainda o prestígio a que deveria sempre ter direito, o velho poeta C. aguardava o seu comboio numa pequena estação das Beiras perdida entre penhascos, e sem ninguém por perto. O poeta não tinha graça: tinha caspa, dedos gordos e era desagradável no trato, irritadiço; enquanto esperava, irritava-se ainda mais, pensava na sua próstata, nas suas dívidas, à tous ses petits et gros enmerdements. Nisto ouve-se um tropel de cavalos e do nada surge um pequeno descapotável, guiado pela jovem e bela condessa de O.. Ela salta do seu coupé, dirige-se ao velho poeta que nunca tinha visto antes, mas que reconhece de um daguerreótipo que antes vira, inclina-se perante ele e beija-lhe a mão (os dedos gordos), dizendo-lhe: “-Condessa que sou, não me preocupo com o que pense do meu gesto, mas fique sabendo que não é a si que eu presto homenagem, é à sua obra”. Estamos a muitas léguas da civilização, numa paisagem quase desértica, agora sob um pôr-de-sol de fogo; a Condessa de O. parte tão de súbito quanto tinha chegado e a sua imagem depressa desaparece no horizonte; e o comboio continua sem chegar. Enquanto não chegava, o velho poeta (lembram-se do “Vento nas árvores”?) juntava mais uma às suas pequenas e grandes irritações e dizia para consigo que aquela Condessa, de quem nunca ouvira falar, era a própria morte, a convidá-lo para o Panteão dos Poetas.

(Une histoire du Petit Poulou, adaptação livre)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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7 Responses to A homenagem

  1. Luis Moreira diz:

    Era loura,olhos azuis ,muito azuis,dentes alvos.Linda.morava no caminho que eu fazia para o Liceu.Comecei a vê-la à minha frente, um andar gracioso.Todos os dias, comecei a vê-la. Passou-me pela cabeça que ela esperava por mim.Um dia, esperei-a à porta, no fundo da Alameda.Viu-me e sorriu.Bom dia, com lusinhas e estrelas.Passamos a falar. O irmão mais velho do que eu, azul e loiro como ela, falava-me amigavelmente.Sempre de fatiota.Um dia tivemos um baile, lá na minha rua.Lá apareceu, dancei com ela, fiz tudo para para a monopolizar.danço bem, fiz uns números.Ela sorria com a cabeça levemente inclinada para a esquerda,para fugir ao vulcão que a agarrava pela cintura.Um sorriso levemente irónico.Disse-lhe que era linda. Ela sorria, não fui capaz de mais.Um dia vi-a com um gajo de mão dada.Nesse dia percebi que quem não vai à luta ,morre mil vezes!

  2. António Figueira diz:

    Sorte sua, Luís: as gajas de “dentes alvos” costumam ter os caninos afiados.

  3. toulixado diz:

    Percebi tudo, só estou a remoer-me com o facto de não saber quantos cavalos eram.

  4. António Figueira diz:

    Make it double, as in movies.

  5. toulixado diz:

    E perguntas tu se nos lembramos do Bento nas árvores. Claro que me lembro, quando ele estava naquele castanheiro em Trás-os-Montes e saltou pela janela adentro da outra que lhe deu a solipampa e marou.

  6. António Figueira diz:

    Muito bem, vejo que sabe (não precisa de tarlixado).

  7. Luis Moreira diz:

    Nem por isso António, não lhe senti a “trincada”! Quem se sente lixado sou eu!

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