Luz sobre Lisboa

Segundo o UrbanAudit, serviço da UE, Lisboa é a cidade média/grande mais desvitalizada de toda a Europa a 27. Não há notícia, em toda essa Europa, de um parque habitacional tão fragmentado — excepto em pequenas cidades romenas que perderam a indústria mineira. Lisboa perdeu, em trinta anos, trinta por cento da população. Para os leitores do resto do país que podem estar fartos de ouvir falar da capital, pensem nisto como um caso extremo dos problemas que podem afligir também as vossas cidades.

Tal como uma cidade saudável pode ser o motor do renascimento de um país ou região, uma cidade encalhada é um obstáculo a mais para a sua recuperação. A criação de uma política urbana, sistemática e bem articulada, deveria estar na prioridade da agenda nacional. Mas a cultura política dominante tem sido exactamente a oposta: a do casuismo como forma de acção. Um caso recente é o emblema do que acabo de escrever.

A notícia de que a Câmara Municipal de Lisboa andou, durante sucessivas vereações, a distribuir casas de forma arbitrária, ao serviço da cunha e do episódio individual, é evidentemente um escândalo político. É até mais do que isso: o símbolo do tempo desperdiçado e dos recursos mal empregues que poderiam ter sido usados para benefício da cidade.

António Costa tem de agir rapidamente nos dois planos.

Em primeiro lugar, interromper a prática não basta. Se for verdade que uma vereadora beneficiou dela, mesmo que em tempos de outro presidente, a própria vereadora tem que vir dar explicações a público.

Se as explicações não forem satisfatórias, terá de demitir-se. É tão simples quanto isso. Sem essa acção nunca a câmara se poderá credibilizar para o passo que se segue.

A utilização do parque habitacional da câmara pode — e deve — ser uma ferramenta ao serviço da revitalização da cidade. Mas esta é uma política pública por excelência: com património público, para benefício último do público, e de maneira a que tudo se passe em público.

Para dar um exemplo: sim, é verdade que os artistas são muitas vezes o primeiro motor do renascimento de um bairro. Não é raro — e não é mal pensado — que os poderes municipais, por esse mundo fora, se empenhem em cativar as classes criativas para certos pontos da cidade. Mas a única forma correcta de o fazer é através de concursos públicos para residências artísticas por prazo limitado a troco de projectos específicos. Exemplo: vinte ou trinta jovens artistas por ano, escolhidos pelos professores da Faculdade de Belas-Artes (de preferência da Universidade do Porto, para não haver confusões).

Também o caso do artista ou escritor de mérito a quem a cidade decide retribuir pela sua obra não me choca especialmente — desde que seja excepcional, se passe à luz do dia e traga benefícios para os munícipes como a utilização de uma biblioteca ou a constituição de uma fundação — e seja pensado como homenagem e não como favor.

A atribuição de casas a funcionários da câmara, jornalistas e políticos não é admissível — nunca, jamais, em tempo algum — e nada a pode justificar. Só nos permite saber que afinal havia recursos para uma política interessante que foram desviados e desperdiçados.

Tendo em conta o grave panorama urbano de Lisboa, é um duplo escândalo, tornado ainda mais deprimente por uma cultura municipal “histórica” que parece achar que tudo isto é normal. Nesse caso, é essa cultura que terá de ser mudada de alto a baixo, com carácter de urgência e sob o olhar de todos. A máxima a seguir é: o melhor desinfectante é a luz do Sol

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

10 respostas a Luz sobre Lisboa

  1. Chico da Tasca diz:

    A Câmara de Lisboa é uma tristeza e um péssimo exemplo para todo o país. Pesada, carregada de burocracia, ineficiente, entulhada por um número excessivo de funcionários qie ninguém sabe muito bem para que servem, incapaz de resolver os problemas mais comezinhos quanto mais de delinear estratégias para esta Cidade. E como se não bastasse, revela-se um antro de amigalhaços.

    Depositava algumas esperanças em António Costa, mas não sei…. a tarefa não é fácil, provávelmente teriam de ser dados alguns murros na mesa e teria de se enfrentar lobbies de parasitas que lá estão entranhados. Não sei se ele é homem para isso…

  2. Jaime Roriz diz:

    Dizia Álvaro Cunhal num livrinho eu escreveu nos anos sessenta (antes do 25 dabril portanto) “muitos anos depois de haver uma revolução, o aparelho de estado, continuará a pautar-se pelas regras do sistema fascista”

    Lamentavelmente tinha razão.

  3. “Exemplo: vinte ou trinta jovens artistas por ano, escolhidos pelos professores da Faculdade de Belas-Artes (de preferência da Universidade do Porto, para não haver confusões).” F-se!

    “Também o caso do artista ou escritor de mérito a quem a cidade decide retribuir pela sua obra não me choca especialmente — desde que seja excepcional, se passe à luz do dia e traga benefícios para os munícipes como a utilização de uma biblioteca ou a constituição de uma fundação — e seja pensado como homenagem e não como favor.”
    F-se!

    Parece que uma certa “água-ardente” levou-te para a palermice …!
    Nem imaginação dinâmica te acometeu!!!!!!
    Que tal RESIDÊNCIAS ARTíSTICAS para qq artista de qualquer parte do PLANETA! Já é sem tempo! Começa a pensar Global! Provincianismo anorético já há mto por aí. Pelo menos copia o que já há mts anos se faz em Berlin.

    Escritores??? quais escritores??? Os Poetas “quasi”??Brincamos??? Uma casa para o M Sousa Tavares??? Brincamos???
    na digo mais nada … PENSA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Onde é que diz no meu texto que não podem concorrer artistas de qualquer parte do planeta, De Puta Madre? Não há pachorra.

  5. Chico da Tasca diz:

    “Dizia Álvaro Cunhal num livrinho eu escreveu nos anos sessenta (antes do 25 dabril portanto) “muitos anos depois de haver uma revolução, o aparelho de estado, continuará a pautar-se pelas regras do sistema fascista”.

    Não sei o que é mais ridiculo, se ir buscar o fascismo, que já está morto e enterrado há umas boas décadas, como culpado da bandalheira, da incompetência e do amiguismo camarários, se levar em consideração qualquer coisa, seja ela qual fôr, dita pelo Bode Branco, por sinal, um comuno-fascista de primeira água.

    Não senhor Jaime Roriz, a culpa desta situação, e de práticamente todas as que assolam o país, 30 e tal anos após a porcaria do 25, é o, por todos conhecido, Laxismo de Esquerda !

    A Esquerda levou este país, e muito particularmente, a CML, à bandalheira que vivemos, com quase tudo por fazer. Por que é que a CML, com mais de 11 mil funcionários, maior que muitas transnacionais, não é capaz de levar a cabo as tarefas mais simples de conservação, ou leva anos para tratar de um qualquer processo que lá entre ? A resposta é fácil : porque a pandilha de Esquerda que domina aquilo não deixa que se toquem nos tachos nem nos 11 mil meninos que andam lá a fingir que trabalham.

  6. Diogo Vasconcelos diz:

    O artista ou escritor de mérito? que critério é esse? e se o vereador achar que o zé manel (que por acaso é sobrinho) até canta coisas “muito lindas”? O artista ou escritor de mérito não precisa de uma casa em forma de homenagem (nem vou discutir que tipo de homenagem é essa) mas antes de uma cidade em q as pessoas vão aos museus ver as suas obras ou leiam os seus livros. Eu como estudante por exemplo não tenho onde estudar ao fim-de-semana em Lisboa (falo de bibliotecas – na sua grande maioria fechadas). E o argumento da classes criativas: porque é que um estudante de engenharia no Porto teria menos direito que um estudante de belas artes? Isso seria uma forma de discriminação muito pouco aceitável. E porquê a jovens? Porque trazem o tal dinamismo? E eu que não gosto de ser dinâmico tenho menos direito a uma casinha da CML? E o pouco jovem mas trabalhador emigrante que está a tentar compor a vida mas que não toca violino nem escreve poemas? E a minha vizinha do lado que lava escadas e q come atum c atum no final do mês? E o filho dessa vizinha que trabalha a noite para poder pagar as propinas?
    Na verdade este post não pretende ser uma critica a este escândalo. Na verdade este post tenta apenas limar as arestas de um sistema que sendo hoje uma vergonha, caso fosse como o Rui Tavares escreve apenas alimentava uma elite diferente (“epá façam lá isso às claras e vão dando umas casas a uns artistas que eu cá sei q isso de funcionários queima a malta”). Uma vergonha (a situação e o post).

  7. Jaime Roriz diz:

    Caro Chico da Tasca,

    Quando se acalmar aconselho-o a ler o livrinho. Aconselho-lhe também a resolver essa questão que tem com a esquerda …. talvez num psicanalista? É que … talvez não se lembre mas isto começou com o Abecassis “eleito pela coligação de esquerda Aliança Democrática”

    Se acha que a AD era de esquerda … acho que só mesmo o psicanalista…. Eu próprio já fui a um psicanalista …. eu achava que o Manoel de Oliveira fazia filmes … e como vê agora estou curado.

  8. SorrrrrrY RTavares … parece que a minha água-ardente é que estava estragada … li o q n estava lá ( quase que jurava! mas voltei a ler …) afinal os Juris eram os profs do Porto … e não os candidatos os 30 jovens do Porto. F-se! para mim.

  9. nuno castro diz:

    sim Rui, mas deves começar pela Câmara de Monção e acabar na de Vila Real de Santo António…Ou convenceste-te que o problema apenas reside em Lisboa?

    e se os jornalistas fossem vasculhar por exemplo na Câmara de Oeiras, num lindo bairro que há numa soalheira colina de Caxias – casinhas de luxo com vista para o mar – e que em vez de serem habitadas pelos desvalidos do município foram esbulhadas pelos empregados da Câmara. Que grande notícia que seria, hem?

    e o Santana e a habitação jovem do Largo Camões? E tu Rui não estarás numa destas casinhas também recuperadas pela Câmara no centro da cidade e postas a valer fortunas nas mãos dos seus moradores…diz lá à gente onde moras, meu rapaz?

  10. no bairro da graça, num terceiro andar sem elevador, comprado através de um empréstimo a trinta anos, de que dez já passaram com algum esforço.

Os comentários estão fechados.