Fedorento?

A SIC continua a sua inteligente estratégia de promoção do novo programa dos Gato Fedorento (ao contrário do que a RTP parece ter feito com uma sua aposta homóloga). Francamente, estou com vontade de ver a coisa, mas já me farta um pouco tanta aparição promocional. Enfim, ontem lá vi uma espécie de entrevista com a Rita Ferro Rodrigues. E aquilo correu bem, com momentos delirantes.
Mas o clima galhofeiro anuviou-se de repente, mal uma palavra proibida entrou naquele estúdio: “política”. Aí, a vontade de brincar deu logo lugar à pressa de fugir para o tema seguinte. A propósito da brilhante charge ao professor Marcelo, os Gato meteram os pés pelas mãos, tentando provar o improvável: que aquilo podia ter tido “efeito”, mas não tinha tido “intenção” política – dando como exemplo o efeito, inocente e livre de intenções pecaminosas, de um Domingo soalheiro na afluência a umas eleições.
O pior foi quando se falou do cartaz com que arrasaram há uns tempos a propaganda ranhosa de um partido xenófobo. Três deles preferiram desconversar, assobiar para o lado, ignorar aquele episódio como se fosse um embaraço. A conversa acabou por ser desviada, imagine-se, para o frutífero tema do… futebol. Valeu Miguel Góis, o único com a coragem de justificar a coragem pretérita, afirmando que “era o que faltava, os imigrantes virem cá fazer trabalhos que recusamos e ainda serem mal tratados” (cito de memória).
Espero que este tenha sido apenas um pequeno passo em falso. Que o contrato com o Dr. Balsemão não lhes limite as incursões na política às patuscas caricaturas de governantes e presidentes de clubes de futebol, assim à laia de bonecos do Contra Informação: engraçados mas sem intenções e, melhor ainda, sem efeitos.

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18 respostas a Fedorento?

  1. Não fiquei nada com essa ideia. Pelo contrário, o RAP explicou que aquilo do cartaz tinha sido uma piada e não, como referiu a comunicação social, “só” uma piada. Faz toda a diferença, com isso quis significar que o humor não é uma coisa de somenos, que se pode ir além do fazer rir. Quanto ao Marcelo, a mesma coisa. O que o RAP disse é verdade: aquilo não é política, é humor. Se o humor tem algum efeito político isso é como o sol aparecer em dia de eleições. E não, não me estou a contradizer, embora aparentemente pareça.

  2. Luis Rainha diz:

    Querem portanto convencer-nos de que não houve naquela caricatura do Marcelo qualquer intenção nem previsão dos efeitos prováveis? Olha que não vi nenhum sketch de sentido inverso… Alguém acreditaria mesmo em tanta inocência?
    E a forma como chutaram a conversa para canto, desatando a falar de futebol? Não te pareceu um sintoma de algum embaraço?
    Pior: um deles (esqueci-me qual) até deu a entender que antes de mais era importante saber se um imigrante que tinha elogiado o cartaz lhe achara… piada.
    E claro que aquilo é política. O humor pode ser política, o jornalismo pode ser política, blogar pode ser política. Aliás, quase tudo o que fazemos em público também é política. Só que este substantivo não é, ao contrário do que muitos pensam, um palavrão.

  3. Luís Lavoura diz:

    “soalheiro” e não “solarengo”

    solarengo = parecido com um solar

    soalheiro = com muito sol

  4. Luis Rainha diz:

    Clarificando: gosto dos Gato e tenciono ver o próximo programa. Apreciei o cartaz da imigração como boa piada mas também como acto de empenhamento cívico: como um alerta para a turba: “Atenção, malta que estes gajos são ridículos e perigosos”. Isso é humor, é política, é humor político, é, acima de tudo, ter a coragem de intervir quando parece necessário, mesmo que isso aborreça os skins e a CML.
    Uma boa piada também pode ser muito mais do que uma boa piada. Felizmente.

  5. Não, eles são mesmo assim. Não se querem comprometer de forma diferente daquela que utilizam, que é através do humor. Quanto à do emigrante ter ou não achado piada ao cartaz, penso que foi o Tiago, também acho natural a pergunta. Antes de mais têm que ter piada, caso contrário já estão a fazer outra coisa qualquer que não humor. E nota que eles disseram que as SIC os contratou para fazer humor, não outra coisa qualquer.

    Obviamente, tudo pode ser política. De resto a própria política antes de o ser raramente não é outra coisa qualquer, raramente não assume uma forma diversa. Mas, nos caso dos Gato, eles não querem comprometer-se a fazer o que quer que seja que não seja, antes de tudo o mais, humor. É assim que os venho entendendo.

  6. GL diz:

    É simples. Os Gatos são PS, apesar de uma ou outra caricatura a Sócrates.
    Agora no reino de Balsemão, a ordem é fechar a matraca. Deus queira que não seja a debacle dos GF.

  7. Luis Rainha diz:

    Luís Lavoura,
    Tem toda a razão. E já não é a primeira vez que meto esta argolada.

    Rogério,
    Olha que o cartaz da imigração, desprovido do original ao lado, nem sentido teria, quanto mais piada. Não se pode fazer uma incursão no domínio da propaganda política, ridicularizar uma ideia política e depois querer dar a entender que aquele cartaz poderia estar ali com uma qualquer anedota banal.
    Ao fazer o cartaz e o sketch do Marcelo, eles só se comprometeram com uma postura corajosa, de quem não tem medo de transgredir as fronteiras e saltar do entretenimento para o empenhamento cívico. Ficou-lhes muito bem, ao contrário do que na altura foi escrito no “Blasfémias”. Julgo que esta tentativa de higienizar tais episódios, confinando-os ao reino do humor, só diminui esses mesmos episódios e os próprios Gato de hoje.

  8. Não se trata de higienizar. É uma questão que vem desde sempre, com os Gato, eles jamais assumirão que são para levar a sério, mesmo que o façam para ser e o sejam. Por isso é que o RAP está sempre a dizer que é um palerma, um parvo, cenas desse género. Coloca-os num patamar de não comprometimento com nada que lhes é muito útil nesses grandes momentos, como o do cartaz.

  9. Maria João Pires diz:

    Será que a auto-ironia deve ser vista como “não comprometimento”? Não tenho a certeza disso ou, pelo menos, eu não a encaro assim.

  10. Talvez “não comprometimento” não seja a expressão acertada. Mas a questão é que eles querem ser livres para criar e só o conseguem ser se nunca assumirem que fizeram determinada coisa com determinada intenção.

  11. Luis Rainha diz:

    Rogério,

    Para ver se a tal atitude vem «desde sempre», talvez seja boa ideia recapitular o que eles disseram na altura do cartaz:
    Diogo Quintela: «É uma mensagem polémica e as mensagens polémicas e as coisas polémicas acabam por ter alguma graça».
    RAP: «O nosso cartaz é um acto de humor, não é acto político; é uma sátira política, mas não descarto que possa ter consequências políticas»; «…portanto, não temos nenhum interesse em dar-lhes maior visibilidade. Se o Pacheco Pereira diz que o efeito foi aquele, então, pelos vistos a coisa vai contra o que nós queríamos.»
    Ou, como escreveu a patroa, «O gato Ricardo Araújo Pereira diz que o cartaz é “a posição deles como cidadãos”. Recusa, no entanto, estar a “fazer política”, frisando: “é um acto humorístico”. E se admite poder ser lido como um gesto político, sê-lo-á, sublinha, como muitos outros gestos.» Ora, nem mais.

    Mesmo descartando o nonsense de uma sátira política não ser um acto político, onde está aqui a tal redução de tudo isto a uma “piada”? Eles assumiram logo no início a polémica (até como raiz da graça da coisa) e “queriam” declaradamente obter um dado efeito. Isto não é “intenção”?

    Faço minhas as atempadas palavras da f.: « Se a política é uma coisa que se come todos os dias, como diz a frase feita, todos os gestos são políticos, etc, etc. Mas toda a gente sabe que (para usar outra frase feita) há gestos mais políticos que outros, e o cartaz dos Gato, por mais graça que tenha – e tem, mas pilhas de graça, dentro do género cómico involuntário, tem também o do PNR – é definitivamente um desses. E dos mais explosivos de que há memória.»

  12. Acho que estamos todos a dizer mais ou menos o mesmo e, mais importante, não me parece que a atitude deles tenha mudado, esse, afinal o cerne do post. No fundo, eles não se querem assumir como algo diferente de humoristas – e isso ajuda-os a criar esses momentos políticos, o facto de não o assumirem expressamente.

  13. LR diz:

    Discordamos, então. O problema, a haver algum, está na forma como aquela tirada do Miguel Góis se viu emendada pelo RAP com uma graça qualquer acerca do Reyes e outros «imigrantes» do Benfica. Isto enquanto os outros 2 olhavam para a mesa. Um verdadeiro tesourinho deprimente.
    Resumindo: espero que o Gato nunca deixe de ser “Fedorento”, nunca deixe de ser capaz de interpelar a malta fora do contexto expectável, e passe a ser “Gato mais-ou-menos-inócuo”. Acho que ficaríamos todos a perder.

  14. Acho que os tipos jamais voltariam à SIC, de onde saíram da forma que se sabe, se lhes estivessem a impor qualquer tipo de regras do género que dás a entender.

  15. PDuarte diz:

    engraçados os bonecos do contra?!!!

  16. Nik diz:

    Se os gatos fedorentos enveredarem pelo posicionamento político, ainda que indirecto, vai-se ver muito rapidamente de quem é que eles não troçam, ou de quem troçam mais amavelmente. A arte não tem que tomar posição política, tem que ser contra todos, se quiser ser do contra. Tem é que defender ou dar algum indício de que defende os valores universais e eternos mais indiscutíveis, como a verdade e a liberdade.

  17. Ines Meneses diz:

    É humor “engajado”, como é corrente no universo anglo-saxónico e como eu assumia que eles estavam a fazer com consciência e sem complexos. Como o Luís Rainha, ficaria algo desiludida se não fosse isso.

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