Que globalização é irreversível?

As palavras nunca são inteiramente claras nem constantes, mas ainda assim teimamos em sustentar anos de discussão em cima delas. Vejamos a palavra “globalização”, de que se falou estes anos todos. Tinha três características: era uma coisa; era recente; era irreversível.

Em primeiro lugar, a globalização não é só uma coisa. Há a globalização financeira e a dos mercados, que é a de que se fala. E há outra, porventura mais importante, que é uma globalização comunicacional e tecnológica.

A globalização económica não é recente e muito menos irreversível. O mundo não é plano nem cada vez menor: basta aumentar o preço do petróleo e lá fica ele maior outra vez. Basta mudar a lei e lá fica ele proteccionista outra vez. No século XVIII era possível atravessar a Europa sem passaporte e demorámos duzentos anos até poder fazê-lo de novo. Antes da I Guerra Mundial o mundo era mais globalizado do que foi durante quase todo o século XX. Há um século havia mais emigrantes no mundo, proporcionalmente, do que há hoje em dia (só que eram europeus na América e África, e não o contrário).

A globalização cultural está para durar. O petróleo, o crédito e as tarifas alfandegárias não a detêm. A sua força propulsora é a das tecnologias da comunicação, que por sua vez assentam em códigos culturais partilhados e – em especial – num idioma comum. Aqui entra a importância, para nós, da língua portuguesa. Ela será sempre subaproveitada enquanto nos mantivermos numa atitude de rejeição e desconhecimento em relação ao resto do mundo lusófono. O cartão postal que Pedro Santana Lopes enviou ao escritor brasileiro Machado de Assis – que morreu há cem anos feitos esta semana – é a medida dessa ignorância. Que tal aproveitar o centenário para ensinar Machado de Assis nas nossas escolas, tal como os brasileiros ensinam Camões e Pessoa nas deles? Que tal aproveitar, aliás, para começar a respeitar o Brasil, uma potência regional emergente cujos emigrantes são uma boa parte da nossa força de trabalho?

Mas o português não basta, tal como não basta uma única língua estrangeira. Nenhuma medida seria mais importante agora do que generalizar o ensino do espanhol no quinto e sexto ano de estudos, como foi generalizado o inglês recentemente. Dois anos de espanhol são suficientes para formar uma geração de estudantes e diversificar o nosso potencial neste hemisfério. Pouco custo, muito benefício.

Esta é uma globalização do conhecimento, em particular de nível superior. Vejo o reitor da Universidade Católica defender o aumento das propinas na Universidade pública, e só penso: que tiro no pé.

Propinas altas diminuem a mobilidade social, aumentam as desigualdades e prejudicam a liquidez de que mais precisamos: na circulação de ideias.

Se há ensinamento a retirar da predominância dos EUA no século XX é que um país confiante e aberto é um país que absorve melhor as pessoas (exemplo: os intelectuais em fuga da Europa, judeus em particular, que Salazar não quis que ficassem por cá), as suas ideias – e as suas soluções. A mesma América que agora, sucumbindo ao medo, se fechou num buraco. A Europa deveria aprender com isso para esta globalização que não pára. Ao menos que aprendesse Portugal.

01.10.2008, Rui Tavares

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